<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Subsolo]]></title><description><![CDATA[Jornalismo investigativo. Do subsolo para a superfície.]]></description><link>https://subsolojornalismo.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5SfG!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F24f4d0e5-9164-42b7-91d4-13f69e58a4b7_1280x1280.png</url><title>Subsolo</title><link>https://subsolojornalismo.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 20 Aug 2026 09:47:44 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://subsolojornalismo.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Subsolo]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[subsolo@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[subsolo@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Ruan Martins]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Ruan Martins]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[subsolo@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[subsolo@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Ruan Martins]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[GRILAGEM.COM]]></title><description><![CDATA[Investiga&#231;&#227;o revela como grileiros lucram com a usurpa&#231;&#227;o de terras p&#250;blicas na Amaz&#244;nia]]></description><link>https://subsolojornalismo.substack.com/p/grilagemcom</link><guid isPermaLink="false">https://subsolojornalismo.substack.com/p/grilagemcom</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Martins]]></dc:creator><pubDate>Sun, 09 Aug 2026 17:39:47 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/05ea85be-6d1f-4e8c-8356-101c3c6efa2e_620x430.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Por ocasi&#227;o do Dia Internacional dos Povos Ind&#237;genas, </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> est&#225; publicando uma s&#233;rie de reportagens que revela como grileiros de terras t&#234;m lucrado com a invas&#227;o de florestas p&#250;blicas na Amaz&#244;nia brasileira. Por meio de an&#250;ncios de im&#243;veis rurais publicados em redes sociais e marketplaces, a reportagem descobriu como a usurpa&#231;&#227;o de &#225;reas p&#250;blicas antecede e impulsiona o desmatamento na floresta, al&#233;m de agravar o quadro de viola&#231;&#245;es de direitos humanos na regi&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao longo de dois anos de investiga&#231;&#227;o, um rep&#243;rter do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> coletou dezenas de an&#250;ncios suspeitos de grilagem, conversou com mais de uma centena de corretores imobili&#225;rios, analisou dezenas de milhares de registros de compras de ouro e rastreou as conex&#245;es entre as terras &#224; venda na internet, garimpos de ouro ilegais e projetos de cr&#233;ditos de carbono, em um trabalho que resultou na produ&#231;&#227;o de cinco grandes reportagens que cobrem as diferentes formas pelas quais uma terra p&#250;blica usurpada pode gerar lucro aos seus invasores.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Neste trabalho, os an&#250;ncios de im&#243;veis rurais ofertados na internet serviram como um fio solto que, quando puxado, desfaz todo o novelo. Abaixo, </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> apresenta os principais achados da investiga&#231;&#227;o:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- O cap&#237;tulo &#8220;</span><a href="https://subsolojornalismo.substack.com/p/a-amazonia-a-venda-na-internet"><span>Amaz&#244;nia &#224; venda na internet</span></a><span>&#8221; revela que cinco milh&#245;es de hectares de florestas p&#250;blicas na Amaz&#244;nia foram encontrados &#224; venda em marketplaces e redes sociais. O Facebook concentra o maior n&#250;mero de casos. Em 2021, a Meta havia prometido coibir esse tipo de com&#233;rcio. A investiga&#231;&#227;o mostra que essa promessa n&#227;o foi cumprida.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Em &#8220;</span><a href="https://subsolojornalismo.substack.com/p/o-sistema"><span>O Sistema</span></a><span>&#8221;, a reportagem revela como engenheiros e agrimensores est&#227;o usando um cadastro ambiental federal para ajudar grileiros de terras a validar suas invas&#245;es. A reportagem tamb&#233;m mostra que, embora o Conselho Monet&#225;rio Nacional tenha proibido a concess&#227;o de cr&#233;dito a im&#243;veis que apresentam algum tipo de sobreposi&#231;&#227;o a territ&#243;rios ind&#237;genas, o Ita&#250; Unibanco concedeu, em junho de 2025, um empr&#233;stimo de cinco milh&#245;es de reais a um empreendimento em propriedade ligada ao senador Jaime Bagattoli (PL/RO), a qual est&#225; parcialmente sobreposta &#224; Terra Ind&#237;gena Rio Omer&#234;, em Rond&#244;nia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- O cap&#237;tulo &#8220;</span><a href="https://subsolojornalismo.substack.com/p/fogo-e-sangue"><span>Fogo e Sangue</span></a><span>&#8221; investiga o quadro de viola&#231;&#245;es de direitos humanos e destrui&#231;&#227;o ambiental em um assentamento de reforma agr&#225;ria no estado do Par&#225;, onde uma mineradora inglesa opera sem a autoriza&#231;&#227;o da autarquia de terras federal em um empreendimento localizado nas proximidades da Terra Ind&#237;gena Kayap&#243;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- No cap&#237;tulo &#8220;</span><a href="https://subsolojornalismo.substack.com/p/o-morto-vivo"><span>O Morto-Vivo</span></a><span>&#8221;, um homem que forjou a pr&#243;pria morte para escapar da Justi&#231;a e que j&#225; foi descrito como sendo o &#8220;bra&#231;o direito&#8221; do narcotraficante Fernandinho Beira-Mar, colocou &#224; venda no Facebook uma fazenda em Itaituba. Por meio desse an&#250;ncio, </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> descobriu como o ouro de origem irregular pode estar contaminando as cadeias de suprimentos das maiores empresas de capital aberto do mundo, como Tesla, Sony, Ford e Cisco. O mesmo classificado levou a reportagem a identificar um padr&#227;o cont&#225;bil nas declara&#231;&#245;es de min&#233;rio de ouro da F.d&#8217;Gold, uma das maiores compradoras do metal extra&#237;do de garimpos do pa&#237;s. Nesse padr&#227;o, as sete maiores aquisi&#231;&#245;es do min&#233;rio feitas pela empresa correspondem ao n&#250;mero de identifica&#231;&#227;o do garimpo de origem com a adi&#231;&#227;o de &#8220;20&#8221; no final.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- O cap&#237;tulo &#8220;</span><a href="https://subsolojornalismo.substack.com/p/o-milagre-verde"><span>Milagre Verde</span></a><span>&#8221; revela que um im&#243;vel sobreposto a um assentamento de reforma agr&#225;ria localizado em Apu&#237;, no estado do Amazonas, registrou a gera&#231;&#227;o de tr&#234;s tipos de ativos ambientais sobre sua &#225;rea de mata, parte dos quais foi usada para lastrear fundos geridos pela Reag Investimentos e controlados por empresas identificadas na teia de parceiros do Banco Master. Um dos projetos tem participa&#231;&#227;o direta da fam&#237;lia Vorcaro.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Cada cap&#237;tulo da s&#233;rie &#233; guiado por dados e apresenta os achados a partir de uma perspectiva humana.</span></p><p style="text-align: justify;">Para confirmar parte dos achados, a<span> reportagem contou com o apoio da ONG Center for Climate Crime Analysis (CCCA), especializada em investiga&#231;&#245;es de crimes ambientais a partir de informa&#231;&#245;es geoespaciais. A metodologia completa do trabalho pode ser encontrada </span><a href="https://subsolojornalismo.substack.com/p/nota-metodologica"><span>aqui</span></a><span>.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A investiga&#231;&#227;o foi financiada por: </span></strong><span>The Mailman Foundation, Earth Island Institute, The Puffin Foundation, GRID-Arendal e Earth Journalism Network.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong>Agradecimentos: </strong>Josh Mailman, Rebecca Reichmann Tavares, Maureen Nandini Mitra, Zoe Loftus-Farren, <span>Olivia Rempel, Neal Rosenstein, Norman Gall, Bryan Araujo, Cesar Munoz, Paulo Zero, S&#244;nia Bridi, Maria Jos&#233; Gontijo.</span></p><p style="text-align: justify;"></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A AMAZÔNIA À VENDA NA INTERNET]]></title><description><![CDATA[Grileiros negociam em redes sociais milh&#245;es de hectares da floresta]]></description><link>https://subsolojornalismo.substack.com/p/a-amazonia-a-venda-na-internet</link><guid isPermaLink="false">https://subsolojornalismo.substack.com/p/a-amazonia-a-venda-na-internet</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Martins]]></dc:creator><pubDate>Sun, 09 Aug 2026 17:17:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2fb4a380-07bd-40eb-923a-4874200009da_1348x731.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong><span>E</span></strong><span>mbora conhe&#231;a bem os perigos que amea&#231;am o territ&#243;rio do seu povo, Daiane Tenharim sentiu como se sua casa estivesse sendo violada quando viu que uma parte da Terra Ind&#237;gena Tenharim Marmelos, no Amazonas, estava &#224; venda na internet. Um post publicado em novembro de 2023 em grupos do Facebook dedicados ao com&#233;rcio de terras no Brasil anunciava a venda por 118 milh&#245;es de reais de uma &#225;rea de 183 mil hectares, parte dela sobreposta &#224; terra dos tenharins. &#8220;&#201; um territ&#243;rio sagrado, onde os nossos antepassados viviam. Temos ali aldeias antigas, cemit&#233;rios e muitas castanheiras que alimentam o nosso povo&#8221;, diz Daiane, de 34 anos, ao ver o mapa do im&#243;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Filha de anci&#227;os da aldeia Marmelos, ela &#233; a primeira mulher a coordenar a Associa&#231;&#227;o do Povo Ind&#237;gena Tenharim Mor&#245;gwit&#225; (Apitem) fundada em 1996. Nessa organiza&#231;&#227;o, ela lidera as a&#231;&#245;es de vigil&#226;ncia do territ&#243;rio, identificando amea&#231;as por meio de drones e sistemas de informa&#231;&#245;es geogr&#225;ficas. &#8220;Cada vez mais vemos a presen&#231;a de n&#227;o ind&#237;genas no interior do nosso territ&#243;rio&#8221;, diz ela.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!I1sM!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34b84ba8-33d1-4c96-9ed5-7644685787d3_1024x683.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!I1sM!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34b84ba8-33d1-4c96-9ed5-7644685787d3_1024x683.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!I1sM!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34b84ba8-33d1-4c96-9ed5-7644685787d3_1024x683.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!I1sM!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34b84ba8-33d1-4c96-9ed5-7644685787d3_1024x683.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!I1sM!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34b84ba8-33d1-4c96-9ed5-7644685787d3_1024x683.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!I1sM!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34b84ba8-33d1-4c96-9ed5-7644685787d3_1024x683.jpeg" width="1024" height="683" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/34b84ba8-33d1-4c96-9ed5-7644685787d3_1024x683.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:683,&quot;width&quot;:1024,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!I1sM!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34b84ba8-33d1-4c96-9ed5-7644685787d3_1024x683.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!I1sM!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34b84ba8-33d1-4c96-9ed5-7644685787d3_1024x683.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!I1sM!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34b84ba8-33d1-4c96-9ed5-7644685787d3_1024x683.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!I1sM!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34b84ba8-33d1-4c96-9ed5-7644685787d3_1024x683.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Daiane Tenharim. Foto: Eduardo P&#225;ssaro/IEB</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>O que ocorre na terra dos tenharins n&#227;o &#233; um caso isolado. Uma investiga&#231;&#227;o do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> descobriu que numerosos im&#243;veis na Amaz&#244;nia est&#227;o sendo vendidos de maneira ilegal em redes sociais, como Facebook, YouTube e TikTok, e marketplaces, como OLX e MFRural. Quando se ajusta a localiza&#231;&#227;o nessas plataformas para alguma cidade amaz&#244;nica e se pesquisa por termos como &#8220;fazenda&#8221;, &#8220;floresta&#8221; ou &#8220;mata nativa&#8221;, uma longa lista de an&#250;ncios aparece na tela. Alguns deles apresentam im&#243;veis leg&#237;timos, devidamente documentados. Outros, no entanto, cont&#234;m fortes ind&#237;cios de grilagem, como &#225;reas muito grandes, pre&#231;os muito baixos e, sobretudo, documenta&#231;&#227;o falsa ou insuficiente para comprovar a propriedade da terra.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Jos&#233; Heder Benatti, ex-presidente do Instituto de Terras do Par&#225; (Iterpa) e professor de Direito Agr&#225;rio da Universidade Federal do mesmo estado, onde pesquisa grilagem de terras h&#225; cerca de tr&#234;s d&#233;cadas, viu a fraude de perto ao procurar na internet um s&#237;tio para descansar da vida acad&#234;mica quando o momento da sua aposentadoria chegar. &#8220;Havia muitas op&#231;&#245;es, mas quase todas eram terras sem documento suficiente para comprovar que quem estava tentando vend&#234;-las tinha, de fato, o direito de possu&#237;-las&#8221;, diz ele. &#8220;O problema &#233; que o nosso mercado de terras incorpora tanto im&#243;veis legais quanto ilegais&#8221;, afirmou.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7XQx!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F19057408-b68b-44d7-9727-df27b1375925_679x549.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7XQx!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F19057408-b68b-44d7-9727-df27b1375925_679x549.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7XQx!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F19057408-b68b-44d7-9727-df27b1375925_679x549.png 848w, 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pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">An&#250;ncio compartilhado no Facebook ofertava im&#243;vel parcialmente sobreposto &#224; Terra Ind&#237;gena Tenharim Marmelos. Foto: Reprodu&#231;&#227;o.</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>Para dimensionar a escala desse fen&#244;meno, um rep&#243;rter do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> passou seis meses coletando an&#250;ncios suspeitos na internet. Como resultado desse trabalho, foram encontrados cinco milh&#245;es de hectares de floresta amaz&#244;nica &#224; venda online, uma &#225;rea maior que o territ&#243;rio de pa&#237;ses como Dinamarca e Rep&#250;blica Dominicana, e de estados como Rio de Janeiro. A maioria dos an&#250;ncios &#233; de terras que est&#227;o cobertas por floresta nativa, o que ajuda a explicar por que esses im&#243;veis s&#227;o ofertados por pre&#231;os t&#227;o baixos: entre 300 e 800 reais por hectare. Na Amaz&#244;nia, uma terra desmatada pode ser vendida por um pre&#231;o at&#233; </span><a href="https://site-antigo.socioambiental.org/sites/blog.socioambiental.org/files/nsa/arquivos/dono_e_quem_desmata_conexoes_entre_gril1.pdf"><span>20 vezes maior</span></a><span> que o de uma &#225;rea coberta por mata.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao todo, </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> encontrou 112 an&#250;ncios de im&#243;veis rurais publicados entre junho de 2021 e outubro de 2025 com &#225;reas que ultrapassam o limite constitucional de 2,5 mil hectares que podem ser titulados sem a autoriza&#231;&#227;o do Congresso Nacional. Dessa amostra, foi poss&#237;vel confirmar que 39 an&#250;ncios oferecem 46 &#225;reas com sobreposi&#231;&#227;o total ou parcial a terras p&#250;blicas, e a maioria delas est&#225; sobre unidades de conserva&#231;&#227;o e reservas ind&#237;genas. Um mesmo an&#250;ncio pode conter a oferta de mais de um im&#243;vel. Isso ocorre por duas raz&#245;es principais: ou o suposto propriet&#225;rio tem mais &#225;reas &#224; venda, ou o corretor incluiu mais de uma oferta no mesmo classificado. Pelo menos 10 desses im&#243;veis foram vendidos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para os demais 73 an&#250;ncios da amostra, n&#227;o foi poss&#237;vel confirmar a validade das ofertas ou a localiza&#231;&#227;o exata das terras. Se somadas as &#225;reas com sobreposi&#231;&#227;o confirmada (5 milh&#245;es de hectares) com as &#225;reas suspeitas (4,6 milh&#245;es de hectares), chega-se a 9,6 milh&#245;es de hectares de terras p&#250;blicas &#224; venda online. Durante a investiga&#231;&#227;o, tamb&#233;m foram encontrados centenas de an&#250;ncios com ind&#237;cios de grilagem em &#225;reas menores que 2,5 mil hectares.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!zoA2!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3c5d57e-0a57-4390-a7f6-208f74b084d8_1323x627.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!zoA2!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3c5d57e-0a57-4390-a7f6-208f74b084d8_1323x627.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!zoA2!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3c5d57e-0a57-4390-a7f6-208f74b084d8_1323x627.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!zoA2!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3c5d57e-0a57-4390-a7f6-208f74b084d8_1323x627.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!zoA2!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3c5d57e-0a57-4390-a7f6-208f74b084d8_1323x627.png 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!zoA2!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3c5d57e-0a57-4390-a7f6-208f74b084d8_1323x627.png" width="1323" height="627" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e3c5d57e-0a57-4390-a7f6-208f74b084d8_1323x627.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:627,&quot;width&quot;:1323,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!zoA2!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3c5d57e-0a57-4390-a7f6-208f74b084d8_1323x627.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!zoA2!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3c5d57e-0a57-4390-a7f6-208f74b084d8_1323x627.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!zoA2!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3c5d57e-0a57-4390-a7f6-208f74b084d8_1323x627.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!zoA2!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3c5d57e-0a57-4390-a7f6-208f74b084d8_1323x627.png 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>Embora os an&#250;ncios possam ser facilmente encontrados online, o acesso a informa&#231;&#245;es mais completas, como o tipo de documenta&#231;&#227;o do im&#243;vel, seu status ambiental e sua localiza&#231;&#227;o exata, s&#243; pode ser obtido diretamente com os corretores encarregados de vend&#234;-los. Passando-se pelo assistente de um investidor estrangeiro interessado em comprar uma fazenda na Amaz&#244;nia, um rep&#243;rter do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> conversou com mais de uma centena de corretores envolvidos no com&#233;rcio de terras p&#250;blicas online. Dado o cen&#225;rio de viol&#234;ncia na regi&#227;o, os nomes desses corretores n&#227;o ser&#227;o identificados, a fim de garantir sua seguran&#231;a. Nos casos em que n&#227;o foi poss&#237;vel obter os documentos da terra, foi solicitado o acesso ao kmz dos im&#243;veis, um arquivo de dados geogr&#225;ficos compactado que re&#250;ne informa&#231;&#245;es de mapas, como pontos, pol&#237;gonos e rotas, e que costuma ser compartilhado pelos corretores sem maior resist&#234;ncia. Esses documentos e mapas permitiram determinar a localiza&#231;&#227;o exata das terras e, em muitos casos, revelar a identidade dos envolvidos nessas ofensivas contra a maior floresta tropical do mundo. Para verificar se os pol&#237;gonos dos im&#243;veis anunciados na internet estavam mesmo sobrepostos &#224;s terras p&#250;blicas da Amaz&#244;nia, </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> contou com o apoio do Center for Climate Crime Analysis (CCCA), organiza&#231;&#227;o internacional especializada em investiga&#231;&#245;es de crimes ambientais a partir de an&#225;lises geoespaciais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No YouTube, um an&#250;ncio oferecia uma terra com 14 mil hectares parcialmente sobreposta &#224; Terra Ind&#237;gena Caru, no Maranh&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Pelo WhatsApp, um corretor ofereceu uma &#225;rea com 87 mil hectares totalmente sobrepostos &#224; terra reivindicada pelo povo Amanay&#233;, no munic&#237;pio de Goian&#233;sia do Par&#225;, no sudeste paraense.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No marketplace brasileiro MFRural, um an&#250;ncio oferecia um im&#243;vel com 135 mil hectares parcialmente sobrepostos &#224; Terra Ind&#237;gena Arar&#224;, no Amazonas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No marketplace holand&#234;s OLX, um corretor colocou &#224; venda um im&#243;vel com 517 mil hectares, completamente sobreposto &#224; Floresta Nacional de Balata-Tufari, uma unidade de conserva&#231;&#227;o integral no estado do Amazonas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No Facebook, um corretor p&#244;s &#224; venda uma terra com 522 mil hectares; a &#225;rea havia sido recuperada, em 2001, pela Comiss&#227;o Parlamentar de Inqu&#233;rito (CPI) instaurada pela C&#226;mara dos Deputados para investigar a ocupa&#231;&#227;o de terras p&#250;blicas na Amaz&#244;nia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Do universo de an&#250;ncios coletados, considerando tanto os casos suspeitos quanto os confirmados, 74 deles foram publicados nas p&#225;ginas do Facebook, que, aparentemente, se tornou o ambiente de neg&#243;cios preferido dos grileiros de terras que atuam na Amaz&#244;nia. Em geral, os an&#250;ncios s&#227;o publicados primeiro no marketplace da rede social e, depois, compartilhados em grupos de compra e venda de im&#243;veis rurais para aumentar o seu alcance. At&#233; outubro de 2025, foram encontrados no Facebook, pelo menos, 13 grandes grupos de com&#233;rcio de im&#243;veis rurais que, juntos, somam mais de 800 mil membros. O maior deles &#233; o grupo &#8220;Fazendas &#224; venda no Brasil&#8221;, com 128 mil participantes, os quais publicam, em m&#233;dia, 150 ofertas por m&#234;s, muitas delas relacionadas a im&#243;veis rurais na Amaz&#244;nia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em um caso curioso, um homem escreveu em um grupo do Facebook que estava procurando uma terra com um milh&#227;o de hectares. &#8220;De prefer&#234;ncia, uma &#225;rea de floresta nativa&#8221;, completou. &#192; sua solicita&#231;&#227;o, seguiram-se v&#225;rios coment&#225;rios, quase todos de corretores imobili&#225;rios oferecendo terras localizadas no Amazonas, estado que det&#233;m a maior concentra&#231;&#227;o de floresta amaz&#244;nica intocada. </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> contatou cada um dos 10 corretores imobili&#225;rios que responderam ao post. Nenhum deles tinha, de fato, terras desse tamanho dispon&#237;veis para a venda, seja na Amaz&#244;nia ou em qualquer outro lugar do Brasil. Muitos deles, no entanto, revelaram ter terrenos menores na regi&#227;o norte do pa&#237;s, os quais variam de 80 mil a 800 mil hectares.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em 2021, ap&#243;s a </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56211156"><span>BBC</span></a><span> revelar dezenas de &#225;reas p&#250;blicas &#224; venda no Facebook Marketplace, a Meta </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-58848801"><span>prometeu</span></a><span> bloquear esse tipo de an&#250;ncio. A investiga&#231;&#227;o do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>, por&#233;m, mostra que essa promessa n&#227;o foi cumprida.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em nota enviada &#224; reportagem, a Meta disse que n&#227;o teve acesso aos links dos an&#250;ncios coletados e que suas &#8220;pol&#237;ticas comerciais s&#227;o constantemente atualizadas e pro&#237;bem explicitamente a promo&#231;&#227;o da compra, a venda ou a troca de terrenos em &#225;reas de conserva&#231;&#227;o ecol&#243;gica&#8221;. A empresa acrescentou que &#8220;o n&#227;o cumprimento de nossas pol&#237;ticas ou da lei pode resultar em v&#225;rias consequ&#234;ncias, incluindo, entre outras, a rejei&#231;&#227;o ou a remo&#231;&#227;o de classificados e outros conte&#250;dos&#8221;. Por fim, a Meta disse que trabalha &#8220;em conformidade com as exig&#234;ncias regulat&#243;rias, oferecendo canais de den&#250;ncia, e em parceria com as autoridades locais para endere&#231;ar esse tema em nossos aplicativos da melhor forma poss&#237;vel no longo prazo&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>, o</span><strong><span> </span></strong><span> YouTube disse que &#8220;age prontamente ao ser notificado sobre viola&#231;&#245;es &#224; lei local&#8221; e &#8220;avalia e processa notifica&#231;&#245;es de conte&#250;do il&#237;cito, sendo necess&#225;rio que tais solicita&#231;&#245;es tragam a identifica&#231;&#227;o clara e espec&#237;fica do material (com as URLs exatas), bem como a fundamenta&#231;&#227;o do pedido&#8221;. A plataforma disse ainda que o canal oficial para o envio dessas notifica&#231;&#245;es est&#225; dispon&#237;vel neste </span><a href="https://support.google.com/youtube/answer/9996224?hl=pt-BR"><span>formul&#225;rio</span></a><span>.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Essa postura de autorregula&#231;&#227;o, at&#233; ent&#227;o volunt&#225;ria, passou a ser exigida por lei. Em junho de 2025, o Supremo Tribunal Federal decidiu que as </span><a href="https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/stf-define-parametros-para-responsabilizacao-de-plataformas-por-conteudos-de-terceiros/"><span>empresas de tecnologia devem ser responsabilizadas civilmente</span></a><span> pelo conte&#250;do il&#237;cito publicado pelos usu&#225;rios de suas plataformas, al&#233;m de serem obrigadas a criar canais espec&#237;ficos para receber pedidos de remo&#231;&#227;o de conte&#250;do criminoso.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para Ane Alencar, diretora de Ci&#234;ncia da ONG Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz&#244;nia (Ipam), a grande quantidade de terra p&#250;blica que a reportagem encontrou &#224; venda na internet &#8220;&#233; um sintoma da dificuldade que o Estado brasileiro tem de governar &#225;reas t&#227;o remotas como a Amaz&#244;nia&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nenhum lugar ilustra melhor essa dificuldade do que Novo Progresso, munic&#237;pio do oeste do Par&#225; que concentra o maior n&#250;mero de an&#250;ncios de im&#243;veis sobrepostos a terras p&#250;blicas encontrados pela reportagem. No total, s&#227;o quatro an&#250;ncios com sobreposi&#231;&#227;o confirmada e outros 17 com fortes ind&#237;cios de grilagem. Os im&#243;veis sobre &#225;reas p&#250;blicas somam 45 mil hectares e os que apresentam ind&#237;cios de grilagem chegam a 121 mil hectares. Um corretor imobili&#225;rio contatado pelo </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> explicou que h&#225; tr&#234;s raz&#245;es para os im&#243;veis da regi&#227;o n&#227;o terem t&#237;tulo de propriedade. Em primeiro lugar, &#8220;o pessoal daqui quer desmatar. Se a &#225;rea tiver um t&#237;tulo de propriedade, a multa pelo desmatamento vai recair sobre o propriet&#225;rio&#8221;, explicou. &#8220;Outro motivo &#233; que obter um t&#237;tulo de propriedade pode custar caro, e as pessoas de Novo Progresso n&#227;o querem gastar dinheiro com a terra; o que elas querem &#233; ganhar dinheiro com a terra&#8221;, continuou. &#8220;E h&#225; tamb&#233;m uma quest&#227;o cultural: como ningu&#233;m nunca teve t&#237;tulo de propriedade por aqui, n&#227;o ser&#225; agora que ir&#227;o obter um&#8221;, concluiu.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Essa &#8220;cultura&#8221;, no entanto, contraria a legisla&#231;&#227;o. Uma </span><a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4947.htm"><span>lei</span></a><span> federal de 1966 pro&#237;be a invas&#227;o de terras da Uni&#227;o, dos estados e dos munic&#237;pios para fins de ocupa&#231;&#227;o humana. Outra </span><a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9605.htm"><span>lei</span></a><span> federal, alterada em 2006, define como crime &#8220;desmatar, explorar economicamente ou degradar floresta, plantada ou nativa&#8221;, em terras p&#250;blicas, sem autoriza&#231;&#227;o dos &#243;rg&#227;os competentes. Apesar dessas restri&#231;&#245;es legais, os an&#250;ncios de terras p&#250;blicas usurpadas est&#227;o em quase toda a parte.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para entender as ra&#237;zes desse problema, </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> conversou com o ge&#243;grafo Ariovaldo Umbelino, ent&#227;o professor da Universidade de S&#227;o Paulo (USP), alguns meses antes de ele falecer, em agosto de 2025. Ariovaldo disse que os an&#250;ncios encontrados pela reportagem</span><strong><span> </span></strong><span>fornecem um &#8220;quadro sombrio do caos fundi&#225;rio na Amaz&#244;nia&#8221;, resultado de cinco s&#233;culos de desordem no campo. A Lei de Terras de 1850 contribuiu para esse caos ao perdoar as invas&#245;es de &#225;reas p&#250;blicas ocorridas antes da sua entrada em vigor. Essa decis&#227;o criou um precedente perigoso porque as invas&#245;es continuaram a ocorrer movidas pela expectativa de que novas leis fossem aprovadas para perdoar os invasores. A hist&#243;ria mostra que essa expectativa n&#227;o foi frustrada. Em 1931, 2008 e 2017, o governo estabeleceu novos marcos temporais que, na pr&#225;tica, perdoavam as ocupa&#231;&#245;es anteriores e proibiam as futuras.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ariovaldo explicou que &#8220;para que uma terra deixe de ser p&#250;blica, &#233; necess&#225;rio que o governo emita um documento concedendo o direito de propriedade sobre a &#225;rea. Se algu&#233;m afirma ser propriet&#225;rio de uma terra, mas n&#227;o tem nenhum documento que comprove o direito de propriedade sobre ela, a terra continua sendo p&#250;blica e, portanto, n&#227;o deveria estar dispon&#237;vel para a venda&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Nossa Gente</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>L</span></strong><span>ocalizada entre os munic&#237;pios de Humait&#225; e Manicor&#233;, no sul do Amazonas, a Terra Ind&#237;gena Tenharim Marmelos tem 473 mil hectares e &#233; habitada por 741 ind&#237;genas, distribu&#237;dos por onze aldeias. Os tenharins se referem a si mesmos como </span><em><span>Kagwahiva</span></em><span>, uma palavra da l&#237;ngua ind&#237;gena Tupi que significa &#8220;nossa gente&#8221; e que serve para designar outros povos do mesmo tronco lingu&#237;stico, como os Juma, os Jiahui e os Parintintin. A maior parte do povo &#233; evang&#233;lica, com seis templos na reserva (outros dois est&#227;o em constru&#231;&#227;o). Por essa raz&#227;o, diferente de outros povos de mesma fam&#237;lia lingu&#237;stica, eles n&#227;o t&#234;m um &#8220;paj&#233;&#8221;, ou seja, uma autoridade espiritual respons&#225;vel por invocar e controlar esp&#237;ritos, curar doen&#231;as, prever o futuro e melhorar colheitas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A despeito da sua convers&#227;o ao cristianismo, os tenharins ainda praticam alguns dos rituais transmitidos pelos seus ancestrais, como a festa Mbotawa, em que, uma vez por ano, celebram casamentos, reconhecem os feitos de seus mortos e comemoram a transi&#231;&#227;o para a vida adulta das meninas da aldeia. A celebra&#231;&#227;o &#233; precedida por uma expedi&#231;&#227;o &#224; parte sul do territ&#243;rio, onde ficam as sepulturas de seus ancestrais e a nascente do Rio Marmelos. &#201; ali, no meio da mata preservada, que os tenharins ca&#231;am, pescam e colhem frutos. O objetivo &#233; garantir que tanto eles quanto seus familiares e convidados, tenham alimento suficiente para consumir durante os quatro dias de festa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Na expedi&#231;&#227;o de 2024, os tenharins encontraram sinais de invas&#227;o do seu territ&#243;rio. &#8220;N&#243;s identificamos alguns marcos de loteamento fincados no solo exatamente nessa &#225;rea que voc&#234; est&#225; me mostrando&#8221;, afirmou Daiane ao rep&#243;rter do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> que lhe mostrou o mapa do im&#243;vel colocado &#224; venda no Facebook parcialmente sobreposto ao territ&#243;rio tenharim.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Uz_b!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb826dc35-d908-4591-883d-68824ffc4ed7_901x683.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Uz_b!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb826dc35-d908-4591-883d-68824ffc4ed7_901x683.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Uz_b!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb826dc35-d908-4591-883d-68824ffc4ed7_901x683.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Uz_b!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb826dc35-d908-4591-883d-68824ffc4ed7_901x683.png 1272w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" 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Esse documento reproduz, de forma detalhada, as informa&#231;&#245;es sobre o hist&#243;rico da terra que est&#227;o presentes na matr&#237;cula&#185; do im&#243;vel. A Certid&#227;o inclui informa&#231;&#245;es como poss&#237;veis d&#237;vidas ou restri&#231;&#245;es judiciais associadas &#224; propriedade, al&#233;m do hist&#243;rico de donos da &#225;rea. No documento compartilhado pelo corretor h&#225; a informa&#231;&#227;o de que, em 1921, o Banco do Brasil arrematou a terra para quitar as d&#237;vidas de Ant&#244;nio Francisco Monteiro, primog&#234;nito do colonizador Jos&#233; Francisco Monteiro. O documento n&#227;o deixa claro, por&#233;m, como essa &#225;rea voltou ao dom&#237;nio da fam&#237;lia Monteiro de Souza depois de ter sido arrematada um s&#233;culo antes. A Certid&#227;o tamb&#233;m informa que a matr&#237;cula do im&#243;vel foi bloqueada pelo Tribunal de Justi&#231;a do Amazonas, em 2016, porque pessoas alheias &#224; cadeia dominial da terra estavam registrando a &#225;rea sem autoriza&#231;&#227;o. Em 2017, o bloqueio foi levantado, mas a disputa nunca foi resolvida porque a Justi&#231;a considerou que a parte requerente abandonou o processo. Por isso, a &#225;rea do im&#243;vel que est&#225; fora dos limites do territ&#243;rio ind&#237;gena permanece com sua titula&#231;&#227;o indefinida.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em resposta a um pedido de informa&#231;&#227;o protocolado por </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>, o Banco do Brasil informou que n&#227;o &#233; o atual propriet&#225;rio do im&#243;vel e que a &#225;rea foi desapropriada pelo Instituto Nacional de Coloniza&#231;&#227;o e Reforma Agr&#225;ria (INCRA) e, depois, transferida a terceiros, sem esclarecer se a fam&#237;lia Monteiro de Souza est&#225; entre esses terceiros. Segundo o banco, os registros de 1921 n&#227;o est&#227;o mais dispon&#237;veis porque a institui&#231;&#227;o n&#227;o tinha sistema automatizado na &#233;poca e o prazo legal de guarda desse tipo de documento (10 anos) j&#225; se esgotou. O INCRA, por sua vez, informou que realizou consultas em seus bancos de dados, sistemas corporativos e em arquivos f&#237;sicos e digitais, mas n&#227;o encontrou nenhum registro, documentos ou informa&#231;&#245;es que permitam comprovar a exist&#234;ncia do im&#243;vel. A autarquia ressalvou que a busca foi feita com base nos nomes das tr&#234;s parcelas do im&#243;vel, o que limita a chance de localiza&#231;&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Al&#233;m do lit&#237;gio envolvendo o Banco do Brasil, Monteiro de Souza est&#225; envolvido em, pelo menos, mais uma disputa por terra no estado do Amazonas. Em um caso repercutido pelo jornal local </span><a href="https://www.acritica.com/manaus/discuss-o-comerciante-e-empresasa-se-dizem-proprietarios-do-parque-amazonense-1.137963"><span>A Cr&#237;tica</span></a><span>, ele entrou em conflito com a empresa Eletroferro Constru&#231;&#245;es pela propriedade de uma &#225;rea de 16 mil m&#178; onde est&#225; localizado o Est&#225;dio Parque Amazonense, tendo registrado, inclusive, um Boletim de Ocorr&#234;ncia no qual acusa o dono da empresa de ter invadido sua propriedade. Ao jornal, o propriet&#225;rio da Eletroferro acusou Sebasti&#227;o de apresentar documentos que &#8220;n&#227;o provam nada&#8221; e servem apenas &#8220;para enganar pessoas de boa f&#233;&#8221;. Em sua defesa, Sebasti&#227;o disse que ele e sua m&#227;e s&#227;o herdeiros do terreno. &#8220;A &#225;rea faz parte do esp&#243;lio do meu bisav&#244;, Ant&#244;nio Francisco Monteiro, desde 1898. Tenho toda a documenta&#231;&#227;o: alvar&#225;, registro de im&#243;veis, registro na prefeitura. Tudo. N&#227;o &#233; poss&#237;vel que um terreno tenha dois documentos de posse&#8221;, afirmou.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Procurada pela reportagem, a defesa de Sebasti&#227;o apresentou alguns requisitos para responder ao pedido de coment&#225;rios, como o envio da identifica&#231;&#227;o civil do rep&#243;rter respons&#225;vel pelo contato, sua identifica&#231;&#227;o como jornalista, &#8220;bem como de vossa empresa&#8221;. Desde a primeira abordagem efetuada por e-mail, o rep&#243;rter encarregado da investiga&#231;&#227;o se apresentou devidamente, informando seu nome, sobrenome, profiss&#227;o, identifica&#231;&#227;o do projeto, a plataforma onde a reportagem seria publicada e o nome de um dos parceiros internacionais que ir&#225; republicar o trabalho. Depois da resposta do advogado, foram compartilhados links para trabalhos anteriores, assim como o endere&#231;o para a p&#225;gina do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>, a qual cont&#233;m informa&#231;&#245;es acerca do projeto, como foco tem&#225;tico e financiadores. Apesar disso, at&#233; o fechamento da reportagem, os pedidos de coment&#225;rios n&#227;o foram respondidos. O espa&#231;o permanece aberto &#224; manifesta&#231;&#227;o da defesa.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A catequese ou o exterm&#237;nio</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A</span></strong><span>s amea&#231;as contra os tenharins s&#227;o antigas e a hist&#243;ria da fam&#237;lia de Sebasti&#227;o Aquiles est&#225; no centro delas. Ap&#243;s ganhar dinheiro trabalhando como comerciante no estado do Maranh&#227;o, o investidor portugu&#234;s Jos&#233; Francisco Monteiro decidiu ingressar no neg&#243;cio do l&#225;tex, a mat&#233;ria-prima da borracha. Em 1860, ele criou bases de extra&#231;&#227;o da seiva &#224;s margens do Rio Madeira, um dos principais afluentes do Rio Amazonas. Em pouco tempo, o seu estabelecimento se tornou o mais importante da regi&#227;o, com um n&#250;mero estimado de 250 a 300 funcion&#225;rios.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Quando Francisco Monteiro chegou a essa parte da Amaz&#244;nia, por&#233;m, o local j&#225; era habitado, h&#225; pelo menos 100 anos, por um grupo ind&#237;gena conhecido localmente como Parintintin. Al&#233;m de plantar e colher, eles pescavam e ca&#231;avam, transitando livremente pela regi&#227;o. A chegada dos portugueses, por&#233;m, provocou uma guerra entre brancos e nativos. As casas e os galp&#245;es onde os oper&#225;rios de Francisco Monteiro se reuniam foram atacados e saqueados. Em retalia&#231;&#227;o, o colonizador enviou seus homens contra os parintintins.</span></p><p style="text-align: justify;"><span> Como a resist&#234;ncia ind&#237;gena n&#227;o dava sinais de que t&#227;o cedo cessaria, o Jornal O Humaythaense, fundado pelo primog&#234;nito de Francisco Monteiro, declarou haver apenas duas solu&#231;&#245;es para o conflito: &#8220;a catequese ou o exterm&#237;nio&#8221; dos nativos. De acordo com o historiador Vitor Hugo, da guerra entre portugueses e nativos, o resultado foi a quase extin&#231;&#227;o dos ind&#237;genas. Diante da continuidade do conflito, uma parte dos parintintins se separou do resto da tribo, migrando em dire&#231;&#227;o &#224;s nascentes dos rios Marmelos, Preto e Branco, localizados na por&#231;&#227;o sul do estado do Amazonas. O grupo que se separou &#233; conhecido atualmente como Tenharim.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mesmo ap&#243;s a pacifica&#231;&#227;o das rela&#231;&#245;es entre nativos e brancos, em 1920, as amea&#231;as contra os tenharins n&#227;o cessaram. Durante a constru&#231;&#227;o da Transamaz&#244;nica, estrada que corta a reserva de leste a oeste, centenas de tenharins morreram ou foram escravizados. Nesse cen&#225;rio, o jornal Porantim, dedicado &#224; cobertura de quest&#245;es ind&#237;genas, publicou, em 1979, uma </span><a href="https://documentacao.socioambiental.org/noticias/anexo_noticia/31561_20150917_163412.pdf"><span>mat&#233;ria</span></a><span> com declara&#231;&#227;o do padre Jos&#233; Ant&#244;nio Sag&#252;es, que trabalhava com ind&#237;genas da regi&#227;o, e afirmou que &#8220;a grilagem &#233; a nova epidemia, que mata &#224;s vezes mais que a mal&#225;ria&#8221;. Quase 50 anos depois, como revela </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>, o problema da grilagem de terras ainda atormenta os tenharins.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A luta para proteger a floresta</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A</span></strong><span>o sobrepor o pol&#237;gono do im&#243;vel &#224; venda no Facebook aos mapas do Servi&#231;o Florestal Brasileiro, fica claro que, al&#233;m de parte do territ&#243;rio tenharim, a terra ofertada apresenta sobreposi&#231;&#227;o com ao menos quatro unidades de conserva&#231;&#227;o e com trechos de Florestas P&#250;blicas N&#227;o Destinadas. Esse &#250;ltimo tipo de floresta engloba as &#225;reas de mata p&#250;blica que ainda n&#227;o receberam nenhuma destina&#231;&#227;o do governo, n&#227;o tendo sido convertidas em unidades de conserva&#231;&#227;o, territ&#243;rios ind&#237;genas, assentamentos de reforma agr&#225;ria ou reservas quilombolas, por exemplo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>S&#227;o justamente as &#225;reas sem destina&#231;&#227;o que est&#227;o mais vulner&#225;veis &#224; grilagem, fen&#244;meno que est&#225; na raiz do desmatamento. Em </span><a href="https://www.nature.com/articles/s41467-023-36427-x"><span>artigo</span></a><span> publicado na revista </span><em><span>Nature Communications</span></em><span>, em 2023, pesquisadores brasileiros revelaram que 50% do desmatamento na Amaz&#244;nia ocorrido entre 2019 e 2021 foi registrado em &#225;reas de florestas p&#250;blicas, especialmente as n&#227;o destinadas. A informa&#231;&#227;o &#233; refor&#231;ada pela ONG Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amaz&#244;nia (Imazon), segundo a qual &#8220;</span><a href="https://oeco.org.br/noticias/estados-nao-uniao-travam-regularizacao-mostra-imazon/"><span>40% do desmatamento</span></a><span>, entre 2013 e 2020, ocorreu em &#225;reas p&#250;blicas n&#227;o destinadas&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para Brenda Brito, pesquisadora do Imazon e doutora em direito pela Universidade Stanford, a principal forma de combater a grilagem de terras na floresta amaz&#244;nica &#233; dar destina&#231;&#227;o &#224;s florestas p&#250;blicas. &#8220;Fazer isso retira essas &#225;reas do mercado de terras, pois elas estar&#227;o sob um ordenamento jur&#237;dico bem definido, o que reduz o risco de invas&#245;es.&#8221; </span></p><p style="text-align: justify;"><span>Brenda confessa que &#8220;esperava que mais &#225;reas p&#250;blicas fossem destinadas durante o terceiro governo Lula, mas uma combina&#231;&#227;o de fatores, como recursos humanos limitados, dificuldades pol&#237;ticas e entraves burocr&#225;ticos, impediu que uma parcela maior das florestas recebesse uma destina&#231;&#227;o de acordo com os crit&#233;rios socioambientais estabelecidos pela legisla&#231;&#227;o&#8221;. &#8220;Enquanto essas &#225;reas n&#227;o forem destinadas, haver&#225; grilagem de terras, porque os invasores alimentam a expectativa de que as regras fundi&#225;rias mudem e, historicamente, as regras sempre mudam. Para essas pessoas, invadir terras p&#250;blicas &#233; uma aposta altamente lucrativa porque, no Brasil, a terra &#233; um ativo muito rent&#225;vel&#8221;, concluiu.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O entendimento de Brenda &#233; o mesmo de dois pesquisadores alem&#227;es. Ap&#243;s analisar dados correspondentes a 33 anos de desmatamento em todo o Brasil, entre 1985 e 2018, Andrea Pacheco, da Universidade de Bonn, e Carsten Meyer, da Universidade de Leipzig, </span><a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9526711/"><span>conclu&#237;ram que dar &#224;s florestas p&#250;blicas um destino</span></a><span>, seja pela sua convers&#227;o em reservas naturais ou pela titula&#231;&#227;o de im&#243;veis privados, &#233; melhor para a conserva&#231;&#227;o florestal do que manter essas &#225;reas sem destina&#231;&#227;o. Segundo o estudo, entre 1985 e 1990, a convers&#227;o de florestas p&#250;blicas em propriedades privadas na Amaz&#244;nia aumentou o desmatamento em compara&#231;&#227;o com as &#225;reas mantidas sem destina&#231;&#227;o. Esse cen&#225;rio, por&#233;m, mudou a partir dos anos 2000, quando a posse privada se tornou, em v&#225;rios intervalos do per&#237;odo analisado, o regime que mais exerceu papel redutor sobre o desmatamento; em outros intervalos, ficou atr&#225;s apenas do regime quilombola de terras. Os pesquisadores acreditam que esse efeito redutor ocorreu quando a privatiza&#231;&#227;o da terra foi acompanhada pela aplica&#231;&#227;o de pol&#237;ticas de prote&#231;&#227;o florestal rigorosas, como a implementa&#231;&#227;o do C&#243;digo Florestal, e das morat&#243;rias da soja e da carne.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para Daiane, que vive na terra destinada ao povo Tenharim, o que falta &#233; mais presen&#231;a do Estado. Depois que tr&#234;s moradores de Humait&#225; desapareceram na Transamaz&#244;nica, em 2013, a popula&#231;&#227;o da cidade incendiou os escrit&#243;rios locais da Funda&#231;&#227;o Nacional dos Povos Ind&#237;genas (Funai) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov&#225;veis (Ibama). At&#233; hoje, o escrit&#243;rio do Ibama n&#227;o foi reaberto.</span></p><p style="text-align: justify;"><span> &#8220;Por um lado, eu entendo que o pa&#237;s &#233; enorme e que h&#225; outras terras ind&#237;genas em uma situa&#231;&#227;o mais cr&#237;tica que a nossa; mas, por outro lado, n&#243;s ficamos sem saber o que fazer porque n&#227;o podemos colocar as nossas vidas em risco mais do que a gente j&#225; coloca. A fiscaliza&#231;&#227;o e a puni&#231;&#227;o dos invasores s&#227;o pap&#233;is do Estado. Para n&#243;s, uma maior presen&#231;a do Estado freiaria a atua&#231;&#227;o dos invasores e facilitaria o nosso trabalho de vigil&#226;ncia&#8221;, afirmou ela.</span></p><p style="text-align: justify;"><span> &#8220;Se as invas&#245;es continuarem, os tenharins n&#227;o ter&#227;o mais como ca&#231;ar, rezar e viver&#8221;, concluiu Daiane.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Notas</span></p><p style="text-align: justify;"><span>1. A matr&#237;cula &#233; uma esp&#233;cie de biografia do im&#243;vel. Nela constam informa&#231;&#245;es como o hist&#243;rico de donos, a sua descri&#231;&#227;o f&#237;sica e localiza&#231;&#227;o exata, assim como o seu status jur&#237;dico.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A investiga&#231;&#227;o foi financiada por: </span></strong><span>The Mailman Foundation, Earth Island Institute, The Puffin Foundation, GRID-Arendal e Earth Journalism Network.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Apoio: </span></strong><span>Rodolfo Gadelha e Rodney Salom&#227;o, do Center for Climate Crime Analysis (CCCA), ajudaram a reportagem a confirmar a sobreposi&#231;&#227;o dos im&#243;veis rurais coletados durante a investiga&#231;&#227;o.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O SISTEMA]]></title><description><![CDATA[Como o Cadastro Ambiental Rural ajuda invasores de terras p&#250;blicas a lucrarem na Amaz&#244;nia]]></description><link>https://subsolojornalismo.substack.com/p/o-sistema</link><guid isPermaLink="false">https://subsolojornalismo.substack.com/p/o-sistema</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Martins]]></dc:creator><pubDate>Sun, 09 Aug 2026 16:46:37 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hKPW!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F71e5d381-5c9f-4006-ad2d-00319564991a_1800x1195.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong><span>O</span></strong><span> an&#250;ncio parecia irresist&#237;vel. Uma terra pouco explorada, com 5.600 hectares de extens&#227;o, descrita como ideal para a cria&#231;&#227;o de gado, agricultura e minera&#231;&#227;o. E o seu pre&#231;o, tentador: apenas 2,5 milh&#245;es de reais. Um detalhe, por&#233;m, poderia transformar o sonho de qualquer comprador em pesadelo. O im&#243;vel em quest&#227;o est&#225; localizado dentro de uma unidade de conserva&#231;&#227;o da natureza onde a exist&#234;ncia de propriedades privadas, assim como a explora&#231;&#227;o mineral e a pr&#225;tica agropecu&#225;ria, s&#227;o proibidas por lei. Por meio desse an&#250;ncio, </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> descobriu como um cadastro ambiental criado para ajudar a conter o desmatamento tem sido amplamente utilizado por engenheiros e agrimensores para registrar, em nome de invasores, milhares de por&#231;&#245;es de florestas p&#250;blicas na Amaz&#244;nia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A hist&#243;ria dessa descoberta come&#231;a em setembro de 2023, quando um corretor imobili&#225;rio publicou, em um grupo do Facebook destinado ao com&#233;rcio de im&#243;veis rurais no Brasil, o an&#250;ncio de uma terra localizada em Novo Progresso, munic&#237;pio do oeste do Par&#225;. Passando-se por um investidor estrangeiro interessado em comprar uma fazenda na Amaz&#244;nia, um rep&#243;rter do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> conversou com o homem que afirma ser o propriet&#225;rio do im&#243;vel. Atrav&#233;s de mensagens de voz enviadas pelo WhatsApp, S&#233;rgio Luiz Groth, 65 anos, explicou seu hist&#243;rico na &#225;rea e os documentos que ela possui. No in&#237;cio da conversa, ele contou que est&#225; nesta terra desde 1998. Em fevereiro de 2006, por&#233;m, a cria&#231;&#227;o da Floresta Nacional do Jamanxim fez com que o seu im&#243;vel ficasse dentro da unidade de conserva&#231;&#227;o, tamb&#233;m conhecida como &#8220;Flona&#8221;. &#8220;L&#225; j&#225; tem uma casa antiga, &#225;rvores frut&#237;feras e uma &#225;rea desmatada em 2000, mas que foi abandonada, e a mata voltou a nascer&#8221;, afirmou.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hKPW!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F71e5d381-5c9f-4006-ad2d-00319564991a_1800x1195.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" 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Foto: Vinicius Mendon&#231;a / Ascom Ibama</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><span>A Flona foi criada para evitar que a pavimenta&#231;&#227;o do trecho da rodovia BR-163 que liga Cuiab&#225;, no Mato Grosso, a Santar&#233;m, no Par&#225;, provocasse o aumento do desmatamento na regi&#227;o, como temiam os ambientalistas. Os limites da reserva, contudo, se estenderam para al&#233;m das &#225;reas de floresta intocada, cobrindo uma parte da terra ocupada por dezenas de fam&#237;lias que haviam chegado &#224; regi&#227;o nos idos de 1970 e 1980 por incentivo do governo militar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Imagens de sat&#233;lite hist&#243;ricas consultadas por </span><strong><span>Subsolo </span></strong><span>permitem constatar que, desde outubro de 2002, h&#225; tr&#234;s pequenas clareiras abertas na parte sul do im&#243;vel, com duas delas apresentando cerca de 4 hectares, enquanto a terceira tem o dobro do tamanho. Embora essas clareiras confirmem a presen&#231;a humana no local antes da cria&#231;&#227;o da Flona, o im&#243;vel que Groth colocou &#224; venda &#233; 350 vezes maior que a soma das tr&#234;s &#225;reas desmatadas em 2002.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gNDC!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4226b91-4901-4fd3-8cbd-0d6f4bd61f55_734x554.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gNDC!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4226b91-4901-4fd3-8cbd-0d6f4bd61f55_734x554.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gNDC!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4226b91-4901-4fd3-8cbd-0d6f4bd61f55_734x554.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gNDC!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4226b91-4901-4fd3-8cbd-0d6f4bd61f55_734x554.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gNDC!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4226b91-4901-4fd3-8cbd-0d6f4bd61f55_734x554.png 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gNDC!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4226b91-4901-4fd3-8cbd-0d6f4bd61f55_734x554.png" width="734" height="554" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b4226b91-4901-4fd3-8cbd-0d6f4bd61f55_734x554.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:554,&quot;width&quot;:734,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gNDC!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4226b91-4901-4fd3-8cbd-0d6f4bd61f55_734x554.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gNDC!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4226b91-4901-4fd3-8cbd-0d6f4bd61f55_734x554.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gNDC!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4226b91-4901-4fd3-8cbd-0d6f4bd61f55_734x554.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gNDC!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb4226b91-4901-4fd3-8cbd-0d6f4bd61f55_734x554.png 1456w" sizes="100vw"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>Em uma das mensagens enviadas, ele esclareceu que est&#225; vendendo a &#8220;posse&#8221; e n&#227;o a &#8220;propriedade&#8221; da terra, o que, na pr&#225;tica, significa que quem comprar a &#225;rea ter&#225; o direito de explor&#225;-la, mas n&#227;o de se tornar dono dela. A lei permite que aqueles que n&#227;o s&#227;o donos da terra, mas que a cultivam, de forma pac&#237;fica, cont&#237;nua e sem a contesta&#231;&#227;o de terceiros, vendam os seus direitos de explora&#231;&#227;o. Essa regra, no entanto, n&#227;o se aplica &#224;s terras p&#250;blicas. Nesses casos, os posseiros devem, primeiro, solicitar ao governo o t&#237;tulo de propriedade sobre a &#225;rea para, s&#243; ent&#227;o, coloc&#225;-la &#224; venda. Essa, por&#233;m, n&#227;o &#233; uma op&#231;&#227;o para Groth, pois o im&#243;vel que ele reivindica como seu est&#225; dentro de uma unidade de conserva&#231;&#227;o que n&#227;o permite a exist&#234;ncia de propriedades privadas. Mesmo que estivesse fora da reserva, a &#225;rea do im&#243;vel ultrapassa o limite de 2.500 hectares que podem ser titulados por meio do Terra Legal, o programa do governo federal que regulariza im&#243;veis em &#225;reas p&#250;blicas ocupadas na Amaz&#244;nia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao ser questionado sobre quais eram os documentos do im&#243;vel, Groth respondeu que &#8220;documenta&#231;&#227;o aqui nessa regi&#227;o de Novo Progresso n&#227;o tem. &#201; contrato de compra e venda mesmo, &#233; a realidade&#8221;, e acrescentou que n&#227;o conhece nenhuma fazenda nas proximidades que tenha &#8220;escritura&#8221;, um termo usado na regi&#227;o para se referir ao t&#237;tulo de propriedade registrado em cart&#243;rio. Em rela&#231;&#227;o ao im&#243;vel &#224; venda, ele afirmou ter apenas comprovantes de pagamento do ITR e do CCIR, dois tributos federais que n&#227;o conferem direito de propriedade.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Na mesma conversa, Groth contou que, embora muitos im&#243;veis da regi&#227;o n&#227;o tenham escritura, eles costumam estar inscritos no Cadastro Ambiental Rural (CAR). &#8220;&#201; obrigat&#243;rio para quem vai fazer pecu&#225;ria, ou lavoura, todos precisam do CAR&#8221;, explicou. Criado em 2012 pelo Novo C&#243;digo Florestal para ajudar no controle do desmatamento, o CAR n&#227;o confere direitos de propriedade, mas ajuda na regulariza&#231;&#227;o ambiental dos im&#243;veis. As inscri&#231;&#245;es s&#227;o feitas por autodeclara&#231;&#227;o e, antes de serem validadas, s&#227;o analisadas pelas Secretarias de Meio Ambiente dos estados ou dos munic&#237;pios habilitados. Nesse processo, os registros sobre terras protegidas devem ser suspensos ou cancelados. A capacidade de an&#225;lise dos cadastros, por&#233;m, &#233; limitada. Enquanto 6,5 milh&#245;es de im&#243;veis foram inscritos no CAR entre 2012 e 2022, apenas 28 mil cadastros, ou 0,4% do total, foram completamente analisados, de acordo com levantamento do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Dada a facilidade de se efetuar um registro no sistema, o comprovante de inscri&#231;&#227;o no CAR tem sido largamente utilizado pelos invasores de terras p&#250;blicas para dar apar&#234;ncia de legalidade &#224;s suas ocupa&#231;&#245;es. A maioria dos an&#250;ncios de terras p&#250;blicas &#224; venda na internet encontrados pela reportagem tinha esse comprovante como um dos &#250;nicos documentos da terra.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Os profissionais do CAR</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>G</span></strong><span>roth &#233; engenheiro agr&#244;nomo e s&#243;cio da Terra Engenharia, uma empresa que presta servi&#231;os de consultoria a produtores rurais dos munic&#237;pios de Novo Progresso e Altamira. Um dos servi&#231;os oferecidos pela sua companhia &#233; o cadastramento de im&#243;veis rurais no CAR. Com entusiasmo, ele explicou como funciona o sistema. &#8220;Voc&#234; pode fazer o CAR sobre qualquer lugar que voc&#234; quiser&#8221;, afirmou, quase rindo. &#8220;De onde voc&#234; est&#225; agora, voc&#234; pode procurar uma &#225;rea que ainda n&#227;o tem CAR e pesquisar as coordenadas geogr&#225;ficas no Google Maps. Ent&#227;o, voc&#234; pega essa coordenada e leva a um engenheiro [para que ele efetue a inscri&#231;&#227;o no sistema]. Qualquer engenheiro faz isso&#8221;, disse ele antes de explicar que nem toda a extens&#227;o de um im&#243;vel precisa ser cadastrada no CAR, mas apenas a parte &#8220;que vai estar em uso, onde tem a pastagem, uma &#225;rea onde possivelmente n&#227;o vai ter multa ou coisa parecida&#8221;, procedimento que contraria a determina&#231;&#227;o legal de registrar toda a &#225;rea do im&#243;vel no sistema.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao ser perguntado sobre quanto custaria cadastrar no CAR o im&#243;vel posto &#224; venda no Facebook, Groth disse que era &#8220;baratinho&#8221;, e explicou que h&#225; duas op&#231;&#245;es de cadastramento: uma leg&#237;tima e outra que n&#227;o &#233;. De acordo com ele, o cadastro ileg&#237;timo &#233; o que pode ser feito a partir de qualquer lugar, apenas com coordenadas pesquisadas no Google Maps. Esse m&#233;todo, por&#233;m, pode gerar problemas no caso de venda do im&#243;vel, pois, segundo ele, muitas pessoas compram terras sem conferir </span><em><span>in loco</span></em><span> e, quando se d&#227;o conta, a realidade do ch&#227;o n&#227;o corresponde &#224; do papel. J&#225; o cadastro leg&#237;timo envolve trabalho de campo para colocar marcos &#8220;em cada canto da terra&#8221;, o que demanda &#8220;tempo e dinheiro&#8221;. &#8220;Imagina voc&#234; entrar 20km, 30km de floresta, onde n&#227;o tem acesso, o &#250;nico acesso &#233; a p&#233;, pra chegar l&#225; e colocar um marco&#8221;, observou. Em rela&#231;&#227;o ao seu im&#243;vel &#224; venda no Facebook, ele disse que o comprador vai gastar, em m&#233;dia, de 30 mil a 40 mil reais para fazer o CAR leg&#237;timo. &#8220;Isso eu t&#244; chutando alto, porque a minha [terra] tem estradas de acesso... Voc&#234; consegue fazer por menos&#8221;, ponderou.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A possibilidade de fornecer o servi&#231;o de cadastramento no CAR a quem comprar o seu im&#243;vel parece ser um dos motivos pelos quais ele n&#227;o inscreveu a &#225;rea no sistema. Apesar disso, ele j&#225; cadastrou, em seu pr&#243;prio nome, outra &#225;rea dentro da reserva, localizada ao sul do im&#243;vel que ele colocou &#224; venda. No local, as imagens de sat&#233;lite mostram instala&#231;&#245;es como uma casa, um curral e uma represa. Procurado pelo </span><strong><span>Subsolo </span></strong><span>para comentar os achados da investiga&#231;&#227;o, Groth bloqueou o contato da reportagem no WhatsApp.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O servi&#231;o de cadastramento de im&#243;veis no CAR realizado pela Terra Engenharia &#233; desenvolvido por Groth e seus s&#243;cios Jhonathan Brito Medeiros e Edson Mariano da Silva. Jhonathan &#233; um engenheiro florestal que inseriu no sistema 44 fazendas no interior da Flona. Uma de suas clientes &#233; l&#237;der absoluta no ranking de multas por desmatamento em unidades de conserva&#231;&#227;o na Amaz&#244;nia, com um passivo de mais de 100 milh&#245;es de reais por delitos ambientais, como o uso de fogo para impedir que a vegeta&#231;&#227;o de uma &#225;rea de 5.700 hectares se regenerasse. J&#225; Edson &#233; um agrimensor que registrou no CAR 27 fazendas sobrepostas &#224; Flona. Juntos, os im&#243;veis cadastrados pelos dois s&#243;cios de Groth na Floresta do Jamanxim somam 92 mil hectares, o que corresponde a 7% de toda a &#225;rea da reserva.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em 2016, as atividades da Terra Engenharia despertaram a aten&#231;&#227;o das autoridades. Naquele ano, Jhonathan e Edson foram alvos de mandados de pris&#227;o preventiva durante a </span><a href="https://acervo.socioambiental.org/acervo/noticias/operacao-desarticula-quadrilha-de-desmatadores-que-movimentou-r-19-bi-no-para"><span>Opera&#231;&#227;o Rios Voadores</span></a><span>, deflagrada pela Pol&#237;cia Federal (PF) para combater uma organiza&#231;&#227;o criminosa especializada em desmatamento e grilagem de terras em Novo Progresso e Altamira. A pr&#243;pria Terra Engenharia consta na lista de alvos da opera&#231;&#227;o. De acordo com os investigadores, os suspeitos invadiam terras p&#250;blicas, retiravam a madeira de alto valor comercial, derrubavam a vegeta&#231;&#227;o restante e, depois, tocavam fogo para formar pasto. Quando o gado j&#225; estava no pasto, a terra era, ent&#227;o, cadastrada no CAR em nome de terceiros, uma manobra que impedia que os l&#237;deres do esquema fossem identificados. Segundo a PF, a quadrilha teria movimentado 1,9 bilh&#227;o de reais entre 2012 e 2015.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Jhonathan tamb&#233;m &#233; r&#233;u, ao lado de outras 13 pessoas, em uma A&#231;&#227;o Civil P&#250;blica proposta pelo MPF para responsabilizar os acusados de desmatar 21 mil hectares de vegeta&#231;&#227;o nativa na floresta amaz&#244;nica, dos quais 16 mil hectares est&#227;o localizados na Flona do Jamanxim. Em decis&#227;o liminar proferida em outubro de 2024, a Justi&#231;a Federal decretou o bloqueio dos bens dos r&#233;us. O processo segue em fase inicial, ainda sem defini&#231;&#227;o de m&#233;rito.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Al&#233;m de Groth, Jhonathan e Edson, </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> identificou outros profissionais que cadastraram fazendas no CAR sobre terras p&#250;blicas protegidas no estado do Par&#225;. A 600km de Novo Progresso, um homem chamado Eberval Rego de Sousa cadastrou 91 im&#243;veis sobre terras ind&#237;genas homologadas. Ele trabalha como t&#233;cnico agropecu&#225;rio na Secretaria de Agricultura de Uruar&#225;. Dentre os seus clientes, est&#227;o tr&#234;s fazendeiros acusados de manter funcion&#225;rios em regime de trabalho an&#225;logo &#224; escravid&#227;o. A maioria dos cadastros no CAR feitos por ele apresenta sobreposi&#231;&#227;o com a Terra Ind&#237;gena Cachoeira Seca, do povo Arara, onde o desmatamento consumiu 44 mil hectares de floresta entre 2008 e 2025.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>J&#225; na Terra Ind&#237;gena Ituna Itat&#225;, onde suspeita-se que vivam povos nativos isolados, pol&#237;ticos e funcion&#225;rios p&#250;blicos aparecem como propriet&#225;rios de alguns dos 150 im&#243;veis que cobrem toda a extens&#227;o da reserva e foram registrados por tr&#234;s engenheiros locais. Um dos im&#243;veis est&#225; cadastrado em nome de Edilson Gomes Leal, funcion&#225;rio da Secretaria Especial de Sa&#250;de Ind&#237;gena de Altamira, munic&#237;pio onde parte da reserva est&#225; localizada. O </span><a href="https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2026/06/15/vereadores-votam-pela-cassacao-do-prefeito-de-anapu-no-pa-vice-ja-foi-empossado.ghtml"><span>prefeito</span></a><span> de Anap&#250;, Romildo Silva Rocha, e o ex-secret&#225;rio de Meio Ambiente do munic&#237;pio, Epaminondas de Jesus Silva, tamb&#233;m t&#234;m im&#243;veis cadastrados no CAR sobre a terra ind&#237;gena.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Jhonathan, Edson, Eberval, Edilson, Romildo e Epaminondas n&#227;o responderam aos pedidos de coment&#225;rio feitos pela reportagem.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Os benef&#237;cios do sistema</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span> Al&#233;m da facilidade de se efetuar o cadastro no sistema, o que torna o CAR t&#227;o vantajoso para os invasores de terras p&#250;blicas s&#227;o os benef&#237;cios que uma inscri&#231;&#227;o nele pode gerar. Durante a conversa, Groth explicou que, com o cadastro, &#233; poss&#237;vel transportar gado do pasto para os compradores. Isso ocorre porque os c&#243;digos do CAR de cada fazenda de origem do gado s&#227;o inseridos nas Guias de Tr&#226;nsito Animal, um documento obrigat&#243;rio que ajuda na rastreabilidade dos rebanhos. Al&#233;m do transporte animal, o cadastro tamb&#233;m &#233; um dos requisitos para a obten&#231;&#227;o de cr&#233;dito rural.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O problema, por&#233;m, n&#227;o se limita ao oeste do Par&#225;, onde Groth atua. </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> analisou uma planilha obtida pela ag&#234;ncia </span><a href="https://fiquemsabendo.com.br/meio-ambiente/data-fixers-veja-propriedades-rurais-que-foram-registradas-na-mesma-area-de-terras-indigenas-protegidas/"><span>Fiquem Sabendo</span></a><span> (organiza&#231;&#227;o sem fins lucrativos especializada em transpar&#234;ncia p&#250;blica), que cont&#233;m dados de milhares de im&#243;veis cadastrados no CAR sobre terras ind&#237;genas em todo o Brasil. Essa an&#225;lise permitiu constatar que o CAR abre as portas do sistema financeiro para os detentores de im&#243;veis sobre terras protegidas em Novo Progresso, Altamira e em toda a Amaz&#244;nia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Com a ajuda do Center for Climate Crime Analysis (CCCA), a reportagem confirmou que 327 im&#243;veis constantes na planilha est&#227;o sobrepostos a terras ind&#237;genas homologadas na Amaz&#244;nia, cujas &#225;reas em conflito variam de 100 a 111 mil hectares. Uma reserva ind&#237;gena &#233; considerada homologada quando seu processo de cria&#231;&#227;o &#233; conclu&#237;do e n&#227;o h&#225; mais possibilidade de os ocupantes n&#227;o ind&#237;genas reivindicarem a propriedade privada da terra.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Dessas 327 fazendas, 46 receberam cr&#233;dito de bancos brasileiros, tanto p&#250;blicos quanto privados, de acordo com consulta feita reportagem ao Monitor do Cr&#233;dito Rural do MapBiomas, ferramenta que re&#250;ne parte dos registros dessas opera&#231;&#245;es no pa&#237;s. Os casos identificados se concentram nos estados do Maranh&#227;o e Mato Grosso. Dentre as institui&#231;&#245;es financeiras que concederam empr&#233;stimos a im&#243;veis sobrepostos a terras ind&#237;genas homologadas est&#227;o o Banco do Brasil, o Banco do Nordeste e o Ita&#250;. Parte das opera&#231;&#245;es foi realizada antes de o Conselho Monet&#225;rio Nacional (CMN) aprovar a Resolu&#231;&#227;o de n&#176; 5.193/2024, a qual pro&#237;be a concess&#227;o de cr&#233;dito rural a im&#243;veis com sobreposi&#231;&#227;o total ou parcial a terras ind&#237;genas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Um caso apurado &#224; parte por </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> a partir do mapa do CAR de Rond&#244;nia ilustra como a falha se repete mesmo ap&#243;s a Resolu&#231;&#227;o do CMN entrar em vigor.  Uma fazenda com 3.716 hectares, parcialmente sobreposta &#224; Terra Ind&#237;gena (TI) Rio Omer&#234;, recebeu um empr&#233;stimo de cinco milh&#245;es de reais com equaliza&#231;&#227;o de juros da linha de cr&#233;dito Finame do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ&#244;mico e Social (BNDES). A opera&#231;&#227;o foi realizada em 20 de junho de 2025 pelo Ita&#250; Unibanco, o maior banco privado da Am&#233;rica Latina em termos de ativos e carteira de cr&#233;dito.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em 2023, uma </span><a href="https://deolhonosruralistas.com.br/2023/06/14/politicos-e-seus-familiares-possuem-96-mil-hectares-sobrepostos-a-terras-indigenas/"><span>reportagem</span></a><span> do site De Olho nos Ruralistas revelou que a mesma &#225;rea estava registrada no Sistema de Gest&#227;o Fundi&#225;ria (SIGEF) em nome da Transportadora Giomila, cujos s&#243;cios-propriet&#225;rios s&#227;o o senador Jaime Bagattoli (PL/RO) e seu irm&#227;o Orlando Bagattoli. Ao comentar os achados da reportagem em uma sess&#227;o da Comiss&#227;o Parlamentar de Inqu&#233;rito (CPI) criada para investigar ONGs, sobretudo as de atua&#231;&#227;o ambiental, realizada em 20 de junho de 2023, o senador disse que o im&#243;vel citado tem 3.716 hectares, mas &#8220;tive que desmembrar 1.118 hectares&#8221;, deixando os 2.598 hectares restantes dentro da terra ind&#237;gena que, segundo ele, foi homologada em 2020. Na verdade, a Rio Omer&#234; foi homologada 14 anos antes, em 2006. </span></p><p style="text-align: justify;">De acordo com a norma do CMN, se um &#250;nico im&#243;vel cont&#233;m mais de um registro no CAR, e se ao menos um desses registros apresenta sobreposi&#231;&#227;o a um territ&#243;rio ind&#237;gena, o cr&#233;dito n&#227;o deve ser concedido, mesmo que seja para empreendimento situado na parte do im&#243;vel que est&#225; registrada fora dos limites da reserva. No caso da propriedade financiada pelo Ita&#250;, a mesma &#225;rea tem dois registros no CAR. Uma das parcelas est&#225; completamente sobreposta ao territ&#243;rio ind&#237;gena, enquanto a outra apresenta 2.600 m&#178; (0,26 hectares) de sobreposi&#231;&#227;o. &#201; nessa segunda parcela que est&#225; a &#225;rea financiada em 2025. No momento de informar a opera&#231;&#227;o ao Sistema do Cr&#233;dito Rural e do Proagro (SICOR), o Ita&#250; reportou os c&#243;digos de registro no CAR das duas parcelas do im&#243;vel. Na sess&#227;o do Senado, em 2023, o senador questionou: &#8220;Ora, qual produtor rural que vai querer invadir meio hectare? Eu n&#227;o quero invadir nada&#8221;, referindo-se aos 0,26 hectares de sobreposi&#231;&#227;o que a segunda parcela do im&#243;vel tem com o territ&#243;rio ind&#237;gena.</p><p style="text-align: justify;"><span>Ao </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>, o Banco Central (BC) explicou que a regra que pro&#237;be o financiamento de im&#243;veis total ou parcialmente sobrepostos a terras ind&#237;genas existe porque, mesmo que a &#225;rea beneficiada com o cr&#233;dito esteja fora dos limites da TI, as atividades financiadas podem impactar o interior da reserva. Como exemplo, o BC citou a pecu&#225;ria, em que animais podem acabar circulando dentro do territ&#243;rio ind&#237;gena mesmo que a atividade financiada esteja localizada fora dela. O BC tamb&#233;m disse que, quando identificadas irregularidades, cabe &#224;s institui&#231;&#245;es financeiras avaliar as provid&#234;ncias necess&#225;rias, podendo desclassificar ou reclassificar a opera&#231;&#227;o. A norma, por&#233;m, n&#227;o prev&#234; nenhuma penalidade aos bancos nesses casos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Al&#233;m do problema com a sobreposi&#231;&#227;o parcial &#224; terra ind&#237;gena, um dos registros no CAR se encontra cancelado. O Manual do Cr&#233;dito Rural &#233; claro ao afirmar que &#8220;n&#227;o ser&#225; concedido cr&#233;dito rural para empreendimento situado em im&#243;vel&#8221; cuja inscri&#231;&#227;o no CAR tenha sido cancelada.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O senador Jaime, o seu irm&#227;o Orlando e a Transportadora Giomila n&#227;o responderam aos pedidos de coment&#225;rio feitos pela reportagem. O Ita&#250;, por outro lado, disse que &#8220;concede cr&#233;dito rural em conformidade com a legisla&#231;&#227;o aplic&#225;vel e de acordo com crit&#233;rios internos de governan&#231;a e gest&#227;o de riscos socioambientais&#8221;. Segundo o banco, &#8220;as opera&#231;&#245;es passam por an&#225;lises e verifica&#231;&#245;es previstas na regulamenta&#231;&#227;o vigente, com base em documenta&#231;&#227;o cadastral, consultas a bases oficiais e ferramentas especializadas de monitoramento socioambiental e geoespacial&#8221;. A institui&#231;&#227;o afirmou ainda que &#8220;ap&#243;s a contrata&#231;&#227;o, as opera&#231;&#245;es seguem monitoradas e eventuais ind&#237;cios de irregularidades s&#227;o apurados&#8221; e que &#8220;diante da constata&#231;&#227;o de inconformidades, o banco adota as medidas cab&#237;veis&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O Ita&#250; n&#227;o respondeu se o fato de um dos s&#243;cios da Transportadora Giomila exercer mandato de senador influenciou, de alguma forma, a concess&#227;o de cr&#233;dito em desacordo com a Resolu&#231;&#227;o do CMN. O banco disse apenas que, em raz&#227;o do sigilo banc&#225;rio, &#8220;n&#227;o comenta opera&#231;&#245;es ou informa&#231;&#245;es de clientes espec&#237;ficos&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O senador Jaime Bagattoli tem um forte hist&#243;rico de proposi&#231;&#227;o de leis que reduzem prote&#231;&#245;es ambientais e limitam direitos ind&#237;genas. Ele defende a aprova&#231;&#227;o do marco temporal, uma tese jur&#237;dica que prop&#245;e que os povos ind&#237;genas s&#243; t&#234;m direito de reivindicar a demarca&#231;&#227;o de terras que eles estavam ocupando ou disputando no momento da promulga&#231;&#227;o da Constitui&#231;&#227;o de 1988. O senador tamb&#233;m integra o grupo de trabalho sobre minera&#231;&#227;o em terras ind&#237;genas no Senado e, recentemente, </span><a href="https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=9994470&amp;disposition=inline"><span>prop&#244;s um decreto</span></a><span> legislativo para sustar a Portaria MPI n&#186; 114/2025, que refor&#231;a a prote&#231;&#227;o territorial ind&#237;gena.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A redu&#231;&#227;o da Flona</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Quando uma unidade de conserva&#231;&#227;o da natureza &#233; criada sobre terras previamente ocupadas, o governo deve desapropriar os im&#243;veis e indenizar os ocupantes leg&#237;timos. O processo de regulariza&#231;&#227;o fundi&#225;ria da Flona, no entanto, teve in&#237;cio apenas em 2014, oito anos ap&#243;s a sua cria&#231;&#227;o. De acordo com o Instituto Chico Mendes de Conserva&#231;&#227;o da Biodiversidade (ICMBio), &#243;rg&#227;o respons&#225;vel por administrar as unidades de conserva&#231;&#227;o federais, h&#225;, atualmente, 2.962 processos de regulariza&#231;&#227;o fundi&#225;ria em curso em unidades de conserva&#231;&#227;o na Amaz&#244;nia Legal. O &#243;rg&#227;o diz n&#227;o ser poss&#237;vel, por&#233;m, precisar quantos desses processos aguardam indeniza&#231;&#227;o, nem o valor envolvido em cada caso, pois as quantias indenizat&#243;rias s&#227;o definidas apenas nas fases mais avan&#231;adas dos processos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Antes mesmo do in&#237;cio da discuss&#227;o sobre a regulariza&#231;&#227;o fundi&#225;ria da &#225;rea e as indeniza&#231;&#245;es devidas aos seus ocupantes leg&#237;timos, os moradores da Flona deram origem a um movimento pol&#237;tico para reduzir o tamanho da reserva, com deputados e senadores vocalizando as suas demandas. Em face desse movimento, em 2012, o Minist&#233;rio do Meio Ambiente concordou com uma redu&#231;&#227;o de 77 mil hectares da Flona para beneficiar 236 pessoas que j&#225; viviam no local antes da unidade de conserva&#231;&#227;o ser criada. Os l&#237;deres do movimento, por&#233;m, queriam que pelo menos 600 mil hectares de terra fossem exclu&#237;dos da reserva. Em 2016, o presidente Michel Temer assinou uma Medida Provis&#243;ria para converter 312 mil hectares da Flona em &#193;rea de Prote&#231;&#227;o Ambiental (APA), um tipo de unidade de conserva&#231;&#227;o menos restritiva, onde a propriedade privada e a pecu&#225;ria s&#227;o permitidas. Antes que a Medida fosse apreciada pelo Senado, contudo, o governo recuou e solicitou a sua retirada de vota&#231;&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Enquanto a situa&#231;&#227;o fundi&#225;ria da Flona n&#227;o era resolvida, muitos invasores se mudaram para dentro da reserva, aumentando a press&#227;o sobre a floresta. O ICMBio estimou, em 2009, que 67% dos ocupantes da Flona chegaram depois da cria&#231;&#227;o da reserva. Ao longo da investiga&#231;&#227;o, </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> encontrou &#224; venda na internet pelo menos seis fazendas localizadas dentro da Flona do Jamanxim. Juntas, as suas &#225;reas somam 17.362 hectares.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Dados de desmatamento da plataforma Terra Brasilis mostram que, entre 2008 e 2025, a Flona perdeu 119 mil hectares de mata, o que representa 9% da sua cobertura original. Essa perda contribuiu para transform&#225;-la na segunda unidade de conserva&#231;&#227;o mais devastada do pa&#237;s. Em 2025, o ICMBio lavrou 11 autos de infra&#231;&#227;o no interior da reserva, sete dos quais estavam relacionados &#224; destrui&#231;&#227;o de vegeta&#231;&#227;o nativa. Em 2022, Groth foi multado em 565 mil reais por dificultar a regenera&#231;&#227;o natural de uma &#225;rea desmatada de 112 hectares dentro da Flona.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!U-Yp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6c1e8e55-4dc1-47ca-8d2e-3ac0b30097af_550x640.gif" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!U-Yp!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6c1e8e55-4dc1-47ca-8d2e-3ac0b30097af_550x640.gif 424w, 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pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" 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Assim acontece na Floresta Nacional do Jamanxim&#8221;, afirma um trecho do livro &#8220;Dono &#233; quem desmata&#8221;, do ge&#243;grafo Maur&#237;cio Torres, cujo trabalho explora a din&#226;mica da grilagem de terras e a sua rela&#231;&#227;o com o desmatamento na regi&#227;o de Novo Progresso. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>Apesar do rev&#233;s em 2016, a luta pela redu&#231;&#227;o da reserva continuou. Dez anos depois, em julho de 2026, o Senado aprovou a redu&#231;&#227;o da Flona em 37,4%, com a transforma&#231;&#227;o dos 486 mil hectares de &#225;rea desmembrada em APA. Agora, a medida aguarda a san&#231;&#227;o do presidente da Rep&#250;blica para come&#231;ar a valer. </span>Ambientalistas, contudo, est&#227;o <a href="https://oglobo.globo.com/brasil/meio-ambiente/noticia/2026/07/21/ambientalistas-pressionam-lula-a-vetar-projeto-que-reduz-em-quase-40percent-a-floresta-nacional-do-jamanxim-no-para.ghtml">pressionando o presidente Lula</a> a vetar o projeto.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ns0l!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2e28aa05-3bd0-4ff8-ab0e-a5b62860aa94_697x727.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p style="text-align: justify;"><strong><span>O futuro da floresta</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>G</span></strong><span>roth e seus colegas da Terra Engenharia s&#227;o apenas a face vis&#237;vel de um sistema mais amplo, que conecta pequenos escrit&#243;rios no interior da Amaz&#244;nia aos gabinetes de pol&#237;ticos em Bras&#237;lia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em Novo Progresso, a vegeta&#231;&#227;o que, segundo Groth, &#8220;voltou a nascer&#8221; sobre a &#225;rea desmatada no in&#237;cio dos anos 2000, agora poder&#225; continuar a crescer, afinal, a redu&#231;&#227;o da Flona beneficiou apenas o im&#243;vel registrado no CAR em seu pr&#243;prio nome. A propriedade ofertada no Facebook continua dentro dos limites da reserva, o que significa que a sua venda e explora&#231;&#227;o permanecem t&#227;o ilegais quanto o eram em 2023, quando o an&#250;ncio foi publicado.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A investiga&#231;&#227;o foi financiada por: </span></strong><span>The Mailman Foundation, Earth Island Institute, The Puffin Foundation, GRID-Arendal e Earth Journalism Network.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Apoio: </span></strong><span>O Center for Climate Crime Analysis (CCCA) ajudou a confirmar a sobreposi&#231;&#227;o dos 327 im&#243;veis filtrados pela reportagem.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[FOGO E SANGUE]]></title><description><![CDATA[Comunidades pobres na Amaz&#244;nia s&#227;o ref&#233;ns do medo imposto pelos invasores de terras p&#250;blicas]]></description><link>https://subsolojornalismo.substack.com/p/fogo-e-sangue</link><guid isPermaLink="false">https://subsolojornalismo.substack.com/p/fogo-e-sangue</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Martins]]></dc:creator><pubDate>Sun, 09 Aug 2026 16:27:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXYZ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff3b3959e-073d-4a4d-ada8-e39ca79a4480_1699x1075.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong><span>E</span></strong><span>ra uma tarde tranquila de agosto quando Norman Gall almo&#231;ava em seu apartamento em Higien&#243;polis, um bairro nobre situado em uma das &#225;reas mais altas do centro de S&#227;o Paulo. A tarde seguia o seu curso at&#233; que, por volta das 15h, o c&#233;u da cidade come&#231;ou a mudar repentinamente. Em poucos minutos, uma grande camada de nuvens densas e negras, impulsionada por um vento forte vindo do norte, cobriu o c&#233;u da cidade, mergulhando-a em trevas. Intrigado com a vis&#227;o sombria, Norman abriu uma das janelas para tentar entender o que acontecia.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ML4Q!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa41eae26-3be6-483c-9a39-ef6fe69b5a51_1200x670.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ML4Q!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa41eae26-3be6-483c-9a39-ef6fe69b5a51_1200x670.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ML4Q!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa41eae26-3be6-483c-9a39-ef6fe69b5a51_1200x670.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ML4Q!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa41eae26-3be6-483c-9a39-ef6fe69b5a51_1200x670.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ML4Q!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa41eae26-3be6-483c-9a39-ef6fe69b5a51_1200x670.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ML4Q!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa41eae26-3be6-483c-9a39-ef6fe69b5a51_1200x670.jpeg" width="1200" height="670" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a41eae26-3be6-483c-9a39-ef6fe69b5a51_1200x670.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:670,&quot;width&quot;:1200,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:372808,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://subsolojornalismo.substack.com/i/210483475?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa41eae26-3be6-483c-9a39-ef6fe69b5a51_1200x670.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ML4Q!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa41eae26-3be6-483c-9a39-ef6fe69b5a51_1200x670.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ML4Q!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa41eae26-3be6-483c-9a39-ef6fe69b5a51_1200x670.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ML4Q!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa41eae26-3be6-483c-9a39-ef6fe69b5a51_1200x670.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ML4Q!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa41eae26-3be6-483c-9a39-ef6fe69b5a51_1200x670.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Dia vira noite em S&#227;o Paulo. Foto: Reprodu&#231;&#227;o</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;&#201; o Apocalipse!&#8221;, brincou Vanda Gomes, empregada dom&#233;stica, que se aproximara do seu chefe com uma vassoura em m&#227;os para recolher a fuligem trazida pelas rajadas de vento que sopravam janela adentro. Como um judeu que se mant&#233;m incr&#233;dulo a respeito das profecias crist&#227;s acerca do fim dos tempos, Norman compreendeu a natureza daquela provoca&#231;&#227;o, mas em vez de retruc&#225;-la, preferiu ligar a TV em busca de uma resposta mais convincente para o que testemunhava no c&#233;u.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Se proferida a 2.600km dali, a profecia de Vanda poderia ter sido melhor recepcionada. Para os moradores do assentamento Terra Nossa, no oeste do Par&#225;, aqueles dias de agosto representavam o &#8220;fim do mundo&#8221; no qual eles estavam acostumados a viver. Poucos dias antes do c&#233;u escurecer em S&#227;o Paulo, os assentados travaram uma luta intensa para proteger suas casas de barro e madeira e suas &#225;reas de pasto e plantio das labaredas que se alastraram pelo interior do assentamento.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Assim que os inc&#234;ndios come&#231;aram, Maria Marcia Elp&#237;dia de Melo, presidente de uma das associa&#231;&#245;es de moradores do Terra Nossa, saiu em busca de ajuda dos brigadistas locais, mas n&#227;o encontrou ningu&#233;m que pudesse socorr&#234;-los. &#8220;Foi uma correria para salvar os bichos e tudo o que a gente podia&#8221;, lembrou ela.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em apenas dois dias, os sat&#233;lites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) detectaram 197 focos de calor no interior do assentamento, em um evento que se tornaria conhecido como Dia do Fogo e que afetaria, principalmente, &#225;reas protegidas como o Terra Nossa, onde a investiga&#231;&#227;o do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> encontrou um im&#243;vel sobreposto ao seu territ&#243;rio &#224; venda na internet.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2Ucy!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27236296-2cfa-4012-9b61-1f4b0242ba2b_1024x683.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2Ucy!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27236296-2cfa-4012-9b61-1f4b0242ba2b_1024x683.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2Ucy!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27236296-2cfa-4012-9b61-1f4b0242ba2b_1024x683.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2Ucy!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27236296-2cfa-4012-9b61-1f4b0242ba2b_1024x683.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2Ucy!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27236296-2cfa-4012-9b61-1f4b0242ba2b_1024x683.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2Ucy!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27236296-2cfa-4012-9b61-1f4b0242ba2b_1024x683.jpeg" width="1024" height="683" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/27236296-2cfa-4012-9b61-1f4b0242ba2b_1024x683.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:683,&quot;width&quot;:1024,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2Ucy!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27236296-2cfa-4012-9b61-1f4b0242ba2b_1024x683.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2Ucy!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27236296-2cfa-4012-9b61-1f4b0242ba2b_1024x683.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2Ucy!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27236296-2cfa-4012-9b61-1f4b0242ba2b_1024x683.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2Ucy!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27236296-2cfa-4012-9b61-1f4b0242ba2b_1024x683.jpeg 1456w" sizes="100vw"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Focos de inc&#234;ndio florestal registrados no Dia do Fogo. Foto: Programa Queimadas/Inpe</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"><strong><span>Um pecado de origem</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span> A</span></strong><span> hist&#243;ria do Terra Nossa come&#231;a com a decis&#227;o do governo federal de pavimentar o trecho da BR-163, que liga Cuiab&#225; &#224; Santar&#233;m, uma importante via para o escoamento da soja e do milho produzidos no Centro-Oeste brasileiro. Com o objetivo de evitar que a pavimenta&#231;&#227;o da estrada provocasse o aumento do desmatamento na regi&#227;o, o governo criou um conjunto de unidades de conserva&#231;&#227;o em torno desse trecho da rodovia, o que incluiu a Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim. Para tentar evitar um problema ambiental, por&#233;m, gerou-se outro de ordem social. Ao norte da nova reserva j&#225; viviam centenas de fam&#237;lias pobres que tiveram que deixar o local e foram reassentadas do outro lado da BR-163, em uma &#225;rea que compreende partes dos munic&#237;pios de Altamira e Novo Progresso, no Par&#225;. Assim, nascia o Terra Nossa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Concebido pelo Instituto Nacional de Coloniza&#231;&#227;o e Reforma Agr&#225;ria (INCRA) como um Projeto de Desenvolvimento Sustent&#225;vel (PDS), o Terra Nossa tem como prop&#243;sito conciliar a preserva&#231;&#227;o da floresta com a agricultura de pequeno porte. Por essa raz&#227;o, dentro de cada PDS h&#225; uma grande &#225;rea de mata virgem destinada ao manejo coletivo sustent&#225;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em teoria, o Terra Nossa seria uma solu&#231;&#227;o para acolher os desabrigados da Flona do Jamanxim, enquanto protegia a floresta do desmatamento. Na pr&#225;tica, por&#233;m, havia outros interesses em jogo. Segundo </span><a href="https://mst.org.br/2007/10/30/incra-avalia-denuncias-de-fraudes-em-assentamentos-no-para/"><span>uma investiga&#231;&#227;o do Minist&#233;rio P&#250;blico Federal</span></a><span> (MPF), assim como dezenas de assentamentos criados pelo INCRA no oeste do Par&#225;, entre 2005 e 2006, o Terra Nossa teria nascido para atender aos interesses das elites madeireiras locais, que buscavam novas &#225;reas de extra&#231;&#227;o. Por meio desse esquema, as madeireiras escolhiam onde queriam atuar e a superintend&#234;ncia local do INCRA criava assentamentos sobre essas &#225;reas, enviando colonos para zonas de mata distantes dos centros urbanos, onde n&#227;o havia estradas, nem infraestrutura b&#225;sica para abrig&#225;-los.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O ge&#243;grafo Mauricio Torres, da Universidade de S&#227;o Paulo (USP), revelou a dimens&#227;o desse esquema em sua tese de doutorado. Em apenas dois anos, entre 2005 e 2006, o INCRA &#8220;assentou&#8221; 51.700 fam&#237;lias no oeste do Par&#225;, mais que o dobro verificado em toda a hist&#243;ria de coloniza&#231;&#227;o promovida pela autarquia nesta regi&#227;o. Muitas fam&#237;lias, por&#233;m, sequer sabiam que haviam sido assentadas pelo INCRA. Ap&#243;s auditar 97 assentamentos criados em 2006, Torres descobriu que 72% deles n&#227;o tinham laudo agron&#244;mico, um documento b&#225;sico que avalia se uma &#225;rea &#233; adequada para receber colonos. &#8220;A publica&#231;&#227;o da portaria de cria&#231;&#227;o sem o t&#233;rmino dos estudos t&#233;cnicos poderia ser comparada &#224; ideia de se fritar o peixe antes de pesc&#225;-lo&#8221;, escreveu ele.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Esse pecado de origem explica os problemas que perduram no Terra Nossa vinte anos ap&#243;s a sua cria&#231;&#227;o. At&#233; hoje, as poucas estradas que existem no assentamento foram abertas por madeireiros e pela mineradora estrangeira que opera no PDS, apenas para facilitar o acesso &#224;s riquezas do territ&#243;rio. Embora tenha capacidade para abrigar mil fam&#237;lias, menos de trezentas ocupam o assentamento de forma regular, e a maioria delas vive em barracos e n&#227;o em casas de alvenaria. Outras 490 fam&#237;lias est&#227;o reunidas no Acampamento Bom Futuro, dentro do assentamento, aguardando a distribui&#231;&#227;o de novos lotes.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A antrop&#243;loga Renata Barbosa Lacerda, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acompanhou o Terra Nossa por mais de uma d&#233;cada, entre visitas de campo e contato remoto com os moradores pelas redes sociais. Para ela, uma placa colocada pelo INCRA na entrada do assentamento, em 2011, captura o descompasso entre as promessas do governo e a realidade no ch&#227;o do PDS. No painel, consta a informa&#231;&#227;o de que as obras de complementa&#231;&#227;o das estradas vicinais do PDS foram conclu&#237;das ao custo de 1,8 milh&#227;o de reais. Na verdade, &#8220;essas obras nunca foram conclu&#237;das&#8221;, afirmou ela.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Zo6!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbc667455-2b20-4d17-9f9b-b684fb222001_596x450.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Zo6!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbc667455-2b20-4d17-9f9b-b684fb222001_596x450.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Zo6!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbc667455-2b20-4d17-9f9b-b684fb222001_596x450.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Zo6!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbc667455-2b20-4d17-9f9b-b684fb222001_596x450.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Zo6!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbc667455-2b20-4d17-9f9b-b684fb222001_596x450.png 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Zo6!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbc667455-2b20-4d17-9f9b-b684fb222001_596x450.png" width="596" height="450" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bc667455-2b20-4d17-9f9b-b684fb222001_596x450.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:450,&quot;width&quot;:596,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Zo6!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbc667455-2b20-4d17-9f9b-b684fb222001_596x450.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Zo6!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbc667455-2b20-4d17-9f9b-b684fb222001_596x450.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Zo6!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbc667455-2b20-4d17-9f9b-b684fb222001_596x450.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Zo6!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbc667455-2b20-4d17-9f9b-b684fb222001_596x450.png 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Placa instalada pelo INCRA na entrada do PDS Terra Nossa informava que as obras de complementa&#231;&#227;o de estradas vicinais do assentamento haviam sido conclu&#237;das.                              Foto: Renata Lacerda (2013)</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"><strong><span>Heran&#231;a maldita</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A</span></strong><span> terra de 1.498 km&#178; sobre a qual o INCRA decidiu despejar Maria M&#225;rcia e os demais colonos j&#225; tinha o seu pr&#243;prio hist&#243;rico de disputas antes de o assentamento ser criado. Inicialmente, a &#225;rea do PDS pertencia &#224; Terra Ind&#237;gena Ba&#250;, mas ap&#243;s </span><a href="https://imazon.fly.storage.tigris.dev/wp-backup/PDFimazon/Portugues/outros/Boletim_Reducao%20de%20APs.pdf"><span>mais de uma d&#233;cada de conflito</span></a><span> entre, de um lado, fazendeiros e lideran&#231;as pol&#237;ticas de Novo Progresso e, do outro, os &#237;ndios Kayap&#243;, a &#225;rea foi desafetada em 2003.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Embora o PDS tivesse sido criado para, supostamente, agradar &#224;s madeireiras da regi&#227;o, n&#227;o se podia dizer o mesmo dos fazendeiros locais, que, at&#233; hoje, reivindicam a propriedade de parte da &#225;rea. Para esses &#250;ltimos, a implanta&#231;&#227;o do Terra Nossa era um obst&#225;culo aos seus interesses e, por isso, a rea&#231;&#227;o veio r&#225;pida. Apenas um ano depois da cria&#231;&#227;o do assentamento, tr&#234;s fam&#237;lias ingressaram com a&#231;&#245;es na Justi&#231;a para cancelar o PDS, ou reduzir o seu tamanho, de modo a garantir que as terras reivindicadas como suas ficassem fora do per&#237;metro demarcado pelo INCRA. Os documentos de posse utilizados por essas fam&#237;lias para embasar o processo foram obtidos com antigos funcion&#225;rios da autarquia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Na fase final dos processos, entre 2016 e 2017, as a&#231;&#245;es foram rejeitadas pela Justi&#231;a. Na decis&#227;o, os ju&#237;zes concordaram que os requerentes n&#227;o possu&#237;am documentos leg&#237;timos para comprovar a propriedade da &#225;rea e haviam fracionado grandes lotes de terra entre seus familiares e conhecidos numa tentativa de disfar&#231;ar a concentra&#231;&#227;o de terras. Insatisfeita com o veredito, uma das fam&#237;lias recorreu, mas, outra vez, o requerimento foi negado.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Antes mesmo que essa batalha judicial chegasse ao fim, os fazendeiros se reuniram com os presidentes das associa&#231;&#245;es dos assentados, em junho de 2014, para assinar um acordo que previa a redu&#231;&#227;o de 87% na &#225;rea do Terra Nossa e a sua convers&#227;o em um assentamento de reforma agr&#225;ria tradicional, sem as restri&#231;&#245;es ambientais que caracterizam os PDS. Os 1.300km&#178; de &#225;rea desafetada inclu&#237;am os lotes ocupados pelos fazendeiros e pela mineradora que opera no territ&#243;rio. As tratativas foram mediadas pelo Sichoski Advocacia e Consultoria Jur&#237;dica, escrit&#243;rio do advogado Felipe Sichoski, membro de uma das tr&#234;s fam&#237;lias que ingressou com a&#231;&#245;es na Justi&#231;a, em 2007, contra a cria&#231;&#227;o do assentamento e que, em 2016, recorreu para tentar derrubar a decis&#227;o judicial de manter o PDS. O INCRA acusa os Sichoski de deter cerca de 9 mil hectares de terra no assentamento de forma irregular.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Um dos participantes da reuni&#227;o foi o empres&#225;rio Paulo Vicente Malinski. Segundo o INCRA, Malinski reside no Paran&#225; e visita o assentamento duas vezes por ano, onde, segundo a autarquia, ele det&#233;m, de forma irregular, 7.274 hectares de terra. O im&#243;vel que a reportagem encontrou &#224; venda no site Casa Mineira e cuja &#225;rea est&#225; dentro do per&#237;metro do PDS &#233; um pouco menor (6.532 hectares), mas coincide com a &#225;rea que a autarquia afirma ser detida por Malinski. </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> utilizou as fotografias a&#233;reas presentes no an&#250;ncio do im&#243;vel como um guia para pesquisar a localiza&#231;&#227;o exata da terra atrav&#233;s do Google Earth Pro. Ap&#243;s encontrar a mesma &#225;rea pelas imagens de sat&#233;lite, a reportagem cruzou as coordenadas geogr&#225;ficas do local com as informa&#231;&#245;es fornecidas pelo INCRA. Esse procedimento permitiu confirmar a rela&#231;&#227;o entre o im&#243;vel &#224; venda e a &#225;rea que a autarquia afirma ser detida por Malinski. Em 2013, ele foi notificado pelo INCRA por desmatamento ilegal no im&#243;vel.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!g_5f!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9a0786ef-2df8-4c96-bc27-d74325cc7e4e_1280x720.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!g_5f!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9a0786ef-2df8-4c96-bc27-d74325cc7e4e_1280x720.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!g_5f!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9a0786ef-2df8-4c96-bc27-d74325cc7e4e_1280x720.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!g_5f!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9a0786ef-2df8-4c96-bc27-d74325cc7e4e_1280x720.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!g_5f!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9a0786ef-2df8-4c96-bc27-d74325cc7e4e_1280x720.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!g_5f!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9a0786ef-2df8-4c96-bc27-d74325cc7e4e_1280x720.jpeg" width="1280" height="720" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9a0786ef-2df8-4c96-bc27-d74325cc7e4e_1280x720.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:720,&quot;width&quot;:1280,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:185203,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://subsolojornalismo.substack.com/i/210483475?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9a0786ef-2df8-4c96-bc27-d74325cc7e4e_1280x720.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!g_5f!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9a0786ef-2df8-4c96-bc27-d74325cc7e4e_1280x720.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!g_5f!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9a0786ef-2df8-4c96-bc27-d74325cc7e4e_1280x720.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!g_5f!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9a0786ef-2df8-4c96-bc27-d74325cc7e4e_1280x720.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!g_5f!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9a0786ef-2df8-4c96-bc27-d74325cc7e4e_1280x720.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">An&#250;ncio publicado no site Casa Mineira. A &#225;rea est&#225; dentro do PDS Terra Nossa e pode ser encontrada pelas coordenadas  7&#176;36&#8217;19.26&#8221;S  54&#176;59&#8217;39.12&#8221;W</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>Maria M&#225;rcia disse que a fam&#237;lia Malinski &#233; amiga de todo mundo dentro do PDS. &#8220;O Sr. Paulo Malinski nunca maltratou ningu&#233;m, nunca amea&#231;ou ningu&#233;m. A &#250;nica coisa que ele faz para n&#243;s &#233; o trabalho que o INCRA nunca fez. O INCRA &#233; violador de lei. O INCRA fez um &#8216;jogamento&#8217; de pessoas e colocou os fazendeiros contra n&#243;s e n&#243;s contra os fazendeiros&#8221;, afirmou ela um pouco antes de acrescentar que &#8220;a &#250;nica coisa que o Malinski fez para n&#243;s foram as estradas, al&#233;m de comprar telhas para cobrir o col&#233;gio para os nosso filhos estudarem&#8221;.  Por fim, ela disse que Paulo Malinski &#8220;fez as nossas estradas sozinho, 45km de estradas para os carros rodarem. Tu sabe quanto que &#233; uma hora de PC [p&#225; carregadeira], n&#233;? Tu sabe quanto &#233; uma hora de m&#225;quina, n&#233;? Tu sabe quanto &#233; uma hora de ca&#231;amba, n&#233;?&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Procurado pela reportagem, Malinski n&#227;o respondeu aos e-mails enviados.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em mar&#231;o de 2015, nove meses ap&#243;s a assinatura do acordo de redu&#231;&#227;o do Terra Nossa, o superintendente regional do INCRA no oeste do Par&#225;, Luiz Bacelar Guerreiro Junior, editou a portaria de cria&#231;&#227;o do assentamento, reduzindo o seu tamanho. O MP, no entanto, recomendou a suspens&#227;o da medida, o que fez Bacelar recuar e restaurar a &#225;rea original do PDS. Dois meses depois desse recuo, Bacelar foi preso por ocasi&#227;o da </span><a href="https://combateacorrupcao.mpf.mp.br/feeder_novo/noticias-do-portal-do-mpf-boletim-mpf-em-destaque/a8b1effa6354aad529fa873ff404e28d"><span>Opera&#231;&#227;o Madeira Limpa</span></a><span>, que desmantelou uma quadrilha acusada de coagir assentados &#8220;a aceitarem a explora&#231;&#227;o ilegal de madeira dos assentamentos&#8221; no oeste do Par&#225; &#8220;em troca da manuten&#231;&#227;o de direitos b&#225;sicos, como o acesso a cr&#233;dito e a programas sociais&#8221;. Em 2019, </span><a href="https://www.trf1.jus.br/sjpa/noticias/sentencas-condenam-13-denunciados-por-fraudes-descobertas-na-operacao-madeira-limpa,-no-oeste-do-para"><span>Bacelar foi condenado</span></a><span> a 10 anos e 10 meses de pris&#227;o em decorr&#234;ncia dessa opera&#231;&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ap&#243;s esse epis&#243;dio, as fam&#237;lias que se opuseram &#224; manobra de redu&#231;&#227;o do Terra Nossa elegeram Maria M&#225;rcia presidente da Associa&#231;&#227;o de Produtores Rurais de Nova Vit&#243;ria, uma das seis associa&#231;&#245;es de trabalhadores rurais que atuam no assentamento.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>O Projeto Coringa</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>N</span></strong><span>o mesmo ano em que o INCRA criou o Terra Nossa, a mineradora canadense Chapleau Explora&#231;&#227;o Mineral Ltda. comprou os direitos de minera&#231;&#227;o de ouro sobre parte do territ&#243;rio do assentamento, e firmou acordos de uso da superf&#237;cie com os supostos donos da terra, os quais detinham as licen&#231;as de explora&#231;&#227;o artesanal de ouro concedidas pelo antigo Departamento Nacional de Produ&#231;&#227;o Mineral (DNPM), &#243;rg&#227;o que foi extinto, em 2017, para dar lugar &#224; Ag&#234;ncia Nacional de Minera&#231;&#227;o (ANM). Embora o DNPM tivesse compet&#234;ncia para conceder essas licen&#231;as, os direitos sobre o uso da superf&#237;cie pertencem ao INCRA, pois se trata de uma terra p&#250;blica de dom&#237;nio federal convertida em assentamento de reforma agr&#225;ria.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Apesar do problema fundi&#225;rio, os contratos firmados em 2007 foram renovados em 2013 e 2016. Mediante esses acordos, os supostos donos da terra recebiam presta&#231;&#245;es mensais e royalties sobre o min&#233;rio extra&#237;do durante a vig&#234;ncia dos contratos. O INCRA classifica esses supostos donos como grileiros que teriam se apossado de uma &#225;rea de 6.800 hectares do assentamento de &#8220;forma fraudulenta&#8221;. Os documentos utilizados por eles para comprovar o direito &#224; posse da terra foram obtidos com antigos servidores da autarquia que, segundo o INCRA, teriam agido sem respaldo da lei. Quando a Chapleau foi vendida pela mineradora canadense Anfield Gold para a mineradora inglesa Serabi Gold plc, os pagamentos aos pretensos donos da &#225;rea foram, finalmente, interrompidos. Antes que isso acontecesse, contudo, a Chapleau desmatou a por&#231;&#227;o de terra coberta pelos contratos, e sobre ela construiu dep&#243;sitos de rejeitos e as estruturas necess&#225;rias &#224; opera&#231;&#227;o da mina que a empresa batizou de &#8220;Projeto Coringa&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Al&#233;m da falta de autoriza&#231;&#227;o do INCRA, a Chapleau operou por muitos anos com uma licen&#231;a vencida, sem um Estudo de Impacto Ambiental e Relat&#243;rio de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) e sem consultar o povo Kayap&#243;, cujo territ&#243;rio fica a 10,4 km de dist&#226;ncia da mina. A situa&#231;&#227;o levou o MPF a solicitar &#224; Justi&#231;a que ordenasse a paralisa&#231;&#227;o das atividades da mineradora. Com a press&#227;o, a empresa finalmente elaborou o EIA-RIMA e marcou uma audi&#234;ncia, em fevereiro de 2020, para divulgar os seus resultados. Os kayap&#243;s ficaram sabendo do evento por meio de Maria M&#225;rcia, que mant&#233;m rela&#231;&#245;es pr&#243;ximas com os ind&#237;genas, tendo, inclusive, cuidado de suas crian&#231;as e aprendido a sua linguagem.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No dia da audi&#234;ncia, &#8220;os ind&#237;genas da etnia Kayap&#243; fizeram a entrada, e depois do in&#237;cio se manifestaram, dizendo que n&#227;o foram consultados pelo Projeto Coringa, e que caso n&#227;o sejam ouvidos v&#227;o acampar com os guerreiros no empreendimento&#8221;, informou o jornal local Folha do Progresso. Como testemunhou Maria M&#225;rcia sobre o evento, &#8220;um cara da mineradora disse para eu calar a boca. E eu falei &#8216;n&#227;o, voc&#234; me respeita, e eu vou falar a verdade&#8217;.&#8221; Um ano depois desse epis&#243;dio, o Tribunal Regional Federal da 1&#170; Regi&#227;o (TRF1) determinou que a Serabi s&#243; poderia obter novas autoriza&#231;&#245;es de minera&#231;&#227;o quando consultasse os povos ind&#237;genas afetados pela mina.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No seu mais recente relat&#243;rio de atividades para o ano de 2025, a Serabi afirma que as comunidades vizinhas ao Projeto Coringa consideram a empresa &#8220;uma parceira importante e confi&#225;vel&#8221; que oferece apoio b&#225;sico &#224; popula&#231;&#227;o em &#225;reas como sa&#250;de, educa&#231;&#227;o e infraestrutura e que, por isso, os moradores reconhecem que a abordagem da companhia &#8220;&#233; necess&#225;ria para operar com sucesso numa regi&#227;o que carece de presen&#231;a estatal.&#8221;. Apesar disso, a mineradora continua a operar no assentamento sem a permiss&#227;o do INCRA, conforme informou a autarquia ao </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>. Em um comunicado enviado aos investidores, em 2023, a empresa reconheceu que a &#225;rea do projeto &#8220;tem sido objeto de v&#225;rios desafios ao longo dos anos&#8221; e que o INCRA n&#227;o havia &#8220;determinado o detentor leg&#237;timo do t&#237;tulo de propriedade&#8221; da &#225;rea. Na verdade, o detentor leg&#237;timo da &#225;rea &#233; a pr&#243;pria autarquia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Os relat&#243;rios divulgados anualmente pela empresa n&#227;o identificam nominalmente os compradores da sua produ&#231;&#227;o, mas apenas informam que todo o ouro em barra &#233; vendido para um cliente no Brasil, e todo o concentrado de cobre e ouro vai para um grupo de refino de metais listado em bolsa. A Serabi n&#227;o respondeu aos pedidos de coment&#225;rios enviados pela reportagem.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Al&#233;m do ouro, o gado criado no assentamento tamb&#233;m &#233; vendido para gigantes internacionais. Um </span><a href="https://www.hrw.org/pt/report/2025/10/15/392217"><span>relat&#243;rio</span></a><span> da Human Rights Watch (HRW) constatou que tr&#234;s frigor&#237;ficos da JBS adquiriram, atrav&#233;s de fazendas intermedi&#225;rias, cabe&#231;as de gado criados ilegalmente no Terra Nossa.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Fogo cruzado</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>E</span></strong><span>nquanto a Chapleau lucrava com a explora&#231;&#227;o do subsolo, os conflitos por terra se agravavam na superf&#237;cie do assentamento. Por l&#225;, em 2008, um homem chamado Dem&#233;trio Sichoski, pai do advogado Felipe Sichoski, teria avan&#231;ado com um trator em dire&#231;&#227;o a uma escola constru&#237;da pelos colonos. A edifica&#231;&#227;o s&#243; n&#227;o veio abaixo porque um grupo de mulheres e crian&#231;as interveio, ficando em frente ao ve&#237;culo e impedindo-o de avan&#231;ar. &#8220;Derrube a escola, e n&#243;s vamos derrubar voc&#234; desse trator&#8221;, declararam as assentadas na ocasi&#227;o, conforme relato colhido pela antrop&#243;loga Lacerda.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Os colonos tamb&#233;m denunciaram Dem&#233;trio pela venda de madeira supostamente extra&#237;da do assentamento sem autoriza&#231;&#227;o. Em 2024, ele concorreu &#224;s elei&#231;&#245;es municipais de Novo Progresso pelo Partido Liberal (PL) e ficou em terceiro lugar entre os vereadores mais votados do munic&#237;pio. Sua carreira pol&#237;tica come&#231;ou um pouco antes quando, entre 2009 e 2012, foi vereador pelo DEM no munic&#237;pio de Matup&#225;, no norte do Mato Grosso.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em janeiro de 2021, o im&#243;vel registrado em nome do seu filho Felipe recebeu uma Licen&#231;a de Atividade Rural (LAR) da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Novo Progresso (Sema-NP). A LAR &#233; um documento obrigat&#243;rio, v&#225;lido por cinco anos, e serve como autoriza&#231;&#227;o para o desenvolvimento de atividades agr&#237;colas no im&#243;vel. </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> consultou a Sema para entender o motivo da emiss&#227;o de uma autoriza&#231;&#227;o para a explora&#231;&#227;o econ&#244;mica de uma &#225;rea p&#250;blica federal. A Secretaria, por&#233;m, n&#227;o respondeu ao questionamento.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Durante sua primeira entrevista concedida ao </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>, em junho de 2024, Maria Marcia repetiu diversas vezes que a culpa pela situa&#231;&#227;o enfrentada pelos assentados era toda do INCRA. Segundo ela, dois funcion&#225;rios da autarquia atuam em favor dos fazendeiros. Um deles teria vazado suas den&#250;ncias para os invasores e dito a eles que a situa&#231;&#227;o do Terra Nossa ainda n&#227;o havia sido &#8220;resolvida&#8221; por causa dela. De acordo com seu depoimento &#224; reportagem, outro funcion&#225;rio da autarquia teria removido os marcos que delimitam os lotes dos assentados situados nas terras que est&#227;o em disputa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Devido &#224;s suas den&#250;ncias, Maria M&#225;rcia recebeu diversas amea&#231;as de morte. Elmiro, seu filho mais velho, foi espancado e teve que fugir do assentamento. Em novembro de 2019, ela foi v&#237;tima de um atentado quando dirigia para Novo Progresso. Uma caminhonete bateu violentamente no carro que ela pilotava e o motorista gritou &#8220;voc&#234; tem que morrer, sua miser&#225;vel!&#8221;. Felizmente, ela sobreviveu ao ataque, mas o carro, um Fiat Uno Way, foi destru&#237;do. Ap&#243;s esse epis&#243;dio, ela foi inclu&#237;da no Programa de Prote&#231;&#227;o aos Defensores dos Direitos Humanos do Estado do Par&#225;.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!N-w6!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F255bf158-6b7e-488d-bcff-a9975bf30013_720x716.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!N-w6!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F255bf158-6b7e-488d-bcff-a9975bf30013_720x716.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!N-w6!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F255bf158-6b7e-488d-bcff-a9975bf30013_720x716.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!N-w6!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F255bf158-6b7e-488d-bcff-a9975bf30013_720x716.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!N-w6!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F255bf158-6b7e-488d-bcff-a9975bf30013_720x716.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!N-w6!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F255bf158-6b7e-488d-bcff-a9975bf30013_720x716.jpeg" width="720" height="716" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/255bf158-6b7e-488d-bcff-a9975bf30013_720x716.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:716,&quot;width&quot;:720,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!N-w6!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F255bf158-6b7e-488d-bcff-a9975bf30013_720x716.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!N-w6!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F255bf158-6b7e-488d-bcff-a9975bf30013_720x716.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!N-w6!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F255bf158-6b7e-488d-bcff-a9975bf30013_720x716.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!N-w6!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F255bf158-6b7e-488d-bcff-a9975bf30013_720x716.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Marido de Maria M&#225;rcia ao lado do carro atingido por uma caminhonete, em novembro de 2019. Foto: Maria M&#225;rcia/Arquivo pessoal.</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>O programa, por&#233;m, solicitou a sua sa&#237;da do assentamento, o que ela prontamente recusou. &#8220;Eu tenho que me esconder enquanto os pilantras andam abertamente?&#8221;, questionou. Ao </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>, ela contou ter sido amea&#231;ada por dois sargentos do 46&#176; Batalh&#227;o de Pol&#237;cia Militar de Novo Progresso, os quais, segundo ela, trabalham para os fazendeiros ocupantes do Terra Nossa. A Corregedoria-Geral da Pol&#237;cia Militar do </span><a href="https://www.pm.pa.gov.br/phocadownload/userupload/userupload/sub.mlucia.14229/ADIT.%20BG%20N%20034%20-%20De%2016%20FEV%202023%20-%20CORREG.pdf"><span>Par&#225; abriu uma sindic&#226;ncia para apurar a den&#250;ncia</span></a><span>. &#192; reportagem, o &#243;rg&#227;o afirmou que o procedimento foi revogado porque as den&#250;ncias &#8220;s&#227;o objeto de apura&#231;&#227;o por meio do Inqu&#233;rito Policial Militar n&#186; 007/2023 &#8211; CorCPR-X, o qual se encontra em fase de conclus&#227;o&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Apesar das amea&#231;as, Maria M&#225;rcia n&#227;o d&#225; sinais de que pretende desistir da sua peleja pela terra. Como crist&#227; protestante, ela se orgulha de pertencer &#224; Igreja Adventista do S&#233;timo Dia e atribui a Deus a for&#231;a para continuar a luta. &#8220;&#201; Deus quem me d&#225; for&#231;as para sobreviver e lutar contra essas injusti&#231;as, defendendo os assentados e os meus amigos do PDS&#8221;, diz.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!84SK!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fabab6dc5-096c-4270-b073-998ed8f34ee4_1920x1080.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" 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Foto: Human Rights Watch</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"><br><span>Desde 2018, cinco pessoas foram assassinadas no assentamento em decorr&#234;ncia de conflitos fundi&#225;rios, segundo a Comiss&#227;o Pastoral da Terra (CPT), entidade ligada &#224; Igreja Cat&#243;lica que monitora os conflitos no campo no Brasil. Em um epis&#243;dio ainda sem respostas, o agricultor Ant&#244;nio Rodrigues dos Santos, conhecido como &#8220;Bigode&#8221;, desapareceu dentro do assentamento. Alguns meses antes, ele havia denunciado a extra&#231;&#227;o ilegal de madeira em seu lote e, segundo moradores, estava prestes a levar &#224; Pol&#237;cia Federal (PF) provas de um esquema de venda ilegal de terras do PDS.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Durante as investiga&#231;&#245;es do sumi&#231;o de Bigode, a Pol&#237;cia Civil prendeu Roberto Aparecido de Passos, Coordenador de Regulariza&#231;&#227;o Fundi&#225;ria da Prefeitura de Novo Progresso. Conhecido como Rog&#233;rio do Sindicato, ele foi vice-prefeito do munic&#237;pio de Novo Repartimento, no sudeste do Par&#225;, entre 2009 e 2012. Em 2011, ele foi preso por suspeita de fazer parte de </span><a href="https://www.jusbrasil.com.br/noticias/camaras-criminais-reunidas-negaram-liberdade-provisoria-a-condenado-por-roubo/2848185"><span>uma quadrilha que teria desviado 2 milh&#245;es de reais em precat&#243;rios</span></a><span> pagos pelos tribunais de Pernambuco. No caso Bigode, ele prestou depoimento e foi liberado logo em seguida. De acordo com Maria M&#225;rcia, ele teria dito a ela &#8220;voc&#234; est&#225; chorando porque sente falta do seu amigo Bigode? Logo, logo voc&#234; saber&#225; onde ele est&#225;&#8221;. Procurado pela reportagem atrav&#233;s do n&#250;mero de WhatsApp compartilhado pela Secretaria Municipal de Administra&#231;&#227;o e Planejamento de Novo Progresso, onde trabalha, Roberto n&#227;o respondeu aos questionamentos enviados.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O cen&#225;rio de medo &#233; sustentado pela presen&#231;a de invasores. Um relat&#243;rio elaborado por servidores do INCRA, que percorreram o assentamento durante tr&#234;s meses, em 2016, revelou que 77 fazendas foram formadas dentro do Terra Nossa ap&#243;s a sua cria&#231;&#227;o. Entre essas fazendas est&#227;o as terras detidas por Paulo Vicente Malinski e pela fam&#237;lia Sichoski.  Os autores do relat&#243;rio recomendaram a retirada imediata dos ocupantes, o que ainda n&#227;o ocorreu. &#8220;[Eles] n&#227;o v&#227;o desocupar as &#225;reas pacificamente&#8221;, admitiu o INCRA ao </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>. A autarquia acrescentou que &#8220;ser&#227;o necess&#225;rias a&#231;&#245;es judiciais, e somente assim o territ&#243;rio ficar&#225; livre&#8221; para a conclus&#227;o da implanta&#231;&#227;o do assentamento.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em 2025, o MPF prop&#244;s uma </span><a href="https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/pr-pa/noticias/acao-do-mpf-pede-que-incra-adote-medidas-de-combate-a-ocupacao-ilegal-no-pds-terra-nossa-pa/acao-mpf-implantacao-pds-terra-nossa-1000674-32-2025-4-01-39"><span>A&#231;&#227;o Civil P&#250;blica</span></a><span> em car&#225;ter de urg&#234;ncia para que o INCRA retire os invasores, demarque os lotes e providencie seguran&#231;a e infraestrutura para os assentados. Na A&#231;&#227;o, o MPF relata o aumento das intimida&#231;&#245;es contra as fam&#237;lias do Acampamento Bom Futuro, as quais estariam ocorrendo &#8220;inclusive por meio do uso ostensivo de armamento pesado por empresa de seguran&#231;a privada nas imedia&#231;&#245;es do acampamento&#8221;. Ainda de acordo com o MPF, &#8220;as fam&#237;lias relataram estarem desabastecidas de insumos alimentares, com a liberdade de locomo&#231;&#227;o cerceada, al&#233;m de informarem mal-estar f&#237;sico devido ao poss&#237;vel despejamento de agrot&#243;xicos no local do acampamento&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em entrevista &#224; HRW, Mauricio Torres disse que &#8220;poucas vezes eu vi um grupo t&#227;o sitiado, t&#227;o aterrorizado, amedrontado e expropriado. Eles n&#227;o t&#234;m acesso a 130 mil hectares do seu assentamento. Primeiro, os grileiros saquearam toda a madeira. Depois, eles derrubaram a floresta para fazer pastagem; mas o lucro desse grileiro n&#227;o est&#225; no gado, est&#225; na venda da terra&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A viol&#234;ncia na floresta levou a ONG Global Witness a classificar a Amaz&#244;nia como </span><a href="https://globalwitness.org/pt/press-releases/almost-2000-land-and-environmental-defenders-killed-between-2012-and-2022-protecting-planet-pt/"><span>uma das regi&#245;es mais perigosas do mundo para ativistas ambientais e defensores da terra</span></a><span>. Os conflitos por terra, ali&#225;s, se tornaram </span><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-12/conflito-por-territorio-e-principal-gerador-de-violencia-na-amazonia"><span>a principal fonte de viol&#234;ncia na floresta</span></a><span>, segundo o F&#243;rum Brasileiro de Seguran&#231;a P&#250;blica.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Quando um rep&#243;rter do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> informou &#224; Maria M&#225;rcia que, em junho passado, a </span><a href="https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/pr-pa/noticias/a-pedido-do-mpf-justica-manda-incra-agir-contra-ocupacao-ilegal-no-pds-terra-nossa-no-para"><span>Justi&#231;a havia determinado a retirada dos invadores do assentamento</span></a><span>, ela questionou: &#8220;E voc&#234; acredita nessa fal&#225;cia?&#8221;. At&#233; o fechamento desta reportagem, nenhum invasor foi retirado do PDS.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Mentiras e cinzas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A</span></strong><span> sucess&#227;o de inc&#234;ndios florestais que atingiu o assentamento Terra Nossa come&#231;ou pouco antes do dia virar noite em S&#227;o Paulo, em 19 de agosto de 2019. Entre os dias 10 e 11 de agosto daquele ano, capangas contratados por grileiros de terras do oeste do Par&#225; colocaram em pr&#225;tica um plano criminoso concebido em um grupo de WhatsApp: atear fogo em vastas &#225;reas de floresta recentemente desmatada. De acordo com um &#225;udio enviado por um dos integrantes do grupo, e divulgado pelo jornalista Ad&#233;cio Piran, do jornal local Folha do Progresso, o objetivo dos inc&#234;ndios era pressionar o governo federal a aumentar o seu apoio ao modo de produ&#231;&#227;o dos grileiros, os quais combinam invas&#227;o de terras p&#250;blicas com viol&#234;ncia armada, desmatamento e queimadas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Com a execu&#231;&#227;o desse plano, o fogo que come&#231;ou no Terra Nossa se espalhou rapidamente por toda a regi&#227;o. Em dois dias, o Inpe registrou 1.457 focos de inc&#234;ndio no Par&#225;, sobretudo nas regi&#245;es de Novo Progresso e Altamira, o que representa um aumento de 9.623% em compara&#231;&#227;o com o mesmo per&#237;odo de 2018.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Durante as investiga&#231;&#245;es do Dia do Fogo, a Delegacia de Castelo dos Sonhos, distrito de Altamira, pr&#243;ximo do Terra Nossa, prendeu tr&#234;s trabalhadores rurais de assentamentos locais sob a acusa&#231;&#227;o de serem os respons&#225;veis pelas queimadas. Um dos trabalhadores foi preso quando procurou a pol&#237;cia para denunciar a atividade ilegal de madeireiros na regi&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em setembro de 2019, apenas seis semanas ap&#243;s o Dia do Fogo, o ent&#227;o presidente Jair Bolsonaro afirmou, durante discurso na 74&#170; Assembleia Geral das Na&#231;&#245;es Unidas (ONU), que a Amaz&#244;nia n&#227;o estava sendo &#8220;devastada ou consumida pelo fogo, como a m&#237;dia afirma falsamente&#8221;. Mais tarde, em novembro, Bolsonaro acusou, sem apresentar provas, o ator Leonardo DiCaprio de financiar, por meio de ONGs, os mesmos inc&#234;ndios florestais que, dois meses antes, ele negou estarem ocorrendo. A ret&#243;rica do ex-presidente parecia tentar esconder o fato de que em maio daquele ano, o governo federal </span><a href="https://oeco.org.br/noticias/governo-corta-r-187-milhoes-do-mma-saiba-como-o-corte-foi-dividido/"><span>congelou 188 milh&#245;es do or&#231;amento do Minist&#233;rio do Meio Ambiente</span></a><span>, o que afetou programas de monitoramento e combate a inc&#234;ndios, como o PrevFogo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Uma an&#225;lise t&#233;cnica feita pela Delegacia da PF, em Santar&#233;m, descobriu que 63 im&#243;veis com desmatamento potencialmente associado ao Dia do Fogo foram inseridos no Cadastro Ambiental Rural (CAR) ap&#243;s agosto de 2019. As principais investiga&#231;&#245;es sobre o epis&#243;dio, por&#233;m, foram </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cz6xypqn53vo"><span>arquivadas</span></a><span> em fevereiro e junho de 2024, porque o MPF n&#227;o conseguiu reunir provas suficientes para apresentar uma den&#250;ncia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Queimadas n&#227;o s&#227;o uma novidade na Amaz&#244;nia. A antrop&#243;loga Lacerda registra que, em Novo Progresso, a cria&#231;&#227;o do assentamento Terra Nossa e da Flona do Jamanxim deram in&#237;cio a uma temporada de inc&#234;ndios promovida por grileiros desejosos de comprovar a posse da terra atrav&#233;s do uso do fogo. Segundo ela, isso explica por que &#8220;muitos registros de im&#243;veis no cart&#243;rio de Novo Progresso datam da v&#233;spera da cria&#231;&#227;o da Flona e do PDS Terra Nossa&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Maria M&#225;rcia resume os impactos das queimadas sobre os assentados em poucas palavras: &#8220;os grileiros me fizeram perder anos de trabalho em poucos minutos para o fogo&#8221;. &#8220;Eles usam o fogo para destruir as nossas planta&#231;&#245;es e nos for&#231;ar a ir embora para que eles tomem de conta de tudo&#8221;, completou.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>O fim da linha</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>E</span></strong><span>m S&#227;o Paulo, Norman finalmente encontrou a explica&#231;&#227;o que procurava. Meteorologistas entrevistados pelos principais telejornais do pa&#237;s explicaram que o fen&#244;meno observado no c&#233;u da cidade foi resultado da</span><a href="https://www.nytimes.com/2019/08/21/world/americas/amazon-rainforest.html"><span> combina&#231;&#227;o de uma frente fria com uma grande coluna de fuma&#231;a proveniente de inc&#234;ndios florestais que estavam ocorrendo na Amaz&#244;nia naqueles dias</span></a><span>.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!jgen!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe9f66f82-ddaf-4aa4-bdbb-830c6ef2e3f4_900x664.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" 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Fonte: Programa de monitoramento atmosf&#233;rico Copernicus</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>Atualmente com 92 anos e afastado dos trabalhos de campo, Norman cobriu a Amaz&#244;nia durante a d&#233;cada de 1970, quando o governo brasileiro incentivou a ocupa&#231;&#227;o da regi&#227;o para &#8220;integrar&#8221; o pa&#237;s e preencher um suposto &#8220;vazio demogr&#225;fico&#8221; que, segundo os militares, tornava o territ&#243;rio nacional vulner&#225;vel a agress&#245;es estrangeiras. Para ele, boa parte da transforma&#231;&#227;o da regi&#227;o, nos &#250;ltimos 50 anos, tem sido feita, &#8220;infelizmente, por meio de muito fogo e sangue&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A usurpa&#231;&#227;o da floresta e o rastro de viol&#234;ncia que a acompanha levaram Maria M&#225;rcia a tatuar no seu t&#243;rax o rosto do seu filho mais velho, que deixou o assentamento para proteger a pr&#243;pria vida. &#8220;Eu falei para o meu filho que se eu for morta, essa tatuagem vai ajud&#225;-lo a reconhecer meu corpo, mesmo que ele j&#225; esteja em decomposi&#231;&#227;o&#8221;, disse ela em l&#225;grimas.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXYZ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff3b3959e-073d-4a4d-ada8-e39ca79a4480_1699x1075.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXYZ!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff3b3959e-073d-4a4d-ada8-e39ca79a4480_1699x1075.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXYZ!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff3b3959e-073d-4a4d-ada8-e39ca79a4480_1699x1075.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXYZ!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff3b3959e-073d-4a4d-ada8-e39ca79a4480_1699x1075.png 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" 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Foto: Human Rights Watch</figcaption></figure></div><p><span><br></span><strong><span>A investiga&#231;&#227;o foi financiada por: </span></strong><span>The Mailman Foundation, Earth Island Institute, The Puffin Foundation, GRID-Arendal e Earth Journalism Network.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O MORTO-VIVO]]></title><description><![CDATA[Grileiros e garimpeiros se unem em uma ofensiva contra a floresta]]></description><link>https://subsolojornalismo.substack.com/p/o-morto-vivo</link><guid isPermaLink="false">https://subsolojornalismo.substack.com/p/o-morto-vivo</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Martins]]></dc:creator><pubDate>Sun, 09 Aug 2026 16:03:23 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x5b4!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffa1002ae-360a-4b0b-91a3-2ccc46f7c223_1324x900.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong><span>C</span></strong><span>arros, celulares e laptops s&#227;o alguns dos muitos bens de consumo que utilizam pequenas quantidades de ouro em sua composi&#231;&#227;o. Uma investiga&#231;&#227;o conduzida por </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> descobriu que parte desse ouro pode estar contaminada por fraudes, viol&#234;ncia armada e destrui&#231;&#227;o ambiental desde a sua origem em terras protegidas no cora&#231;&#227;o da floresta amaz&#244;nica.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A descoberta come&#231;ou por meio de um an&#250;ncio publicado, em dezembro de 2023, no Facebook Marketplace. No classificado, os corretores imobili&#225;rios ofertaram uma fazenda de 11.310 hectares, em Itaituba, a capital nacional do ouro. O an&#250;ncio descrevia um im&#243;vel com instala&#231;&#245;es robustas, como pistas de pouso, casas, represas e uma &#225;rea de pasto suficiente para alimentar mil cabe&#231;as de gado. No local, havia ainda uma por&#231;&#227;o de mata intocada e dois dep&#243;sitos de ouro, um achado comum &#224;s propriedades da regi&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Passando-se por um investidor estrangeiro interessado em comprar a fazenda, um rep&#243;rter do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> conversou com alguns dos corretores imobili&#225;rios encarregados da venda. A conversa resultou no compartilhamento de imagens e documentos do im&#243;vel, os quais revelaram que apenas 1.092 hectares, ou menos de 10% da &#225;rea, t&#234;m t&#237;tulo de propriedade. O restante &#233; terra p&#250;blica, inscrita no Cadastro Ambiental Rural (CAR) em nome de terceiros, uma estrat&#233;gia comumente utilizada na regi&#227;o para disfar&#231;ar a concentra&#231;&#227;o de terras, contornando a restri&#231;&#227;o legal que impede que &#225;reas maiores que 2.500 hectares sejam regularizadas pelo programa Terra Legal. </span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Rglp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F166bd4f5-4e42-4bc7-9ffa-86fbe0b708aa_595x477.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>Al&#233;m da situa&#231;&#227;o documental do im&#243;vel, os arquivos obtidos pela reportagem ajudaram a revelar a identidade do homem por tr&#225;s da terra. Conhecido como &#8220;Vando&#8221;, Ivanildo Canuto Soares, de 55 anos, esconde um passado muito diferente do de outros produtores rurais da Amaz&#244;nia. A seguir, </span><strong><span>Subsolo </span></strong><span>narra a sua trajet&#243;ria das favelas de S&#227;o Paulo at&#233; os garimpos de ouro na floresta.</span></p><p><strong><span>Entre fugas e pris&#245;es</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>N</span></strong><span>o in&#237;cio dos anos 2000, quando tinha 29 anos, Vando era considerado o traficante mais poderoso da Zona Leste de S&#227;o Paulo. De l&#225;, ele gerenciava a distribui&#231;&#227;o de maconha e coca&#237;na oriundas do Paraguai e da Bol&#237;via. As drogas chegavam ao Brasil por meio de atravessadores situados nos estados de fronteira do Centro-Oeste. A partir desse ponto, elas eram levadas para grandes centros consumidores, como Rio de Janeiro e S&#227;o Paulo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A posi&#231;&#227;o elevada que Vando ocupava na cadeia de comando do narcotr&#225;fico era resultado de uma carreira criminosa que havia come&#231;ado por um cargo mais baixo, o de &#8220;soldado&#8221; do tr&#225;fico. No submundo do crime, um soldado acumula fun&#231;&#245;es que v&#227;o desde a seguran&#231;a armada dos pontos de venda de drogas at&#233; o transporte dos narc&#243;ticos. A sua ascens&#227;o na hierarquia do tr&#225;fico foi acompanhada por um crescimento consider&#225;vel do seu patrim&#244;nio pessoal. Em poucos anos, ele acumulava cinco carros importados, duas casas com piscinas e quadras de t&#234;nis, al&#233;m de um s&#237;tio na cidade de Ourinhos, interior do estado de S&#227;o Paulo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Essa vida de ostenta&#231;&#227;o, contudo, estava por um fio desde que Vando e seus comparsas assassinaram um policial civil e seu acompanhante, em 1997, na favela Elba, zona leste de S&#227;o Paulo. Condenado a 21 anos de pris&#227;o pelo duplo homic&#237;dio, ele conseguiu fugir da cadeia e p&#244;s em pr&#225;tica um plano arriscado. Embora seja branco, mandou enterrar um indigente negro como sendo ele o morto e, para formalizar a farsa, ainda pagou 100 mil reais por uma certid&#227;o de &#243;bito falsa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No princ&#237;pio, o plano funcionou. Com o foragido declarado morto, a Justi&#231;a arquivou o caso e os policiais encerraram as investiga&#231;&#245;es para captur&#225;-lo. Apenas um ano ap&#243;s o seu falso sepultamento, por&#233;m, essa hist&#243;ria sofreu uma reviravolta. Depois de separar-se de Vando, em 2001, sua companheira procurou a pol&#237;cia para delatar a fraude da falsa morte. Gra&#231;as a esse depoimento, as investiga&#231;&#245;es foram retomadas e um novo inqu&#233;rito para apurar o crime de falsidade ideol&#243;gica foi instaurado.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Apesar dos infort&#250;nios, Vando n&#227;o desistiu do seu prop&#243;sito maior: manter-se fora da pris&#227;o e proteger o patrim&#244;nio constru&#237;do por meio do crime. Em mais uma a&#231;&#227;o ousada, ele migrou para o estado do Mato Grosso, onde fez tr&#234;s cirurgias pl&#225;sticas para mudar o rosto. A transforma&#231;&#227;o seria, ent&#227;o, completada pela confec&#231;&#227;o de um registro de identidade falso. No novo documento, ele passaria a se chamar Jo&#227;o Vitor Soares. Em um movimento paralelo a essa mudan&#231;a de identidade, Vando teria subornado funcion&#225;rios do Departamento de Inqu&#233;ritos Policiais para darem fim ao inqu&#233;rito de tr&#234;s volumes aberto contra ele. Sem esses arquivos, a Justi&#231;a n&#227;o poderia autorizar as a&#231;&#245;es de bloqueio dos seus bens. Essa era a terceira vez que inqu&#233;ritos policiais relacionados a Vando desapareciam dos &#243;rg&#227;os p&#250;blicos de S&#227;o Paulo. Meses antes do &#250;ltimo sumi&#231;o, duas planilhas com suas digitais e informa&#231;&#245;es de identifica&#231;&#227;o pessoal foram extraviadas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ap&#243;s intenso trabalho de investiga&#231;&#227;o, a Pol&#237;cia Federal (PF) finalmente conseguiu capturar Vando, em 2003, em Cuiab&#225;. No momento da pris&#227;o, ele estava organizando o transporte de 20kg de coca&#237;na rec&#233;m-chegados ao Brasil. Aos policiais, ele confessou que, toda semana, enviava essa mesma quantidade de droga para S&#227;o Paulo. Na ocasi&#227;o da nova pris&#227;o, o delegado da PF Di&#243;genes Curado Filho explicou ao Di&#225;rio de Cuiab&#225; que &#8220;a droga vinha da Bol&#237;via no tanque de gasolina de um Monza. Quando chegava em Cuiab&#225;, esse tanque era retirado do carro e colocado em um outro Monza, e assim a coca&#237;na era transportada at&#233; S&#227;o Paulo&#8221;. Poucos meses antes da nova pris&#227;o, a Pol&#237;cia de S&#227;o Paulo apreendeu quatro toneladas de maconha pertencentes a Vando. Na &#233;poca, essa foi considerada a maior apreens&#227;o da droga na hist&#243;ria do estado.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A temporada atr&#225;s das grades, por&#233;m, n&#227;o duraria muito tempo. Em 2005, Vando deixou a pris&#227;o sob a escolta de dois agentes prisionais para uma visita ao hospital. Na volta, os guardas permitiram que ele, mesmo sem autoriza&#231;&#227;o da Justi&#231;a, passasse pelo seu apartamento em um bairro da capital matogrossense com a alegada justificativa de que iria pegar alguns documentos ali deixados. Do apartamento, Vando fugiu mais uma vez.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Uma nova pris&#227;o, em 2008, foi seguida por mais uma fuga. Enquanto Vando estava foragido, seu advogado tentava anular o processo contra ele. Em um pedido de habeas corpus encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, a defesa argumentou que, a partir do momento que a Justi&#231;a havia considerado o caso encerrado com base na certid&#227;o de &#243;bito apresentada, Vando estava juridicamente morto, e os mortos n&#227;o podem ser &#8220;ressuscitados&#8221;. Por maioria, a Primeira Turma da Corte rejeitou o pedido; a diverg&#234;ncia ficou por conta do ent&#227;o ministro Marco Aur&#233;lio Mello.</span></p><p><strong><span>De foragido a garimpeiro</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Q</span></strong><span>uando Vando foi finalmente capturado pela Pol&#237;cia Militar, em fevereiro de 2024, ele j&#225; n&#227;o era mais o mesmo criminoso que havia liderado a distribui&#231;&#227;o de drogas il&#237;citas em uma zona densamente povoada de S&#227;o Paulo. Em mais de uma d&#233;cada como foragido, ele aproveitou o tempo longe das grades para diversificar seus neg&#243;cios. Agora, ele era um fazendeiro e garimpeiro artesanal, criando centenas de cabe&#231;as de gado e minerando ouro no interior da Amaz&#244;nia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Pelo menos, era isso que o an&#250;ncio publicado no Facebook e os arquivos compartilhados pelos corretores faziam crer. Dentre os documentos vinculados &#224; terra colocada &#224; venda na rede social, havia uma autoriza&#231;&#227;o de explora&#231;&#227;o de ouro concedida a Vando pela Ag&#234;ncia Nacional de Minera&#231;&#227;o (ANM). Como o subsolo pertence &#224; Uni&#227;o, aqueles que desejam explor&#225;-lo devem, primeiro, solicitar uma autoriza&#231;&#227;o &#224; Ag&#234;ncia, seja para fins industriais ou artesanais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>As autoriza&#231;&#245;es para minas artesanais, conhecidas como &#8220;garimpos&#8221;, s&#227;o chamadas de Permiss&#227;o de Lavra Garimpeira (PLG) e podem ser concedidas a indiv&#237;duos ou cooperativas. As PLGs foram criadas em 1989 para reconhecer e proteger o garimpo, em um momento em que milhares de pessoas haviam migrado para a Amaz&#244;nia em busca de ouro.  Sozinhos, os garimpeiros podem obter PLGs para &#225;reas de at&#233; 50 hectares. Reunidos em cooperativas, por&#233;m, eles conseguem licen&#231;as para operar em &#225;reas maiores na Amaz&#244;nia, cujas extens&#245;es podem chegar a 10 mil hectares. A legisla&#231;&#227;o n&#227;o limita o n&#250;mero de PLGs que um indiv&#237;duo ou cooperativa pode obter.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em mar&#231;o de 2020, Vando solicitou &#224; ANM uma autoriza&#231;&#227;o para extrair ouro sobre uma &#225;rea de 25 hectares dentro do im&#243;vel que, tr&#234;s anos depois, seria colocado &#224; venda no Facebook. Documentos analisados por </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> mostram que a ent&#227;o Gerente Regional do escrit&#243;rio da ANM na cidade de Bel&#233;m, no Par&#225;, encaminhou o requerimento com solicita&#231;&#227;o de urg&#234;ncia para a Divis&#227;o de Pesquisa e Recursos Minerais tr&#234;s meses ap&#243;s o pedido ser protocolado. &#192; reportagem, a ANM disse que a justificativa para a solicita&#231;&#227;o de urg&#234;ncia n&#227;o foi registrada pela servidora no despacho.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Como Vando estava foragido, todo o processo foi conduzido via procura&#231;&#227;o por Guilherme Willi Aggens, um engenheiro florestal que costuma ser descrito pela imprensa como lobista pr&#243;-garimpo em Bras&#237;lia. Nos dados da ANM, Aggens aparece tamb&#233;m como representante legal de um dos &#250;nicos garimpos autorizados pela Ag&#234;ncia em Roraima, a 35km do territ&#243;rio Yanomami. Contatado pela reportagem, Aggens disse que n&#227;o &#233; lobista e que considera essa caracteriza&#231;&#227;o equivocada e de conota&#231;&#227;o pejorativa. Ele disse que, como consultor, sua atua&#231;&#227;o &#233; &#8220;t&#233;cnica e institucional, sempre p&#250;blica, transparente&#8221; e feita por canais oficiais. Ele contou j&#225; ter participado de audi&#234;ncia p&#250;blica na C&#226;mara dos Deputados para discutir a atualiza&#231;&#227;o da legisla&#231;&#227;o miner&#225;ria, assim como de reuni&#245;es na ANM para defender os interesses de seus clientes ou debater o aperfei&#231;oamento de normas do setor.   Por fim, ele afirmou que quando solicitou a PLG, n&#227;o sabia que Vando estava foragido, acrescentando que &#8220;a legisla&#231;&#227;o miner&#225;ria n&#227;o exige certid&#227;o de antecedentes criminais do titular para requerimento de PLG&#8221;. Sua resposta completa pode ser encontra </span><a href="https://subsolojornalismo.substack.com/p/direitos-de-resposta"><span>aqui</span></a><span> no &#237;tem 4.A. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>Gra&#231;as aos servi&#231;os prestados por Aggens, a PLG de Vando foi concedida em agosto de 2020. As imagens de sat&#233;lite da &#225;rea, por&#233;m, mostram que, at&#233; hoje, o garimpo est&#225; coberto por mata nativa densa, com exce&#231;&#227;o de um pequeno trecho de estrada de terra que corta a parte sudeste da PLG. No local, n&#227;o h&#225; ind&#237;cios de atividade de minera&#231;&#227;o de ouro, como a abertura de clareiras na mata ou a presen&#231;a de dep&#243;sitos de rejeitos. Apesar disso, nos registros da Compensa&#231;&#227;o Financeira pela Explora&#231;&#227;o de Recursos Minerais (CFEM) consta a informa&#231;&#227;o de que foram comercializados 6,5 kg de min&#233;rio de ouro extra&#237;dos da mina. Segundo a legisla&#231;&#227;o que regulamenta o imposto, a CFEM deve ser recolhida pelo primeiro comprador do ouro gerado pelos garimpos. Os registros mostram que quase todo o min&#233;rio supostamente retirado da &#225;rea foi comprado pela D&#8217;Gold, cuja raz&#227;o social e nome mais conhecido &#233; F.d&#8217;Gold. Na CFEM, a empresa declarou ter adquirido 6,34 kg de min&#233;rio de ouro provenientes desse garimpo, com aquisi&#231;&#245;es feitas entre novembro de 2020 e setembro de 2022. Por essa quantidade de min&#233;rio, a empresa pagou aproximadamente 25 mil reais de imposto. Os 196 gramas restantes foram adquiridos por outra empresa, a Ourominas.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nZ7w!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feda23714-3a8a-4aca-b8ac-6bceacde1938_845x647.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nZ7w!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feda23714-3a8a-4aca-b8ac-6bceacde1938_845x647.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nZ7w!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feda23714-3a8a-4aca-b8ac-6bceacde1938_845x647.png 848w, 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>Tanto a F.d&#8217;Gold quanto a Ourominas atuam como Distribuidoras de Valores e T&#237;tulos Mobili&#225;rios (DTVM), o &#250;nico tipo de companhia financeira autorizada pelo Banco Central a comprar ouro diretamente dos garimpos. As DTVMs s&#227;o o primeiro elo rastre&#225;vel na cadeia do ouro e, na Amaz&#244;nia, as empresas mant&#234;m pontos de compra do min&#233;rio nas principais regi&#245;es produtoras, como Itaituba, Jacareacanga e Novo Progresso, munic&#237;pios localizados no oeste do Par&#225;. Por l&#225;, esses pontos s&#227;o conhecidos como &#8220;bancas&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e investigadores do Minist&#233;rio P&#250;blico Federal (MPF) cruzaram dados da CFEM com imagens de sat&#233;lite dos garimpos autorizados pela ANM e </span><a href="http://www.lagesa.org/wp-content/uploads/documents/Manzolli_Rajao_21_Ilegalidade%20cadeia%20do%20Ouro.pdf"><span>descobriram algo curioso</span></a><span>. Parte das &#225;reas apontadas como tendo sido a origem do ouro declarado no imposto est&#225; completamente coberta por mata. De acordo com o estudo, esse &#233; um forte ind&#237;cio de que a PLG foi utilizada para lavar o ouro retirado de outras &#225;reas. Nesses casos, o min&#233;rio extra&#237;do de terras protegidas ou sem autoriza&#231;&#227;o &#233; declarado como se tivesse sido retirado de um garimpo autorizado, mas que n&#227;o apresenta ind&#237;cios de minera&#231;&#227;o. A pesquisa descobriu que, entre 2019 e 2020, pelo menos 28% do ouro produzido em garimpos do pa&#237;s, ou 49 toneladas do min&#233;rio, tinha ind&#237;cios de proced&#234;ncia irregular. Desse total, 6,3 toneladas tiveram sua origem il&#237;cita confirmada pelos autores do estudo. Segundo o MPF, apenas tr&#234;s DTVMs compraram 71% desse volume de origem irregular, dentre as quais est&#227;o a F.d&#8217;Gold, a Ourominas e a Carol.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Um corretor imobili&#225;rio com quem </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> conversou, contou que a parte mais f&#225;cil da minera&#231;&#227;o ilegal em &#225;reas protegidas &#233; a venda. Ele afirmou que em Novo Progresso, por exemplo, &#8220;h&#225; muitas bancas que compram o ouro extra&#237;do de &#225;reas protegidas&#8221;, como a Floresta Nacional do Jamanxim, onde, segundo ele, h&#225; dois garimpos clandestinos em funcionamento na parte norte da reserva. &#8220;S&#243; &#233; necess&#225;rio tomar cuidado com a fiscaliza&#231;&#227;o [dentro da floresta]&#8221;, advertiu.</span></p><p><strong><span>O Rei do Ouro</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A</span></strong><span>s liga&#231;&#245;es entre Vando e a F.d&#8217;Gold parecem ser mais antigas do que as transa&#231;&#245;es registradas na CFEM. Nos arquivos da ANM, o respons&#225;vel t&#233;cnico pela PLG de Vando &#233; o ge&#243;logo Alain Daniel Lestra, que, de agosto de 2007 at&#233; novembro de 2022, dividiu a sociedade da D&#8217;Gold Pesquisa e Explora&#231;&#227;o Mineral, um bra&#231;o </span>j&#225; extinto<span> da F.d&#8217;Gold, com o empres&#225;rio Dirceu Santos Frederico Sobrinho, conhecido como &#8220;Rei do Ouro&#8221;. Sobrinho mant&#233;m 123 PLGs registradas em seu nome e, ao longo de oito anos, no per&#237;odo que vai 2014 a 2022, presidiu a Associa&#231;&#227;o Nacional do Ouro (Anoro), a mais importante institui&#231;&#227;o do setor miner&#225;rio brasileiro e uma das principais defensoras da legaliza&#231;&#227;o do garimpo em &#225;reas protegidas na Amaz&#244;nia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span> A rela&#231;&#227;o de Sobrinho com o ouro come&#231;ou h&#225; mais de 30 anos. Seu pai mantinha um hortifr&#250;ti pr&#243;ximo de Serra Pelada, no sudeste do Par&#225;, onde se reuniram mais de 100 mil homens em busca de ouro, formando o maior garimpo a c&#233;u aberto do mundo. Foi l&#225; onde ele obteve sua primeira PLG, em 1990, marcando o in&#237;cio da sua carreira como garimpeiro. Duas d&#233;cadas depois, ele fundou a F.d&#8217;Gold, empresa que se tornaria uma das principais compradoras do ouro extra&#237;do de garimpos no pa&#237;s. Sua sede na Avenida Paulista, em um pr&#233;dio de 17 andares, em nada lembra a origem modesta de Sobrinho no interior do Par&#225;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>T&#227;o not&#225;vel quanto o seu sucesso empresarial &#233; a sua habilidade de se livrar das acusa&#231;&#245;es apresentadas contra si. Em 2011, o Minist&#233;rio P&#250;blico denunciou Sobrinho pela suposta recepta&#231;&#227;o de ouro extra&#237;do ilegalmente de uma unidade de conserva&#231;&#227;o no estado do Amap&#225;. A Justi&#231;a, por&#233;m, determinou o trancamento do processo por considerar que as aquisi&#231;&#245;es foram legais, afinal elas estavam devidamente registradas em notas fiscais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Quatro anos depois, em 2015, Sobrinho foi denunciado pelo Minist&#233;rio P&#250;blico pela suposta pr&#225;tica de crime de lavagem de dinheiro proveniente do com&#233;rcio ilegal de ouro no Par&#225;. Outra vez, por&#233;m, a Justi&#231;a determinou o trancamento do processo ap&#243;s a defesa apresentar laudos cont&#225;beis da compra e venda de ouro para justificar as transa&#231;&#245;es suspeitas. Em agosto de 2021, o MPF prop&#244;s uma A&#231;&#227;o Civil P&#250;blica (ACP) para responsabilizar a F.d&#8217;Gold pela suposta compra de 1,3 tonelada de ouro com ind&#237;cios de origem irregular na Amaz&#244;nia Legal. A ACP foi julgada improcedente em primeira inst&#226;ncia, mas o Tribunal Regional Federal da 1&#170; Regi&#227;o anulou essa decis&#227;o porque a F.d&#8217;Gold apresentou sua defesa sob sigilo, o que impediu o MPF de  contest&#225;-la. Com isso, o processo voltou &#224; fase de r&#233;plica.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sobrinho tamb&#233;m foi denunciado por ter, supostamente, contaminado o meio ambiente com cianeto, uma subst&#226;ncia t&#243;xica utilizada em garimpos ilegais para retirar as impurezas do ouro. Em setembro de 2022, ele veio a ser preso temporariamente pela PF ap&#243;s investiga&#231;&#245;es apontarem conex&#245;es entre a F.d&#8217;Gold e os garimpos ilegais na Terra Ind&#237;gena Yanomami.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Apesar dos muitos processos, Sobrinho nunca foi condenado. Procurados pela reportagem, nem ele, nem a F.d&#8217;Gold, nem o ge&#243;logo Alain Daniel Lestra responderam aos pedidos de coment&#225;rio.</span></p><p><strong><span>Manobras cont&#225;beis</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>P</span></strong><span>or muito tempo, as fraudes na CFEM foram favorecidas por uma legisla&#231;&#227;o ultrapassada que previa que n&#227;o era responsabilidade do comprador averiguar a origem do ouro, pois ele podia presumir que, no momento da transa&#231;&#227;o, o garimpeiro agiu de boa-f&#233;. Desse modo, ao pagar a CFEM, os compradores deveriam, t&#227;o somente, enviar &#224; ANM informa&#231;&#245;es que ajudassem a descrever a aquisi&#231;&#227;o, como a quantidade de ouro expressa em gramas, o n&#250;mero de identifica&#231;&#227;o do garimpo onde o ouro foi extra&#237;do, assim como a cidade onde a mina est&#225; localizada. Os registros diferenciam o &#8220;min&#233;rio de ouro&#8221; do &#8220;ouro&#8221;; o primeiro &#233; o ouro bruto, enquanto o segundo j&#225; foi beneficiado e est&#225; mais pr&#243;ximo de seu estado de pureza.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Subsolo</span></strong><span> analisou milhares de declara&#231;&#245;es da CFEM entregues pela F.d&#8217;Gold entre janeiro de 2010 e setembro de 2025. Alguns achados s&#227;o intrigantes.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>As sete maiores compras de min&#233;rio de ouro feitas pela empresa nesse per&#237;odo seguem o mesmo padr&#227;o: a quantidade de min&#233;rio declarada no imposto &#233; o resultado da combina&#231;&#227;o do n&#250;mero do processo do garimpo na ANM com a adi&#231;&#227;o do n&#250;mero &#8220;20&#8221;. Cada uma dessas sete aquisi&#231;&#245;es veio de um garimpo diferente e duas delas ocorreram depois que a Suprema Corte p&#244;s fim &#224; presun&#231;&#227;o da boa-f&#233; na compra do ouro, em mar&#231;o de 2025.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Dois exemplos ajudam a entender melhor essa f&#243;rmula.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Um garimpo de 10 hectares, localizado em Peixoto de Azevedo, no Mato Grosso, teria fornecido 86.610.320 gramas de min&#233;rio de ouro para a F.d&#8217;Gold em janeiro de 2025. Essa quantidade &#233; o resultado da combina&#231;&#227;o do n&#250;mero do processo do garimpo de origem do ouro (866103) com a adi&#231;&#227;o do n&#250;mero 20.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No segundo caso, em Itaituba, um garimpo de 9,4 hectares teria vendido 85.022.720 gramas de ouro bruto para a F.d&#8217;Gold em mar&#231;o de 2021. Esse volume nada mais &#233; que o resultado da mesma f&#243;rmula: o n&#250;mero do processo do garimpo de origem (850227) mais 20.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Al&#233;m do padr&#227;o cont&#225;bil, esses dois exemplos apresentam limita&#231;&#245;es f&#237;sicas e operacionais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No primeiro caso, parece ser fisicamente imposs&#237;vel que um garimpo com apenas 10 hectares, cuja opera&#231;&#227;o foi autorizada em 2015, tenha produzido uma quantidade t&#227;o grande de min&#233;rio de ouro em um &#250;nico m&#234;s. Excetuando-se essa grande venda feita &#224; F.d&#8217;Gold, a m&#233;dia de min&#233;rio de ouro comercializada por esse garimpo, desde 2018, &#233; de 4,7kg.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No segundo caso, o garimpo de 9,4 hectares n&#227;o tem permiss&#227;o para explorar ouro, mas sim cassiterita, um min&#233;rio utilizado na obten&#231;&#227;o do estanho, um metal empregado em soldas e ligas met&#225;licas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Todos os registros que seguem o padr&#227;o cont&#225;bil identificado pela reportagem est&#227;o relacionados &#224; compra de min&#233;rio de ouro. Ao converter as quantidades em toneladas, torna-se poss&#237;vel notar que seus volumes variam numa faixa de 85 a 86 toneladas, o equivalente &#224; carga de tr&#234;s caminh&#245;es basculantes. Quando somados esses volumes, tem-se um total de 603 toneladas de min&#233;rio de ouro, quantidade suficiente para encher 21 caminh&#245;es basculantes.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Al&#233;m desses sete casos, a F.d&#8217;Gold n&#227;o declarou nenhuma outra compra de um volume t&#227;o grande de min&#233;rio de ouro em toda a sua hist&#243;ria de atua&#231;&#227;o, considerando as quase 18 mil aquisi&#231;&#245;es reportadas pela empresa at&#233; setembro de 2025. Abaixo dessa faixa de 85 a 86 toneladas, a maior aquisi&#231;&#227;o &#233; de 22 toneladas de min&#233;rio de ouro ocorrida em janeiro de 2025, em uma compra que n&#227;o segue o padr&#227;o cont&#225;bil identificado pela reportagem. O mesmo fen&#244;meno se repete do outro lado do balc&#227;o: esses sete registros tamb&#233;m correspondem &#224;s maiores vendas efetuadas pelos sete garimpos de origem do min&#233;rio, considerando seus hist&#243;ricos de opera&#231;&#227;o at&#233; setembro de 2025.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!plm1!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F89049537-f1b1-4794-9fd8-9a416cad1733_2000x2000.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!plm1!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F89049537-f1b1-4794-9fd8-9a416cad1733_2000x2000.png 424w, 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p><p style="text-align: justify;"><span>Das sete maiores aquisi&#231;&#245;es de min&#233;rio de ouro feitas pela F.d&#8217;Gold, cinco delas t&#234;m origem em cooperativas. A principal fornecedora &#233; a Cooperativa de Garimpeiros do Vale do Rio Peixoto (Coogavepe). Considerada a maior associa&#231;&#227;o do setor, a organiza&#231;&#227;o tem sete mil membros e controla 197 PLGs, os quais cobrem uma &#225;rea de 207 mil hectares na Amaz&#244;nia. Pelo menos tr&#234;s dos sete registros cont&#225;beis identificados por </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> apontam para compras de 86 toneladas de ouro pela F.d&#8217;Gold de garimpos operados por esta cooperativa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em um evento do setor miner&#225;rio, em 2024, o presidente da Coogavepe, Gilson Camboim, declarou que &#8220;o foco da nossa atua&#231;&#227;o est&#225; no cuidado com as pessoas e com o meio ambiente&#8221;. Uma opera&#231;&#227;o da PF, contudo, p&#244;s em d&#250;vida a veracidade desse compromisso. Em 2024, a organiza&#231;&#227;o foi alvo de mandado  de busca e apreens&#227;o durante a Opera&#231;&#227;o Hermes II por suspeitas de comprar merc&#250;rio de forma irregular. O metal altamente t&#243;xico costuma ser utilizado nos garimpos para separar o ouro de outros sedimentos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em outro caso curioso identificado nos registros da CFEM, a F.d&#8217;Gold declarou a compra de uma tonelada de ouro em agosto de 2024, um volume quase tr&#234;s vezes maior que a por&#231;&#227;o de metal que os mais de 100 mil garimpeiros de Serra Pelada conseguiam extrair todos os meses no pico de opera&#231;&#227;o da mina. A origem de todo esse ouro &#233; um garimpo autorizado h&#225; 20 anos em um rio de Porto Velho, capital do estado de Rond&#244;nia. Na hora de declarar o imposto, a empresa recolheu apenas 15 mil reais sobre o volume adquirido.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Apesar de o Brasil possuir a 10&#170; maior reserva de ouro do mundo, o recolhimento da CFEM &#233; fiscalizado por apenas 16 servidores da ANM. Outros 28 servidores se dedicam &#224; an&#225;lise de milhares de solicita&#231;&#245;es de PLGs recebidas pela autarquia. </span><a href="https://observatoriodamineracao.com.br/mineradoras-podem-ter-sonegado-r-35-bilhoes-em-cfem-nos-ultimos-cinco-anos/"><span>Levantamentos</span></a><span> apontam que, para cada 1 real recolhido na CFEM, a mesma quantia &#233; sonegada.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A fiscaliza&#231;&#227;o prec&#225;ria da cadeia de produ&#231;&#227;o de ouro no Brasil, combinada &#224; facilidade de se sonegar impostos de produ&#231;&#227;o miner&#225;ria, tornaram os garimpos uma alternativa altamente lucrativa para organiza&#231;&#245;es criminosas lavarem o dinheiro proveniente do tr&#225;fico internacional de drogas. Dentre essas organiza&#231;&#245;es est&#225; o Comando Vermelho, ao qual Vando est&#225; historicamente ligado.</span></p><p><strong><span>Drogas, ouro e sangue</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>E</span></strong><span>m meados da d&#233;cada de 2000, Vando era descrito pelos jornais Gazeta Digital e Di&#225;rio de Cuiab&#225; como o &#8220;bra&#231;o direito de Fernandinho Beira-Mar&#8221;, o segundo homem mais importante na hierarquia do Comando Vermelho, uma organiza&#231;&#227;o criminosa que surgiu nos pres&#237;dios do Rio de Janeiro e que lucra milh&#245;es de reais todos os anos com o tr&#225;fico internacional de drogas, mantendo o controle armado sobre bairros pobres em todo o pa&#237;s.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O envolvimento de Vando com garimpos de ouro na Amaz&#244;nia &#233; um sintoma de um fen&#244;meno mais amplo na floresta.  O relat&#243;rio </span><em><span>Nexos de Crime e Drogas na Bacia Amaz&#244;nica</span></em><span>, do Escrit&#243;rio das Na&#231;&#245;es Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), revela que &#8220;h&#225; evid&#234;ncias crescentes de traficantes de drogas financiando e fornecendo apoio log&#237;stico para atividades ilegais nas opera&#231;&#245;es de minera&#231;&#227;o de ouro em toda a regi&#227;o, incluindo territ&#243;rios protegidos&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O fen&#244;meno, por&#233;m, n&#227;o &#233; recente. Em 1990, o jornal Folha de Boa Vista reportou o uso de pistas de pouso do garimpo por narcotraficantes. No mesmo ano, o Servi&#231;o Nacional Ind&#237;gena admitiu a possibilidade de o ouro produzido no territ&#243;rio ind&#237;gena Yanomami estar sendo utilizado &#8220;para lavar rendimentos do narcotr&#225;fico&#8221;. Esse envolvimento, contudo, era pontual e secund&#225;rio, enquanto hoje &#233; sistem&#225;tico, resultado de uma mudan&#231;a que come&#231;ou h&#225; uma d&#233;cada, quando o Comando Vermelho rompeu com o Primeiro Comando da Capital (PCC), em 2016. Esse epis&#243;dio for&#231;ou a organiza&#231;&#227;o criminosa fluminense a procurar na Amaz&#244;nia rotas alternativas para o abastecimento de drogas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A combina&#231;&#227;o de um reduzido aparato policial e o crescimento da popula&#231;&#227;o prisional na regi&#227;o tornam mais f&#225;cil para as organiza&#231;&#245;es criminosas expandirem sua atua&#231;&#227;o pelo territ&#243;rio. De acordo com levantamento do F&#243;rum Brasileiro de Seguran&#231;a P&#250;blica (FBSP), um &#250;nico delegado de pol&#237;cia na Amaz&#244;nia cobre uma &#225;rea com 2.541 km&#178;, enquanto no resto do pa&#237;s, a mesma &#225;rea &#233; coberta por tr&#234;s profissionais. Segundo o FBSP, nos nove estados da regi&#227;o, houve um crescimento de 35% no n&#250;mero de detentos entre 2016 e 2022.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Relat&#243;rios de seguran&#231;a indicam que o Comando Vermelho chegou &#224; regi&#227;o um pouco antes do seu rompimento com o PCC. Em 2013, criminosos de Roraima que cumpriam penas em pres&#237;dios federais junto com integrantes da fac&#231;&#227;o fluminense voltaram ao estado como afiliados da organiza&#231;&#227;o, alistando novos membros nos pres&#237;dios locais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Atualmente, dos 772 munic&#237;pios da Amaz&#244;nia Legal, 344 t&#234;m organiza&#231;&#245;es do narcotr&#225;fico operando neles. O Comando Vermelho est&#225; presente sozinho em 286 munic&#237;pios, enquanto o PCC opera sem oposi&#231;&#227;o em 90 deles, segundo o FBSP. A crescente presen&#231;a do Comando Vermelho na regi&#227;o tornou mais f&#225;cil para a organiza&#231;&#227;o controlar a Rota dos Solim&#245;es, a principal via de escoamento da coca&#237;na para Europa e Estados Unidos.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!i8JI!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc39e486e-309d-4784-8c2e-6ea50312492b_1081x720.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!i8JI!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc39e486e-309d-4784-8c2e-6ea50312492b_1081x720.png 424w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Fonte: Instituto M&#227;e Crioula (2025)</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>No interior da floresta, a organiza&#231;&#227;o tamb&#233;m passou a se envolver mais ativamente nos garimpos de ouro, sejam eles legais ou ilegais. O aumento do pre&#231;o do min&#233;rio no mercado internacional e a baixa fiscaliza&#231;&#227;o tornaram o metal mais atraente aos olhos dos traficantes.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Esse envolvimento tamb&#233;m &#233; consequ&#234;ncia de uma transforma&#231;&#227;o na natureza dos garimpos, que, de minas artesanais, se tornaram verdadeiros complexos industriais. Diferentemente do que ocorria em Serra Pelada, onde os garimpeiros usavam bateias e picaretas, hoje, muitos garimpos demandam investimentos milion&#225;rios e s&#227;o operados com m&#225;quinas modernas, como retroescavadeiras, tratores de esteira, p&#225;s-carregadeiras e caminh&#245;es basculantes. Parte dessa transforma&#231;&#227;o &#233; explicada pela dificuldade de se acessar &#225;reas remotas no interior da floresta, o que demanda o uso de avi&#245;es, pistas de pouso e pilotos bem treinados. Uma fatia do dinheiro abundante do narcotr&#225;fico tem sido investido nessas opera&#231;&#245;es.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Na regi&#227;o, boa parte dos garimpos que operam &#224; margem da lei depende do uso do merc&#250;rio, um produto de comercializa&#231;&#227;o fortemente controlada no pa&#237;s. Apesar das restri&#231;&#245;es legais, estimativas apontam que toneladas do metal chegam aos garimpos da Amaz&#244;nia todos os anos. A contamina&#231;&#227;o por merc&#250;rio pode prejudicar rios, peixes e o solo, al&#233;m de causar preju&#237;zos graves &#224; sa&#250;de da popula&#231;&#227;o, como danos ao sistema nervoso central, al&#233;m de doen&#231;as pulmonares e cardiovasculares. Em 2024, um estudo da Funda&#231;&#227;o Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou que 100% dos ind&#237;genas yanomamis testados em nove aldeias de Roraima tinham merc&#250;rio no sangue. Outro estudo da Fiocruz, divulgado no mesmo ano, encontrou n&#237;veis alarmantes do metal em 80 ind&#237;genas do povo Munduruku.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x5b4!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffa1002ae-360a-4b0b-91a3-2ccc46f7c223_1324x900.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x5b4!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffa1002ae-360a-4b0b-91a3-2ccc46f7c223_1324x900.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x5b4!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffa1002ae-360a-4b0b-91a3-2ccc46f7c223_1324x900.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x5b4!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffa1002ae-360a-4b0b-91a3-2ccc46f7c223_1324x900.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x5b4!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffa1002ae-360a-4b0b-91a3-2ccc46f7c223_1324x900.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x5b4!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffa1002ae-360a-4b0b-91a3-2ccc46f7c223_1324x900.jpeg" width="1324" height="900" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fa1002ae-360a-4b0b-91a3-2ccc46f7c223_1324x900.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:900,&quot;width&quot;:1324,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x5b4!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffa1002ae-360a-4b0b-91a3-2ccc46f7c223_1324x900.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x5b4!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffa1002ae-360a-4b0b-91a3-2ccc46f7c223_1324x900.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x5b4!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffa1002ae-360a-4b0b-91a3-2ccc46f7c223_1324x900.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x5b4!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffa1002ae-360a-4b0b-91a3-2ccc46f7c223_1324x900.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Garimpo na Terra Ind&#237;gena Yanomami. Foto: Muller Marin/For&#231;a A&#233;rea Brasileira.</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>O dano causado pelos garimpos ilegais n&#227;o se restringe apenas aos efeitos nocivos do merc&#250;rio no corpo humano e nos ecossistemas locais. Dentro da Terra Ind&#237;gena Yanomami, a presen&#231;a de garimpeiros provocou surtos de mal&#225;ria, pneumonia e infec&#231;&#245;es virais, al&#233;m de escassez de alimentos. Entre 2019 e 2022, 177 yanomamis, sobretudo crian&#231;as, morreram por desnutri&#231;&#227;o, em uma crise humanit&#225;ria completamente negligenciada pelo governo Bolsonaro. Entre 2023 e 2024, cerca de 13 mil garimpeiros foram retirados do territ&#243;rio Yanomami.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nF2P!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F66af726a-4140-4aa8-b02e-1fbf5a12e24f_828x737.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nF2P!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F66af726a-4140-4aa8-b02e-1fbf5a12e24f_828x737.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nF2P!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F66af726a-4140-4aa8-b02e-1fbf5a12e24f_828x737.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nF2P!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F66af726a-4140-4aa8-b02e-1fbf5a12e24f_828x737.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nF2P!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F66af726a-4140-4aa8-b02e-1fbf5a12e24f_828x737.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nF2P!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F66af726a-4140-4aa8-b02e-1fbf5a12e24f_828x737.jpeg" width="828" height="737" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/66af726a-4140-4aa8-b02e-1fbf5a12e24f_828x737.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:737,&quot;width&quot;:828,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nF2P!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F66af726a-4140-4aa8-b02e-1fbf5a12e24f_828x737.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nF2P!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F66af726a-4140-4aa8-b02e-1fbf5a12e24f_828x737.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nF2P!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F66af726a-4140-4aa8-b02e-1fbf5a12e24f_828x737.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nF2P!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F66af726a-4140-4aa8-b02e-1fbf5a12e24f_828x737.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">A crise humanit&#225;ria provocada pelo garimpo ilegal afetou, sobretudo, as crian&#231;as yanomamis. Foto feita com autoriza&#231;&#227;o da fam&#237;lia e lideran&#231;a Yanomami (Paulo Zero, 2023)</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>A todos esses males soma-se a inseguran&#231;a que os garimpos ilegais geram nas reservas ind&#237;genas. Ataques contra povos nativos se tornaram comuns na &#250;ltima d&#233;cada. Em 2021, as casas da lideran&#231;a ind&#237;gena Maria Leusa Munduruku e de sua m&#227;e, cacica da aldeia, foram incendiadas depois de terem sido atingidas por disparos efetuados por garimpeiros. O ataque ocorreu ap&#243;s um confronto entre policiais e garimpeiros que atuavam no interior da reserva. Em outro epis&#243;dio registrado em 2021, uma aldeia Yanomami foi atacada a tiros por garimpeiros ligados &#224;s organiza&#231;&#245;es criminosas do narcotr&#225;fico. Na ocasi&#227;o, uma crian&#231;a de sete anos morreu e cinco ind&#237;genas ficaram feridos.</span></p><p><strong><span>Da Amaz&#244;nia para o mundo</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>O</span></strong><span> ouro adquirido nos postos de compra da F.d&#8217;Gold na Amaz&#244;nia &#233; transportado em avi&#245;es para S&#227;o Paulo, onde &#233; </span><a href="https://www.dgolddtvm.com.br/post/ouro-ativo-financeiro-no-brasil"><span>refinado pela Marsam Metais</span></a><span>, empresa dirigida por Sarah Frederico Westphal, filha de Sobrinho. Por muitos anos, o min&#233;rio processado pela refinadora abasteceu centenas de empresas de capital aberto dos Estados Unidos e da Europa. A rela&#231;&#227;o com a F.d&#8217;Gold, por&#233;m, cobrou o seu pre&#231;o. Em 2022, a Marsam perdeu um importante selo de boas pr&#225;ticas do setor, e algumas empresas deixaram de listar a refinadora dentre os fornecedores identificados em suas suas cadeias de suprimentos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Esse selo de conformidade &#233; concedido pela Responsible Minerals Initiative (RMI), uma organiza&#231;&#227;o americana que promove auditorias regulares das refinadoras presentes nas cadeias de suprimentos de empresas listadas nas bolsas de valores dos Estados Unidos. Esse trabalho tem como objetivo ajudar as companhias a cumprir as determina&#231;&#245;es da Se&#231;&#227;o 1502 da Lei Dodd-Frank. De acordo com a Se&#231;&#227;o, as empresas listadas nas bolsas americanas devem verificar regularmente suas aquisi&#231;&#245;es de quatro tipos de metais, os quais s&#227;o conhecidos pelo acr&#244;nimo 3TG, que engloba o estanho, o t&#226;ntalo, o tungst&#234;nio e o ouro. </span>Dado o alto risco de terem liga&#231;&#245;es com grupos armados na Rep&#250;blica Democr&#225;tica do Congo e em pa&#237;ses vizinhos, esse metais s&#227;o <span>conhecidos como min&#233;rios de conflito. Nesses casos, a inspe&#231;&#227;o peri&#243;dica ajudaria a evitar que as empresas patrocinem grupos armados e viola&#231;&#245;es de direitos humanos no exterior.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O RMI, por outro lado, n&#227;o costuma priorizar quest&#245;es relacionadas ao meio ambiente e &#224;s disputas pela posse da terra. Por essa raz&#227;o, o Brasil n&#227;o &#233; classificado como um pa&#237;s afetado por conflitos ou com alto risco de associa&#231;&#227;o dos 3TGs a grupos armados. A investiga&#231;&#227;o do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>, por&#233;m, mostra que o risco de envolvimento de grupos armados em atividades de explora&#231;&#227;o de ouro na Amaz&#244;nia &#233; mais alto do que se imagina.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Embora a Marsam n&#227;o tenha sido denunciada na ACP proposta pelo MPF contra a F.d&#8217;Gold, suas conex&#245;es p&#250;blicas com a empresa de Sobrinho afetaram a reputa&#231;&#227;o da companhia, fazendo com que o n&#250;mero de empresas que listavam a refinadora em sua cadeia de suprimentos ca&#237;sse de mais de 300, em 2022, para 185, em 2025. Reportagem da Associated Press, publicada em janeiro de 2022, revelou que mais de 1/3 do ouro processado pela refinadora tem origem na F.d&#8217;Gold. Em seus fornos, o metal de diferentes origens &#233; fundido e purificado, uma pr&#225;tica que, segundo </span><a href="https://repository.up.ac.za/server/api/core/bitstreams/1cc4ccbc-5b66-4dd4-9ad1-9ad4daeb7841/content"><span>estudos de geoqu&#237;mica forense</span></a><span>, eleva a complexidade do rastreio da origem do ouro.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Os Conflicts Minerals Reports enviados anualmente &#224; Securities and Exchange Commission, a comiss&#227;o de valores mobili&#225;rios dos Estados Unidos, mostram que, apesar da perda do selo de conformidade do RMI, companhias como Tesla, Ford, Cisco, Sony, Motorola, Starbucks, Nokia e Embraer continuaram a reportar a presen&#231;a da Marsam em suas cadeias de suprimentos nos anos de 2023, 2024 e 2025.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A Amazon foi uma das companhias que parou de listar a Marsam ap&#243;s a perda do selo de conformidade, em 2022. No relat&#243;rio de 2025, por&#233;m, a refinadora voltou a figurar na lista dos seus fornecedores indiretos. Ao </span><strong><span>Subsolo, </span></strong><span>a empresa explicou que n&#227;o adquire materiais diretamente da Marsam e exige uma dilig&#234;ncia refor&#231;ada de qualquer fundi&#231;&#227;o que perca sua conformidade com a RMI. &#8220;Ap&#243;s a Marsam perder sua certifica&#231;&#227;o em 2022, impusemos essa exig&#234;ncia aos fornecedores que a utilizavam como fonte&#8221;, afirmou a empresa, confirmando que &#8220;a Marsam voltou a aparecer em nosso relat&#243;rio de 2025 porque os fornecedores retomaram essa rela&#231;&#227;o&#8221;. &#8220;Diante da situa&#231;&#227;o de n&#227;o conformidade da Marsam e de seus supostos v&#237;nculos com atividades il&#237;citas, incluindo conex&#245;es com a F.d&#8217;Gold, impusemos novamente a exig&#234;ncia de dilig&#234;ncia refor&#231;ada a esses fornecedores&#8221;, afirmou a empresa. Por fim, a Amazon disse que busca &#8220;viabilizar cadeias de suprimentos seguras, equitativas, justas e sustent&#225;veis &#8203;&#8203;em todas as nossas opera&#231;&#245;es, e estabelecemos relacionamentos com fornecedores que estejam alinhados aos nossos valores e comprometidos com a melhoria das condi&#231;&#245;es para os trabalhadores&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Apesar de representar um avan&#231;o em dire&#231;&#227;o ao aumento da transpar&#234;ncia de informa&#231;&#245;es sobre as mat&#233;rias-primas utilizadas no processo produtivo das grandes empresas de capital aberto do mundo, os Conflicts Minerals Reports tamb&#233;m t&#234;m os seus pr&#243;prios limites. Nesses relat&#243;rios, as empresas informam apenas quais refinadoras foram encontradas na cadeia de suprimentos dos seus fornecedores diretos, mas n&#227;o confirmam nem negam se algum dos 3TGs foi, de fato, inserido nos produtos comercializados. Um fornecedor pode adquirir o ouro processado pela Marsam e aplicar ou n&#227;o na fabrica&#231;&#227;o de um componente vendido &#224; Sony, por exemplo. Essa &#233; a raz&#227;o pela qual n&#227;o &#233; poss&#237;vel saber com certeza absoluta se o metal processado pela Marsam foi usado em um carro, l&#226;mpada ou celular fabricado por essas empresas, e qual a quantidade empregada em cada produto. Nesse cen&#225;rio, outras companhias consideraram arriscado demais operar sob essa incerteza e bloquearam a Marsam da sua cadeia de suprimentos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Contatadas pelo </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>, a Marsam Metais e as demais empresas citadas n&#227;o responderam aos pedidos de coment&#225;rios.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Grileiros e garimpeiros</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>O</span></strong><span> exemplo de Vando demonstra como a grilagem e o garimpo coexistem como formas complementares de extra&#231;&#227;o de riqueza da floresta amaz&#244;nica. Embora se trate de pr&#225;ticas distintas, no caso de Vando, grilagem e garimpo s&#227;o operados pela mesma pessoa, a partir do mesmo territ&#243;rio. Ainda que o subsolo brasileiro perten&#231;a &#224; Uni&#227;o, h&#225; casos em que grileiros de terras t&#234;m usurpado &#225;reas p&#250;blicas que cont&#234;m reservas de ouro porque o controle da superf&#237;cie torna mais f&#225;cil aos invasores negociar o acesso ao subsolo a qualquer pessoa ou empresa interessada em explor&#225;-lo, como evidenciado no terceiro cap&#237;tulo desta s&#233;rie, que mostrou que grileiros se apossaram de parte do assentamento Terra Nossa, no Par&#225;, e depois venderam os direitos de acesso &#224; superf&#237;cie &#224; Chapleau Explora&#231;&#227;o Mineral. Terras com dep&#243;sitos de ouro tamb&#233;m podem ser vendidas por pre&#231;os mais altos do que aquelas que t&#234;m apenas madeira.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O aumento do pre&#231;o do metal no mercado internacional desde o in&#237;cio da pandemia, associado &#224; expectativa de mudan&#231;a na legisla&#231;&#227;o que trata da minera&#231;&#227;o em terras protegidas na Amaz&#244;nia, tornaram essa amea&#231;a ainda mais intensa. Um relat&#243;rio do Greenpeace revelou que 4,2 mil hectares de floresta foram destru&#237;dos pelo garimpo ilegal entre 2023 e 2024. Segundo a organiza&#231;&#227;o, a atividade garimpeira no per&#237;odo &#8220;n&#227;o diminuiu, apenas se deslocou de um territ&#243;rio ind&#237;gena para outro&#8221;. Os efeitos dessa corrida pelo ouro s&#227;o sentidos pelos nativos que vivem nas &#225;reas mais desejadas pelos garimpeiros.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Apesar de estar cumprindo pena por homic&#237;dio qualificado em pris&#227;o domiciliar, n&#227;o h&#225; sinais de que Vando esteja de fora dessa corrida pelo ouro. Al&#233;m do garimpo em Itaituba, que n&#227;o tem sinais de explora&#231;&#227;o, ele tamb&#233;m aportou fundos na cria&#231;&#227;o de uma empresa de transporte rodovi&#225;rio chamada Soares Gold Transporte, cuja s&#243;cia consta como titular de uma das por&#231;&#245;es do im&#243;vel que ele colocou &#224; venda no Facebook. Outra empresa, chamada Soares Gold Representa&#231;&#245;es de Metais Ltda, aberta em mar&#231;o de 2020, tem como s&#243;cios alguns dos nomes que aparecem como titulares das parcelas do seu im&#243;vel no CAR.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Contatado pela reportagem por e-mail e WhatsApp, Vando n&#227;o respondeu &#224;s quest&#245;es enviadas e bloqueou o contato do </span><strong><span>Subsolo.</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o foi poss&#237;vel confirmar se Vando ainda mant&#233;m v&#237;nculos com Fernandinho Beira-Mar e com qualquer outro narcotraficante ou organiza&#231;&#227;o criminosa atuante no pa&#237;s. Desde a sua recaptura, em 2024, seus problemas com a Justi&#231;a foram reduzidos substancialmente. Em abril de 2026, o processo por crime contra a f&#233; p&#250;blica decorrente da sua falsa morte prescreveu e o processo por tr&#225;fico de drogas foi suspenso.  Segundo o MP, ele sofre de &#8220;graves problemas de sa&#250;de&#8221;, como diabetes, gota, hipertens&#227;o, quadro de cervicalgia aguda e lombociatalgia, uma dor que come&#231;a na parte de baixo da coxa e desce pela perna atrav&#233;s do nervo ci&#225;tico. Devido a esses problemas, segundo o &#243;rg&#227;o, ele precisa realizar viagens frequentes para se tratar em S&#227;o Paulo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Enquanto Vando cumpre sua pena na capital do ouro, o metal escondido em conectores, cabos, chips e placas de circuito pode estar carregando consigo as marcas da destrui&#231;&#227;o da floresta e o sangue dos seus guardi&#245;es.</span></p><p><strong><span>A investiga&#231;&#227;o foi financiada por: </span></strong><span>The Mailman Foundation, Earth Island Institute, The Puffin Foundation, GRID-Arendal e Earth Journalism Network.</span></p><p><strong><span>Apoio: </span></strong><span>Rodolfo Gadelha, do Center for Climate Crime Analysis (CCCA), ajudou a filtrar os milh&#245;es de registros da CFEM.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O MILAGRE VERDE]]></title><description><![CDATA[Ativos ambientais remuneram detentores ileg&#237;timos de terras p&#250;blicas na Amaz&#244;nia]]></description><link>https://subsolojornalismo.substack.com/p/o-milagre-verde</link><guid isPermaLink="false">https://subsolojornalismo.substack.com/p/o-milagre-verde</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Martins]]></dc:creator><pubDate>Sun, 09 Aug 2026 15:40:41 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c9810f3f-bcce-4076-9b62-bfb065dd6326_716x477.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>&#8220;</span><strong><span>O</span></strong><span> meu s&#243;cio &#233; s&#243;cio de 70 empresas no Brasil, um bilion&#225;rio. Ele tem at&#233; jato de 200 milh&#245;es e tal. Ele &#233; um cara forte! E ele &#233; s&#243;cio de um banco, t&#225;? O banco &#233; do filho dele&#8221;, gabou-se o empres&#225;rio Marco Ant&#244;nio de Melo durante uma chamada de voz efetuada pelo WhatsApp, no fim de julho de 2025, ap&#243;s um rep&#243;rter do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> o abordar passando-se pelo assistente de um investidor estrangeiro interessado em comprar algumas das fazendas que ele havia colocado &#224; venda no site Mercado de Terras.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nos primeiros instantes de uma liga&#231;&#227;o que durou 39 minutos, ele contou que tem 12 fazendas na Amaz&#244;nia e que est&#225; vendendo a maior parte delas porque se tornou &#8220;bem-sucedido&#8221; em um projeto de cr&#233;ditos de carbono desenvolvido em uma de suas &#225;reas. &#8220;Eu j&#225; tenho 2,6 bilh&#245;es de reais que v&#227;o entrar pra mim, e eu n&#227;o tenho necessidade de querer ganhar mais dinheiro&#8221;, afirmou. Poucos meses depois dessa liga&#231;&#227;o, o seu projeto &#8220;bem-sucedido&#8221; estaria no meio de um dos maiores esc&#226;ndalos de corrup&#231;&#227;o da hist&#243;ria do Brasil.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Antes que isso acontecesse, por&#233;m, Marco Ant&#244;nio, que mora em Botucatu, a 240km de S&#227;o Paulo, revelou como come&#231;ou a empreender na Amaz&#244;nia. Na liga&#231;&#227;o, ele contou que suas primeiras aquisi&#231;&#245;es de im&#243;veis na regi&#227;o tiveram in&#237;cio em 2008 e foram motivadas pela expectativa de extrair madeira nobre da floresta e export&#225;-la para Quebec, no Canad&#225;, em parceria com a Ind&#250;stria de Pisos do Amazonas. O neg&#243;cio da madeira lhe rendeu um lucro de 15 milh&#245;es de reais e, com esse dinheiro, ele adquiriu v&#225;rias fazendas. &#8220;Na &#233;poca, era em torno de 300 reais o hectare. Ent&#227;o, eu consegui fazer aquisi&#231;&#227;o de bastantes &#225;reas. S&#243; que a&#237; eu pulei para o cr&#233;dito de carbono &#8211; o d&#243;lar tinha ca&#237;do em 2011 e n&#227;o estava compensando, naquele momento, mexer com manejo florestal e exporta&#231;&#227;o&#8221;, explicou.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Durante a chamada, Marco Ant&#244;nio falou sobre um im&#243;vel de 145 mil hectares que n&#227;o estava entre as &#225;reas colocadas &#224; venda no Mercado de Terras. Segundo ele, essa propriedade n&#227;o poderia ser vendida nesse momento porque a Corregedoria de Justi&#231;a do Estado bloqueou, de forma cautelar, em 2024, as matr&#237;culas de todas as fazendas com mais de 50 mil hectares nos munic&#237;pios de L&#225;brea e Apu&#237;. Esse bloqueio ocorreu ap&#243;s a Opera&#231;&#227;o Greenwashing, da Pol&#237;cia Federal (PF),  desmontar um esquema de extra&#231;&#227;o ilegal de madeira e venda de cr&#233;ditos de carbono sobre terras p&#250;blicas nesses dois munic&#237;pios. Segundo as investiga&#231;&#245;es, os criminosos teriam faturado 800 milh&#245;es de reais com o esquema.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A propriedade cuja matr&#237;cula foi bloqueada &#233; conhecida como Fazenda Floresta Amaz&#244;nica e tem 99,6% de sua &#225;rea sobreposta ao Projeto de Assentamento Extrativista (PAE) Aripuan&#227;-Guariba, localizado no munic&#237;pio de Apu&#237;, no sul do estado. O PAE foi criado, em 2005, pelo Instituto Nacional de Coloniza&#231;&#227;o e Reforma Agr&#225;ria (INCRA) para assentar 80 fam&#237;lias pobres e promover o uso sustent&#225;vel da floresta nesta regi&#227;o. A compra do im&#243;vel por Marco Ant&#244;nio teria acontecido apenas em 2009, quatro anos ap&#243;s a cria&#231;&#227;o do assentamento. Segundo o INCRA, a matr&#237;cula do im&#243;vel n&#227;o cont&#233;m &#8220;t&#237;tulo de origem id&#244;neo&#8221; e a terra foi incorporada ao patrim&#244;nio da Uni&#227;o, em 1982, quando ainda n&#227;o havia qualquer t&#237;tulo de propriedade registrado sobre a &#225;rea. Uma transcri&#231;&#227;o da sua matr&#237;cula, realizada em 1963, cont&#233;m a informa&#231;&#227;o de que o im&#243;vel est&#225; localizado em Apu&#237;, munic&#237;pio que, na verdade, s&#243; viria a ser criado em 1987.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7qLy!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e276063-3bf3-4c71-94f9-d45a8966dd00_723x673.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7qLy!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e276063-3bf3-4c71-94f9-d45a8966dd00_723x673.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7qLy!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e276063-3bf3-4c71-94f9-d45a8966dd00_723x673.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7qLy!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e276063-3bf3-4c71-94f9-d45a8966dd00_723x673.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7qLy!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e276063-3bf3-4c71-94f9-d45a8966dd00_723x673.png 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7qLy!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e276063-3bf3-4c71-94f9-d45a8966dd00_723x673.png" width="723" height="673" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0e276063-3bf3-4c71-94f9-d45a8966dd00_723x673.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:673,&quot;width&quot;:723,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7qLy!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e276063-3bf3-4c71-94f9-d45a8966dd00_723x673.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7qLy!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e276063-3bf3-4c71-94f9-d45a8966dd00_723x673.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7qLy!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e276063-3bf3-4c71-94f9-d45a8966dd00_723x673.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7qLy!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0e276063-3bf3-4c71-94f9-d45a8966dd00_723x673.png 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>Procurado pela reportagem em julho de 2026, Marco Ant&#244;nio disse que fez a aquisi&#231;&#227;o de boa-f&#233; e que o cart&#243;rio local confirmou a legitimidade do im&#243;vel. Segundo ele, &#8220;n&#227;o existe nenhuma informa&#231;&#227;o oficial de irregularidade, apenas dois erros de digita&#231;&#227;o em duas palavras, os quais n&#227;o alteram a sua ess&#234;ncia e cuja corre&#231;&#227;o j&#225; foi solicitada&#8221;. Ele tamb&#233;m afirmou que &#8220;servidores do INCRA parecem ter interpretado esses lapsos como irregularidade, divulgando informa&#231;&#245;es pautadas em meras suposi&#231;&#245;es&#8221; e que &#8220;at&#233; o presente momento, n&#227;o existe qualquer documento oficial de cancelamento, declara&#231;&#227;o de irregularidade definitiva ou nulidade contra o t&#237;tulo da Fazenda Floresta Amaz&#244;nica&#8221;. Em rela&#231;&#227;o ao bloqueio feito pela Corregedoria de Justi&#231;a, ele explicou que &#8220;o que vigora &#233; um procedimento administrativo de fiscaliza&#231;&#227;o de car&#225;ter generalizado, e n&#227;o uma san&#231;&#227;o espec&#237;fica direcionada a essa propriedade&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Marco Ant&#244;nio acrescentou ainda que &#8220;foi apresentado ao INCRA, em 2021, toda a documenta&#231;&#227;o do im&#243;vel&#8221;. Na ocasi&#227;o, a autarquia teria emitido o Certificado de Cadastro de Im&#243;vel Rural (CCIR), um documento que comprova a regularidade cadastral da propriedade. Segundo ele, a equipe do INCRA teria recomendado expressamente, na presen&#231;a da diretoria da autarquia, a realiza&#231;&#227;o de georreferenciamento para &#8220;desvincular&#8221; o PAE da Fazenda Floresta Amaz&#244;nica. Suas respostas completas podem ser encontradas </span><a href="https://subsolojornalismo.substack.com/p/direitos-de-resposta"><span>aqui</span></a><span> no &#237;tem 5.A.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O INCRA, por outro lado, informou &#224; reportagem que protocolou um pedido de cancelamento da matr&#237;cula do im&#243;vel em 12 de janeiro de 2026.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Tr&#234;s andares de ativos</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A</span></strong><span> sobreposi&#231;&#227;o com uma terra da Uni&#227;o n&#227;o impediu que ao menos tr&#234;s projetos de comercializa&#231;&#227;o de ativos ambientais fossem concebidos sobre a &#225;rea reivindicada por Marco Ant&#244;nio. A seguir, </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span> explica como cada um deles funcionava.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Unidade de Cr&#233;dito de Sustentabilidade</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>O primeiro desses projetos consiste na cria&#231;&#227;o de Unidades de Cr&#233;dito de Sustentabilidade (UCS), um ativo criado pela empresa Brasil Mata Viva (BMV) para remunerar propriet&#225;rios que assumem o compromisso de manter a floresta em p&#233; por, pelo menos, 25 anos. O c&#225;lculo da compensa&#231;&#227;o &#233; feito com base em uma metodologia desenvolvida pela economista Maria Tereza Umbelino, CEO da empresa. No in&#237;cio do processo, &#233; realizado um levantamento para avaliar 27 servi&#231;os ambientais prestados pela &#225;rea de mata do im&#243;vel, os quais incluem desde a quantidade de carbono ali armazenada at&#233; a biodiversidade nela presente. Na sequ&#234;ncia, as UCS s&#227;o auditadas, certificadas e registradas em </span><em><span>blockchain&#185;</span></em><span>. No caso da Fazenda Floresta Amaz&#244;nica, a empresa respons&#225;vel pela auditoria foi a T&#220;V Rheinland; a Universidade Estadual Paulista J&#250;lio de Mesquita Filho (UNESP) ficou encarregada de validar a metodologia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Depois de registradas em </span><em><span>blockchain</span></em><span>, as unidades podem finalmente ser adquiridas por pessoas ou empresas interessadas em compensar suas emiss&#245;es de di&#243;xido de carbono (co2). O pre&#231;o da UCS varia de acordo com a cota&#231;&#227;o de outras </span><em><span>commodities</span></em><span> no mercado internacional, como soja e madeira. De um lado, quem compra a UCS recebe um selo que atesta a conformidade socioambiental das suas atividades. Do outro, os propriet&#225;rios garantem uma renda anual para conservar a floresta. Em tese, a divis&#227;o da quantia proveniente da venda &#233; feita igualmente entre os propriet&#225;rios, as associa&#231;&#245;es de produtores rurais locais e a IMEI (bra&#231;o da BMV respons&#225;vel por estruturar os ativos). De acordo com Maria Tereza, o faturamento anual da BMV &#233; da ordem de cinco milh&#245;es de reais e decorre das taxas que a empresa cobra para certificar cada UCS.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Segundo o site da BMV, at&#233; 2024, foram &#8220;transacionadas&#8221; 232 milh&#245;es de UCS oriundas da Fazenda Floresta Amaz&#244;nica. A empresa explica que cada transa&#231;&#227;o corresponde &#224; troca de titularidade do ativo, e essa troca pode se dar tanto por venda, quanto por doa&#231;&#227;o ou heran&#231;a. Um painel que re&#250;ne dados de parte das vendas de UCS no intervalo que vai de junho de 2018 a abril de 2024 mostra que o im&#243;vel de Marco Ant&#244;nio gerou 8.075 das 15.083 UCS totais comercializadas nesse per&#237;odo. Essas vendas produziram um faturamento de 2,18 milh&#245;es de reais, dos quais 1,17 milh&#227;o foi gerado pelo im&#243;vel de Marco Ant&#244;nio.</span></p><p style="text-align: justify;"><span> A principal compradora das unidades de cr&#233;dito ligadas &#224; Fazenda Floresta Amaz&#244;nica foi a Mina Tucano, empresa que opera uma mina a c&#233;u aberto no munic&#237;pio de Pedra Branca do Amapari, no Amap&#225;. A companhia desembolsou 709 mil reais na compra de 5.146 UCS. O segundo maior comprador dessas unidades foi o Banco da Amaz&#244;nia, que adquiriu 716 UCS a um custo total de 125 mil reais. Procurados pela reportagem, o Banco da Amaz&#244;nia e a Amap&#225; Minerals, holding que assumiu o controle da Mina Tucano em 2025, n&#227;o se manifestaram.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Subsolo</span></strong><span> analisou 224 propriedades listadas pela BMV e descobriu que, al&#233;m da &#225;rea reivindicada por Marco Ant&#244;nio, outros 31 im&#243;veis com algum tipo de sobreposi&#231;&#227;o a terras p&#250;blicas na Amaz&#244;nia comercializaram UCS. Quase todos esses im&#243;veis est&#227;o sobrepostos a terras de dom&#237;nio do INCRA.  Em um caso espec&#237;fico, por&#233;m, a Fazenda Matapor&#227; est&#225; totalmente sobreposta &#224; Terra Ind&#237;gena Manoki, em Mato Grosso, cujos limites foram reconhecidos pelo Minist&#233;rio da Justi&#231;a em agosto de 2008. A homologa&#231;&#227;o&#178; da &#225;rea foi suspensa pelo ministro da Suprema Corte Fl&#225;vio Dino, em junho de 2026, para permitir a realiza&#231;&#227;o de uma audi&#234;ncia de concilia&#231;&#227;o entre os manokis e os ocupantes n&#227;o ind&#237;genas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>, o departamento jur&#237;dico da BMV afirmou que a empresa atua dentro da legalidade e que n&#227;o confirma nem nega o n&#250;mero de im&#243;veis sobrepostos a terras p&#250;blicas encontrados pela reportagem. A empresa disse, todavia, que monitora continuamente a situa&#231;&#227;o fundi&#225;ria de todas as 500 propriedades que integram seu portf&#243;lio e remove aquelas que n&#227;o est&#227;o em conformidade com a legisla&#231;&#227;o vigente. Como exemplo, a empresa disse ter interrompido, em 2014, a gera&#231;&#227;o de UCS sobre o im&#243;vel reivindicado por Marco Ant&#244;nio porque ele n&#227;o forneceu o georreferenciamento da &#225;rea. A BMV tamb&#233;m assumiu o compromisso de avaliar a situa&#231;&#227;o da Fazenda Matapor&#227; e paralisar a comercializa&#231;&#227;o dos ativos da nova safra at&#233; que tudo seja esclarecido.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Marco Ant&#244;nio diz que recebeu apenas 21 mil reais pela comercializa&#231;&#227;o de UCS e que a BMV n&#227;o lhe pagou a parte que lhe &#233; de direito. Maria Tereza, por sua vez, afirma que essa informa&#231;&#227;o n&#227;o procede.</span></p><p><strong><span>Os tokens de preserva&#231;&#227;o da Greener</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>O</span></strong><span> segundo projeto criado sobre o mesmo im&#243;vel resultou na convers&#227;o da floresta em ativos digitais conhecidos como tokens. Como contou Marco Ant&#244;nio, &#8220;t&#234;m neg&#243;cios que s&#227;o at&#233; melhores que o manejo. Anota a&#237;! Est&#227;o tokenizando as fazendas de floresta e vendendo no mercado mundial&#8221;. No caso da Fazenda Floresta Amaz&#244;nica, os servi&#231;os ambientais fornecidos pelo im&#243;vel foram convertidos em Greener Preservation Tokens (GPT), cuja unidade equivale a uma tonelada de emiss&#227;o de co2 evitada.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O GPT foi criado pela Greener, plataforma lan&#231;ada em setembro de 2022 a partir de </span><a href="https://portal.clientesa.com.br/a-tecnologia-como-parceira-da-preservacao-ambiental/"><span>uma parce</span></a><span>ria entre a empresa de tecnologia Dax Green e a gestora de fundos Reag Investimentos. Os tokens seriam administrados, ent&#227;o, pela Si&#227;o S.A, e controlados por dois fundos geridos pela pr&#243;pria Reag. Uma </span><a href="https://www.cartacapital.com.br/economia/credito-virtual-ganho-real/"><span>reportagem</span></a><span> da revista Carta Capital, publicada na semana de lan&#231;amento da Greener, reportou que os ativos que lastreavam os tokens da plataforma estavam tamb&#233;m sob a administra&#231;&#227;o da empresa Golden Green S.A.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Dentre as empresas que adquiriram GPTs provenientes do im&#243;vel de Marco Ant&#244;nio, est&#225; a </span><a href="https://br.fashionnetwork.com/news/Insider-investiu-mais-de-r-100-mil-na-compensacao-de-carbono-em-2024,1696521.html"><span>Insider</span></a><span>, marca de roupas que teria investido 100 mil reais para compensar suas emiss&#245;es de co2. Em resposta a uma reportagem da revista </span><a href="https://globorural.globo.com/agricultura/noticia/2024/12/o-que-a-greener-diz-sobre-a-geracao-de-token-de-carbono-em-area-irregular-na-amazonia.ghtml"><span>Globo Rural</span></a><span>, a Greener afirmou ter feito uma venda &#250;nica de GPTs ligados &#224; Fazenda Floresta Amaz&#244;nica pelo pre&#231;o de 6 mil d&#243;lares (ou 30 mil reais) em outubro de 2024. Desse total, 5% teriam ido para a conta da Associa&#231;&#227;o Agroextrativista Aripuan&#227;-Guariba (ASAGA), que representa as fam&#237;lias que trabalham com a extra&#231;&#227;o de &#243;leo de copa&#237;ba no assentamento. &#192; revista, Marco Ant&#244;nio disse que o projeto ainda estava em fase de estrutura&#231;&#227;o e, por isso, &#8220;nunca ocorreu nenhuma venda&#8221; de tokens e &#8220;nunca assinou contrato autorizando a comercializa&#231;&#227;o de ativos gerados em sua propriedade&#8221;. &#8220;Minha regra &#233; que n&#227;o saia nenhum ativo da Si&#227;o enquanto n&#227;o resolver a quest&#227;o com o INCRA&#8221;, explicou.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Claudio Olimpio, um dos fundadores da DaX, afirmou ao </span><strong><span>Subsolo </span></strong><span>que n&#227;o exerce qualquer fun&#231;&#227;o na empresa h&#225; mais de um ano. Apesar disso, ele esclareceu que, durante a sua atua&#231;&#227;o como CEO da companhia, &#8220;a DaX prestou servi&#231;os de desenvolvimento tecnol&#243;gico voltados &#224; estrutura&#231;&#227;o e tokeniza&#231;&#227;o de ativos ambientais&#8221; e que &#8220;no curso do Projeto Greener surgiram apontamentos relacionados &#224; regularidade fundi&#225;ria da &#225;rea&#8221;, o que teria levado a empresa a suspender todas as atividades relacionadas ao projeto que, posteriormente, &#8220;foi descontinuado e, conforme as informa&#231;&#245;es de que disponho, a DaX tamb&#233;m encerrou sua atua&#231;&#227;o no segmento de tokeniza&#231;&#227;o de ativos ambientais, n&#227;o desenvolvendo atualmente qualquer atividade nessa &#225;rea&#8221;. Ele tamb&#233;m afirmou que nenhum GPT vinculado ao im&#243;vel de Marco Ant&#244;nio foi comercializado. &#8220;Por fim, desconhe&#231;o qualquer v&#237;nculo, opera&#231;&#227;o ou rela&#231;&#227;o envolvendo os demais nomes, empresas e institui&#231;&#245;es mencionados na apura&#231;&#227;o, al&#233;m das rela&#231;&#245;es contratuais e documentais &#224;s quais tive acesso durante minha atua&#231;&#227;o na empresa&#8221;, concluiu ele, referindo-se &#224; Reag, &#224; BMV, &#224; Si&#227;o S.A e &#224; Golden Green, cujos nomes estavam no pedido de coment&#225;rios enviado por </span><strong><span>Subsolo. </span></strong><span>A nota completa pode ser encontrada </span><a href="https://subsolojornalismo.substack.com/p/direitos-de-resposta"><span>aqui</span></a><span> no &#237;tem 5.B.</span></p><p><strong><span>Os cr&#233;ditos de carbono</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>O terceiro esquema criado sobre a &#225;rea da Fazenda Floresta Amaz&#244;nica &#233; o projeto de cr&#233;ditos de carbono &#8220;bem-sucedido&#8221; que Marco Ant&#244;nio contou ter desenvolvido com seu s&#243;cio bilion&#225;rio. Em projetos dessa natureza, as empresas que desejam compensar suas emiss&#245;es de carbono adquirem cr&#233;ditos de iniciativas que comprovadamente sequestram co2 da atmosfera ou reduzem e evitam essas emiss&#245;es. Nesse mercado, cada tonelada de co2 equivale a um cr&#233;dito, que &#233; convertido em moeda corrente e utilizado para remunerar os respons&#225;veis pela iniciativa. Quanto mais rigoroso for o processo de certifica&#231;&#227;o do projeto, maior tende a ser o pre&#231;o de cada cr&#233;dito. No caso de Marco Ant&#244;nio, ele e seu s&#243;cio seriam compensados para evitar que o im&#243;vel fosse desmatado e lan&#231;asse na atmosfera todo o carbono nele armazenado. Na liga&#231;&#227;o, ele explicou que o lucro de um projeto de cr&#233;ditos de carbono &#233; igual (ou maior) ao do manejo florestal, embora mais &#8220;complexo de vender&#8221;. &#8220;J&#225; a madeira n&#227;o. &#201; fila de gente querendo comprar&#8221;, afirmou.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Durante a chamada, Marco Ant&#244;nio contou que o levantamento do estoque de carbono da &#225;rea foi feito pela UNESP e validado pela KPMG. De acordo com ele, a universidade encontrou 168,8 milh&#245;es de toneladas de co2 armazenadas no seu im&#243;vel (ou, como ele diz, unidades de estoque de carbono - UEC) e, agora, todo esse estoque estava sob a administra&#231;&#227;o da Si&#227;o S.A, empresa controlada por dois fundos geridos pela Reag. A Si&#227;o &#233; a mesma companhia que administrava parte dos GPTs da Greener.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Por meio de registros da Junta Comercial de S&#227;o Paulo, a reportagem descobriu que a Si&#227;o foi registrada, em agosto de 2020, com outro nome e sob outra categoria de atua&#231;&#227;o. Criada como uma loja de miudezas, situada no bairro Cidade Mon&#231;&#245;es, em S&#227;o Paulo, a empresa se chamava Pereira e Silva Com&#233;rcio de Armarinhos S.A., com capital social de 100 reais. Cerca de tr&#234;s anos depois, em junho de 2023, a companhia passou por uma s&#233;rie de transforma&#231;&#245;es, as quais envolveram a altera&#231;&#227;o do nome para Si&#227;o e uma nova sede na Avenida Brigadeiro Faria Lima, o centro financeiro do pa&#237;s. Mais do que a troca de nome, a mudan&#231;a de endere&#231;o refletia o novo status da empresa que, com a remodela&#231;&#227;o, passara a deter um capital social da ordem de 26,5 bilh&#245;es de reais e se tornara uma gestora de ativos intang&#237;veis n&#227;o financeiros, categoria que inclui softwares, marcas, patentes e cr&#233;ditos de carbono. Na gest&#227;o da empresa, os antigos diretores foram destitu&#237;dos e, em seu lugar, assumiram Silvano Gersztel e Antonio Jos&#233; Santos Guimar&#227;es, ambos s&#243;cios da Reag.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Esses dois s&#243;cios da Reag tamb&#233;m ocupavam a posi&#231;&#227;o de diretores da Golden Green S.A, companhia detentora dos mesmos ativos que teriam sido usados para lastrear os tokens da Greener. Assim como a Si&#227;o, a Golden Green nasceu com outro nome e um capital social muito inferior. Anteriormente denominada N.R.B.S.P.E Empreendimentos e Participa&#231;&#245;es S.A, a empresa foi criada em mar&#231;o de 2020 com capital de apenas 500 reais. Cinco meses depois, em agosto de 2020, os diretores da companhia foram destitu&#237;dos e os dois s&#243;cios da Reag assumiram a opera&#231;&#227;o. Em outubro do ano seguinte, a empresa passaria a se chamar Golden Green, come&#231;aria a atuar no ramo de ativos intang&#237;veis n&#227;o financeiros e veria seu capital subir para 9,5 bilh&#245;es de reais. Em mar&#231;o de 2022, o capital da firma seria novamente alterado, dessa vez para 13,5 bilh&#245;es de reais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em setembro de 2024, novas mudan&#231;as ocorreriam na Si&#227;o S.A, cujo nome seria trocado por Global Carbon S.A, dirigida n&#227;o mais pelos s&#243;cios da Reag, mas sim pelos advogados Thiago Assump&#231;&#227;o Henriques e Julio Antonio Nunes Queiroz.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A Reag e o caso Master</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao ser questionado sobre qual era o banco do filho do seu s&#243;cio bilion&#225;rio, Marco Ant&#244;nio disse preferir n&#227;o citar nomes porque seu parceiro de neg&#243;cios sempre teve &#8220;certa privacidade&#8221;. Apesar dessa restri&#231;&#227;o, ele contou que esse s&#243;cio investiu 20 milh&#245;es de reais no projeto de cr&#233;ditos de carbono, com o adiantamento de 15 milh&#245;es de reais como sinal da sua inten&#231;&#227;o em fazer parte do neg&#243;cio. Ap&#243;s compartilhar essas informa&#231;&#245;es, ele tamb&#233;m ofereceu ao rep&#243;rter do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>, que ainda estava falando sob o disfarce de assistente de um investidor estrangeiro interessado em comprar terras na Amaz&#244;nia, a oportunidade desse investidor se tornar s&#243;cio do projeto enquanto o neg&#243;cio ainda estava &#8220;congelado&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Um m&#234;s ap&#243;s essa liga&#231;&#227;o, por&#233;m, os planos de Marco Ant&#244;nio sofreriam alguns abalos. Na madrugada do dia 28 de agosto de 2025, a Receita Federal e &#243;rg&#227;os parceiros deflagraram a maior opera&#231;&#227;o contra o crime organizado da hist&#243;ria do pa&#237;s, em termos de amplitude e coopera&#231;&#227;o institucional. Nomeada Carbono Oculto, a opera&#231;&#227;o desmantelou um esquema bilion&#225;rio de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combust&#237;veis, envolvendo a organiza&#231;&#227;o criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), fintecs e fundos de investimentos sediados na Faria Lima. Um dos alvos da opera&#231;&#227;o foi a Reag, que, at&#233; ent&#227;o, era uma das maiores gestoras de fundos do pa&#237;s. Criada em 2012 por Jo&#227;o Carlos Falpo Mansur, a companhia chegou a ter 299 bilh&#245;es de reais sob sua gest&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tr&#234;s meses depois da Carbono Oculto, a PF deflagrou a Opera&#231;&#227;o Compliance Zero, na qual prendeu Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, por suspeitas de envolvimento em fraudes bilion&#225;rias. Segundo as investiga&#231;&#245;es, o banco emprestava dinheiro a empresas de fachada, que aplicavam a quantia em fundos geridos pela Reag, alguns dos quais tinham como cotista o pr&#243;prio Master. Depois de circular entre fundos e ser usado para comprar ativos de baixo ou nenhum valor real, o dinheiro voltava ao Master na forma de investimento em CDBs. Esse ciclo mascarava preju&#237;zos e inflava artificialmente o patrim&#244;nio da institui&#231;&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Com a descoberta desses esquemas, a recusa de Marco Ant&#244;nio em compartilhar o nome do seu s&#243;cio e do banco do filho dele se mostraria in&#250;til. Apenas dois meses depois da Compliance Zero, a </span><em><span>Folha de S. Paulo</span></em><span> revelou que a empresa Alliance Participa&#231;&#245;es, presidida por Henrique Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro, teria pagado, em 2023, 15 milh&#245;es de reais a Marco Ant&#244;nio para comercializar as unidades de carbono da Fazenda Floresta Amaz&#244;nica antes mesmo de o projeto ser certificado. &#192; </span><em><span>Folha</span></em><span>, Marco Ant&#244;nio disse ter se sentido enganado, pois esperava receber pelo menos 10% dos 26 bilh&#245;es da Global Carbon. Al&#233;m das unidades de carbono, a Alliance teria comprado, em 2022, 25,8 milh&#245;es de UCS geradas pelo im&#243;vel reivindicado por Marco Ant&#244;nio, conforme contrato obtido pelo jornal. A BMV diz desconhecer essa transa&#231;&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong>Subsolo</strong> descobriu que as UCS da BMV tamb&#233;m foram utilizadas como principal ativo para lastrear alguns dos maiores Fundos de Investimento em Direitos Credit&#243;rios (FIDCs) do mercado, todos geridos pela Reag. A situa&#231;&#227;o levou a Comiss&#227;o de Valores Mobili&#225;rios (CVM) a determinar, em agosto de 2020, o encerramento do Jaya NP e do Green Eficiency Aberto NP. Ap&#243;s an&#225;lise t&#233;cnica, a Comiss&#227;o concluiu que as UCS n&#227;o correspondem a direitos credit&#243;rios, e que os fundos estariam financiando de forma irregular. O Jaya NP, administrado pela Terra DTVM, come&#231;ou a operar em janeiro de 2019 e, at&#233; julho de 2020, tinha emitido 7,15 bilh&#245;es de reais em cotas. J&#225; o Green Eficiency Aberto NP, administrado pela Monetar DTVM, tamb&#233;m investigada na Carbono Oculto, iniciou suas opera&#231;&#245;es em agosto de 2019 e, em apenas um ano, emitiu 2 bilh&#245;es de reais em cotas. Os administradores recorreram da decis&#227;o, mas a CVM reiterou a ordem de encerramento e acrescentou &#224; sua lista o Tesouro Verde NP, administrado pela Terra DTVM e com 346 milh&#245;es de reais em cotas. Somados, os FIDCs tinham 9,5 bilh&#245;es de reais em cotas. Um m&#234;s ap&#243;s essa decis&#227;o, em outubro de 2021, o capital da Golden Green foi elevado de 500 reias para 9,5 bilh&#245;es de reais.</p><p style="text-align: justify;"><span>O engenheiro civil Jerson Kelman, professor de Recursos H&#237;dricos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jerson-kelman/2026/01/a-floresta-amazonica-e-a-maquiagem-contabil.shtml"><span>calculou</span></a><span> que, mesmo que fosse poss&#237;vel transformar todo o alegado estoque de 168 milh&#245;es de unidades de carbono da Fazenda Floresta Amaz&#244;nica em cr&#233;ditos certificados, a quantia m&#225;xima a ser obtida pela comercializa&#231;&#227;o desses cr&#233;ditos seria de 4,5 bilh&#245;es de reais, valor muito aqu&#233;m dos 40 bilh&#245;es de reais resultantes da soma dos ativos da Golden Green e da Global Carbon.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para o subprocurador do Minist&#233;rio P&#250;blico junto ao Tribunal de Contas da Uni&#227;o (MPTCU) Lucas Furtado, &#8220;as transa&#231;&#245;es financeiras realizadas com base nesses cr&#233;ditos fict&#237;cios foram utilizadas para inflar o patrim&#244;nio de empresas e fundos, permitindo a realiza&#231;&#227;o de opera&#231;&#245;es financeiras fraudulentas que, segundo investiga&#231;&#245;es da Pol&#237;cia Federal, podem estar relacionadas &#224; lavagem de dinheiro e ao financiamento de organiza&#231;&#245;es criminosas, como o PCC&#8221;. Em sua representa&#231;&#227;o, conforme noticiou a </span><a href="https://eixos.com.br/politica/mptcu-quer-investigar-esquema-de-creditos-de-carbono-envolvendo-a-familia-vorcaro-do-banco-master/"><span>Ag&#234;ncia Eixos</span></a><span>, o subprocurador pediu ao TCU que investigue a Alliance e os fundos geridos pela Reag &#8220;com especial aten&#231;&#227;o &#224; utiliza&#231;&#227;o de terras p&#250;blicas e &#224; emiss&#227;o de cr&#233;ditos de carbono sem lastro real&#8221; e que a corte analise se o projeto est&#225; em conformidade com os dispositivos da </span><a href="https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/lei-n-15.042-de-11-de-dezembro-de-2024-601124199"><span>lei</span></a><span> que criou o Sistema Brasileiro de Com&#233;rcio de Emiss&#245;es de Gases de Efeito Estufa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Contatada pela reportagem, a Terra e a Monetar esclareceram que &#8220;atuaram exclusivamente na administra&#231;&#227;o fiduci&#225;ria dos fundos mencionados, sem participa&#231;&#227;o na gest&#227;o ou na tomada de decis&#245;es de investimento, atribui&#231;&#245;es de responsabilidade do gestor&#8221; e que &#8220;desde 2021, n&#227;o prestam servi&#231;os de administra&#231;&#227;o fiduci&#225;ria para fundos relacionados &#224;s empresas citadas e geridos pela Reag&#8221;. A BMV diz que a decis&#227;o da CVM de encerrar os fundos foi &#8220;corret&#237;ssima&#8221;. A Reag, a Global Carbon, a Golden Green e a Alliance Participa&#231;&#245;es n&#227;o responderam aos pedidos de coment&#225;rios.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao </span><strong><span>Subsolo, </span></strong><span>a UNESP negou ter firmado qualquer tipo de conv&#234;nio ou contrato com a Alliance Participa&#231;&#245;es ou com Marco Ant&#244;nio para a valida&#231;&#227;o metodol&#243;gica de ativos gerados sobre a &#225;rea da Fazenda Floresta Amaz&#244;nica, em Apu&#237;. &#8220;A universidade tampouco autorizou que outros servidores o fizessem, nem autorizou o uso do nome UNESP para chancelar qualquer forma de presta&#231;&#227;o de servi&#231;os&#8221;. A universidade, por&#233;m, confirmou ter firmado contrato com a IMEI, do grupo BMV, para o &#8220;licenciamento n&#227;o exclusivo, unicamente para atua&#231;&#227;o no territ&#243;rio brasileiro, do uso da metodologia para aferi&#231;&#227;o e valida&#231;&#227;o dos resultados da aplica&#231;&#227;o do Padr&#227;o Brasil Mata Viva de Quantifica&#231;&#227;o de Carbono Estocado e Biomassa Vegetal&#8221;. Um novo contrato, em 2019, previa a &#8220;transfer&#234;ncia de know-how e coopera&#231;&#227;o com a IMEI&#8221; para &#8220;a formaliza&#231;&#227;o da operacionaliza&#231;&#227;o das vendas dos ativos ambientais, por meio das plataformas eletr&#244;nicas de distribui&#231;&#227;o dos ativos&#8221;. A resposta completa da universidade pode ser encontrada </span><a href="https://subsolojornalismo.substack.com/p/direitos-de-resposta"><span>aqui</span></a><span> no &#237;tem 5.C.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Marco Ant&#244;nio afirmou ao </span><strong><span>Subsolo </span></strong><span>que sempre tratou somente &#8220;com o estruturador chamado Jos&#233; Ant&#244;nio [Ramos] Bittencourt&#8221; que teria afirmado ter um investidor para o projeto. &#8220;Um tempo depois, ele me informou que o investidor seria Henrique Vorcaro. Nessa fase, houve uma proposta para ter direito &#224; op&#231;&#227;o de compra futura, para isso um arras de 15 milh&#245;es de reais. Aceitei a condi&#231;&#227;o, mas, no momento de assinar o contrato, que j&#225; veio pronto do Sr. Jos&#233; Ant&#244;nio, constava nesse aditivo Alliance Participa&#231;&#245;es com assinatura de Nat&#225;lia Vorcaro [filha de Henrique Vorcaro]&#8221;, acrescentou. Marco Ant&#244;nio tamb&#233;m disse que &#8220;sempre soube que o Sr. Henrique Vorcaro &#233; uma pessoa id&#244;nea e propriet&#225;rio de diversas empresas&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No &#250;ltimo dia 31 de julho, o ministro da Suprema Corte Andr&#233; Mendon&#231;a tornou p&#250;blicos di&#225;logos encontrados pela PF nos celulares do banqueiro Daniel Vorcaro que revelam seu interesse em projetos de lei sobre cr&#233;ditos de carbono em tr&#226;mite no Senado, incluindo tr&#234;s emendas apresentadas pelo senador Efraim Filho (PL-PB) ao PL 412, que regulamenta  o mercado de carbono no pa&#237;s. Conforme noticiou o </span><a href="https://www.estadao.com.br/politica/pf-encontra-no-celular-de-vorcaro-emendas-apresentadas-por-efraim-filho-ao-pl-do-carbono/?srsltid=AfmBOorpsnS9q12RfoqVHt3pzODoAF7751KEcoHnf9Ox_fHdgUguOvTH"><span>Estad&#227;o</span></a><span>, &#8220;as propostas haviam sido protocoladas formalmente por Efraim em 20 de setembro de 2023. Cerca de um m&#234;s depois, em 22 de outubro, Jos&#233; Antonio Ramos Bittencourt, identificado no aparelho de Vorcaro como &#8220;Jos&#233; Antonio Carbono&#8221;, enviou ao banqueiro os arquivos das emendas 26, 27 e 28 ao Projeto de Lei 412/2022. Em seguida, afirmou: &#8220;As 3 emendas acima s&#227;o fundamentais serem aplicadas no PL&#8221;. Al&#233;m de receber as tr&#234;s emendas, Vorcaro pediu a Jos&#233; Ant&#244;nio relat&#243;rios sobre a capacidade de gera&#231;&#227;o de carbono da Fazenda Floresta Amaz&#244;nica, que foi tratada na troca de mensagens como &#8220;nosso projeto&#8221;. Ainda conforme o jornal, &#8220;o relat&#243;rio policial n&#227;o indica que Efraim tenha enviado os documentos diretamente a Vorcaro, nem apresenta conversas entre os dois&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A reportagem n&#227;o conseguiu contato com Jos&#233; Ant&#244;nio Bittencourt. A KPMG n&#227;o respondeu ao pedido de coment&#225;rios.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>&#192; espera de um milagre</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A</span></strong><span>o longo da liga&#231;&#227;o, Marco Ant&#244;nio recomendou, ao menos quatro vezes, que o comprador estrangeiro tomasse cuidado com as terras indocumentadas no estado do Amazonas, pois, segundo ele, elas estavam por toda parte. As terras dele, por&#233;m, n&#227;o teriam esse problema. Uma an&#225;lise do </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>, contudo, descobriu que um dos seus im&#243;veis &#224; venda, com &#225;rea de 32 mil hectares, conhecido como S&#227;o Domingos, est&#225; sobreposto &#224; Floresta Nacional (Flona) Mapi&#225; Inauini, no Amazonas. O </span><a href="https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/biodiversidade/unidade-de-conservacao/unidades-de-biomas/amazonia/lista-de-ucs/flona-mapia-inauini/arquivos/flona_mapia_inauini_pm.pdf"><span>Plano de Manejo</span></a><span> da Flona cont&#233;m a informa&#231;&#227;o de que a Corregedoria de Justi&#231;a do Estado do Amazonas cancelou, em dezembro de 2001, todos os registros de propriedades sobre a reserva, o que inclui o im&#243;vel S&#227;o Domingos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Questionado pela reportagem, Marco Ant&#244;nio disse haver tr&#234;s propriedades com o nome &#8220;S&#227;o Domingos&#8221; e que a dele &#8220;est&#225; normal, sem nenhuma informa&#231;&#227;o do cart&#243;rio sobre qualquer cancelamento&#8221;. Ele afirmou ainda que sua &#225;rea &#233; 70 anos mais antiga que a referida unidade de conserva&#231;&#227;o. O arquivo kmz que ele compartilhou na conversa de julho de 2025, todavia, mostra que o im&#243;vel &#224; venda est&#225; completamente sobreposto &#224; &#225;rea da reserva.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8_ka!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F84f5685c-64f5-419c-9cb2-aa03ee1e039d_790x623.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8_ka!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F84f5685c-64f5-419c-9cb2-aa03ee1e039d_790x623.png 424w, 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data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/84f5685c-64f5-419c-9cb2-aa03ee1e039d_790x623.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:623,&quot;width&quot;:790,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8_ka!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F84f5685c-64f5-419c-9cb2-aa03ee1e039d_790x623.png 424w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>Nem mesmo as opera&#231;&#245;es policiais contra seus parceiros de neg&#243;cios e as contradi&#231;&#245;es reveladas pela reportagem foram capazes de alterar os projetos de Marco Ant&#244;nio para os im&#243;veis que ele reivindica na Amaz&#244;nia. Em resposta ao pedido de coment&#225;rios enviado por </span><strong><span>Subsolo</span></strong><span>, ele demonstrou ainda querer dar andamento &#224; iniciativa de comercializa&#231;&#227;o de cr&#233;ditos de carbono em parceria com a Alliance. Segundo ele, &#8220;o projeto n&#227;o est&#225; totalmente estruturado, por&#233;m, estamos aguardando a consolida&#231;&#227;o do georreferenciamento&#8221;. Em janeiro de 2026, o INCRA rejeitou um Termo de Ajustamento de Conduta apresentado pela Alliance para regularizar o projeto de cr&#233;ditos de carbono da Fazenda Floresta Amaz&#244;nica.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Enquanto o processo de cancelamento da matr&#237;cula do im&#243;vel n&#227;o &#233; conclu&#237;do, Marco Ant&#244;nio continua &#224; espera do seu milagre verde.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Notas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>1. Blockchain &#233; uma rede criptografada que pode ser acessada de qualquer lugar do mundo e que n&#227;o permite a altera&#231;&#227;o nem exclus&#227;o dos seus dados.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>2. Ato administrativo que corresponde &#224; fase final do processo de cria&#231;&#227;o de uma terra ind&#237;gena.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>A investiga&#231;&#227;o foi financiada por: </span></strong><span>The Mailman Foundation, Earth Island Institute, The Puffin Foundation, GRID-Arendal e Earth Journalism Network.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Nota Metodológica]]></title><description><![CDATA[Como investigamos a grilagem de terras na floresta amaz&#244;nica?]]></description><link>https://subsolojornalismo.substack.com/p/nota-metodologica</link><guid isPermaLink="false">https://subsolojornalismo.substack.com/p/nota-metodologica</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Martins]]></dc:creator><pubDate>Sun, 09 Aug 2026 15:09:56 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5SfG!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F24f4d0e5-9164-42b7-91d4-13f69e58a4b7_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong><span>A Metodologia</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>A investiga&#231;&#227;o foi guiada por </span><strong><span>tr&#234;s objetivos</span></strong><span>:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>1. Mensurar a quantidade de terra p&#250;blica na Amaz&#244;nia brasileira negociada online, tanto em redes sociais quanto em marketplaces de im&#243;veis rurais;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>2. Entender as conex&#245;es entre a grilagem de terras p&#250;blicas e outras economias il&#237;citas no interior da floresta, como a minera&#231;&#227;o em &#225;reas protegidas;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>3. Revelar a identidade daqueles que se beneficiam da invas&#227;o de terras p&#250;blicas, seja por meio da venda da terra, da sua explora&#231;&#227;o econ&#244;mica ou do seu uso como garantia para a obten&#231;&#227;o de cr&#233;dito rural.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para definir o escopo geogr&#225;fico do trabalho partimos do pressuposto estabelecido pela literatura acad&#234;mica sobre grilagem de terras no Brasil (especialmente na Amaz&#244;nia), a qual confirma as conex&#245;es entre o desmatamento ilegal e a apropria&#231;&#227;o privada de terras p&#250;blicas&#185;. Considerando essa rela&#231;&#227;o perniciosa, utilizamos a lista dos 10 munic&#237;pios mais desmatados em 2022&#178; para pesquisar an&#250;ncios de im&#243;veis rurais nas redes sociais e em marketplaces. Isso n&#227;o significa, no entanto, que nos limitamos a coletar apenas os an&#250;ncios de im&#243;veis rurais localizados nesses 10 munic&#237;pios. Durante a apura&#231;&#227;o, consideramos tamb&#233;m a inclus&#227;o de an&#250;ncios de im&#243;veis localizados em &#225;reas adjacentes a esses 10 n&#250;cleos principais, como aqueles compartilhados por corretores imobili&#225;rios ou sugeridos pelos algoritmos das pr&#243;prias plataformas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Pesquisamos an&#250;ncios em diferentes plataformas, como Facebook (grupos e marketplace), YouTube, OLX, MFRural, TikTok, X e Instagram. Das plataformas pesquisadas, apenas o X n&#227;o continha an&#250;ncios suspeitos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para definir um an&#250;ncio como suspeito, adotamos alguns </span><strong><span>crit&#233;rios de inclus&#227;o</span></strong><span>:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>1. Im&#243;veis cuja descri&#231;&#227;o (apresentada em texto, v&#237;deo ou imagem) demonstrava que a &#225;rea &#224; venda n&#227;o tinha documenta&#231;&#227;o suficiente para comprovar a propriedade privada da terra. Em geral, a maioria dos an&#250;ncios t&#234;m apenas o comprovante de inscri&#231;&#227;o no CAR (Cadastro Ambiental Rural) e o georreferenciamento, os quais devem ser validados ou certificados pelos &#243;rg&#227;os de controle ap&#243;s o cadastro.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>2. &#193;reas maiores que 2.500 hectares. A Constitui&#231;&#227;o Federal (1988, art. 188, &#167;1&#186;) estabelece que &#225;reas que ultrapassam esse limite necessitam de autoriza&#231;&#227;o do Congresso Nacional para que sejam tituladas nos processos de aliena&#231;&#227;o e concess&#227;o das terras que integram o patrim&#244;nio p&#250;blico. Al&#233;m disso, a lei que instituiu o Programa Terra Legal (Lei 11.952/2009) adota o mesmo limite no processo de regulariza&#231;&#227;o de &#225;reas ocupadas na Amaz&#244;nia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>3. &#193;reas com ind&#237;cios de queimada e/ou desmatamento recente, com pre&#231;os mais baixos que os praticados no mercado local (sobretudo em compara&#231;&#227;o com o pre&#231;o de im&#243;veis titulados &#224; venda na internet). Como mostrou reportagem da BBC, em 2021, muitos invasores derrubam parte da vegeta&#231;&#227;o, queimam a &#225;rea e, na sequ&#234;ncia, a colocam &#224; venda na internet.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Adotamos tamb&#233;m um </span><strong><span>crit&#233;rio de exclus&#227;o</span></strong><span>:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>1. An&#250;ncios de terras localizadas fora do bioma Amaz&#244;nia. Exclu&#237;mos os an&#250;ncios de im&#243;veis localizados em estados que integram a Amaz&#244;nia Legal, mas est&#227;o situados na zona de transi&#231;&#227;o da floresta, como Mato Grosso, Maranh&#227;o e Tocantins. Nesses estados, &#233; comum a presen&#231;a de outros biomas nacionais, como o Cerrado, Caatinga e Pantanal, os quais n&#227;o eram objeto da investiga&#231;&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ap&#243;s a coleta dos an&#250;ncios considerados suspeitos, adotamos </span><strong><span>duas estrat&#233;gias</span></strong><span> para descobrir a localiza&#231;&#227;o do im&#243;vel e a identidade do indiv&#237;duo ou companhia por tr&#225;s da terra:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>1. Nos casos dos an&#250;ncios que continham informa&#231;&#245;es de geolocaliza&#231;&#227;o, como coordenadas geogr&#225;ficas, mapas ou dados de localiza&#231;&#227;o aproximada que permitissem a identifica&#231;&#227;o da &#225;rea, prosseguimos com a verifica&#231;&#227;o da sua situa&#231;&#227;o fundi&#225;ria por meio de consulta aos mapas do Cadastro Nacional de Florestas P&#250;blicas fornecidos pelo Servi&#231;o Florestal Brasileiro.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>2. Quando os an&#250;ncios n&#227;o continham informa&#231;&#245;es de geolocaliza&#231;&#227;o, adotamos como estrat&#233;gia contatar os corretores imobili&#225;rios respons&#225;veis pelas ofertas. Nesse processo, utilizamos o disfarce de assistente de um investidor estrangeiro interessado em comprar a &#225;rea &#224; venda. Essas conversas se resumiram ao envio de mensagens de apresenta&#231;&#227;o (tais como: &#8220;ol&#225;, sou o assistente do investidor X&#8221;) e perguntas sobre a disponibilidade da terra (se a oferta ainda estava ativa), assim como seu status documental. Al&#233;m disso, solicitamos acesso a documentos da terra e, quando isso foi negado, pedimos que, pelo menos, fossem compartilhados os arquivos geogr&#225;ficos compactados (kmz, shapefile, kml), se existentes. Durante as conversas, n&#227;o utilizamos nenhum documento falso para conferir veracidade &#224;s identidades do &#8220;investidor&#8221; e do seu &#8220;assistente&#8221;. Quando os corretores requisitaram o envio de carta de inten&#231;&#227;o de compra e/ou prova de fundo, recuamos. Al&#233;m disso, n&#227;o fizemos pedidos ou perguntas que levassem &#224; produ&#231;&#227;o de dados ou documentos falsos. Em todos os casos, checamos as datas de cria&#231;&#227;o dos arquivos/documentos compartilhados e consideramos apenas aqueles que foram criados antes do nosso contato.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Quest&#245;es &#233;ticas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Seguimos todos os protocolos &#233;ticos comumente adotados no uso do disfarce, uma pr&#225;tica reconhecida no jornalismo investigativo, e empregada em casos em que: 1. h&#225; forte interesse p&#250;blico; 2. em que o interesse na revela&#231;&#227;o dessas informa&#231;&#245;es supera o custo para obt&#234;-las; 3. e em que a informa&#231;&#227;o n&#227;o pode ser obtida por meios tradicionais (como entrevistas, an&#225;lise de imagens e pedidos de acesso &#224; informa&#231;&#227;o). O caso da ampla comercializa&#231;&#227;o de terras p&#250;blicas na Amaz&#244;nia brasileira, portanto, justificou o uso desse m&#233;todo.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Validade das ofertas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Para checar a validade das ofertas e garantir que elas n&#227;o eram golpes do tipo &#8220;</span><a href="https://en.wiktionary.org/wiki/I_have_a_bridge_to_sell_you"><span>eu tenho uma floresta para vender</span></a><span>&#8221;, confrontamos as informa&#231;&#245;es (tanto documentais, quanto de geolocaliza&#231;&#227;o da terra) para confirmar que se tratava de uma &#225;rea p&#250;blica usurpada. &#201; importante ressaltar que, no Brasil, a grilagem de terras &#233; compreendida como um fen&#244;meno com duas dimens&#245;es&#179;, as quais compreendem a falsifica&#231;&#227;o de documentos e a invas&#227;o f&#237;sica da terra.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Conversamos com, ao menos, cinco especialistas em Direito Agr&#225;rio e Ambiental para confirmar se a metodologia estava bem fundamentada em rela&#231;&#227;o &#224;s leis e &#224; literatura acad&#234;mica sobre o tema, assim como verificar a possibilidade da exist&#234;ncia de milh&#245;es de hectares de terras p&#250;blicas sendo negociadas online, visto que este &#233; o achado que atende ao primeiro objetivo dessa investiga&#231;&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Na sequ&#234;ncia, pedimos &#224; ONG Center for Climate Crime Analysis (CCCA) para confirmar se as &#225;reas consideradas p&#250;blicas pela nossa checagem estavam, de fato, sobrepostas a terras p&#250;blicas. O CCCA, ent&#227;o, confirmou essa sobreposi&#231;&#227;o para o total de 5 milh&#245;es de hectares, relacionados a 39 an&#250;ncios com 46 im&#243;veis (um mesmo an&#250;ncio pode conter mais de uma oferta de im&#243;vel). Na checagem, foram eliminados os casos de im&#243;veis que apresentavam sobreposi&#231;&#227;o entre si para evitar dupla contagem. Isso ocorre quando diferentes corretores anunciam o mesmo im&#243;vel ou quando h&#225; disputa pela terra e duas ou mais partes est&#227;o tentando vend&#234;-la. No processo, tamb&#233;m foram verificados os cadastros associados aos im&#243;veis coletados na base do Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (Sicar).</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Tipo de sobreposi&#231;&#227;o</span></strong><span>: Nessa an&#225;lise, consideramos im&#243;veis com sobreposi&#231;&#227;o total e parcial a terras p&#250;blicas.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Intervalo de publica&#231;&#227;o</span></strong><span>: Coletamos an&#250;ncios publicados entre junho de 2021 e outubro de 2025.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Conex&#245;es com outras economias</span></strong><span>: a an&#225;lise das &#225;reas dos im&#243;veis permitiu &#224; equipe identificar as atividades econ&#244;micas praticadas na terra, como cria&#231;&#227;o de gado e a minera&#231;&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Inclu&#237;mos na amostra ainda outros 73 an&#250;ncios que consideramos fortemente suspeitos, mas para os quais n&#227;o conseguimos obter informa&#231;&#245;es que, ou comprovassem a validade da oferta, ou permitissem confirmar a sobreposi&#231;&#227;o do im&#243;vel a alguma terra p&#250;blica. Os casos fortemente suspeitos somam 4,6 milh&#245;es de hectares.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao todo, dentre an&#250;ncios com sobreposi&#231;&#227;o confirmada e ofertas com sobreposi&#231;&#227;o pendente de confirma&#231;&#227;o, chegamos ao n&#250;mero de 112 an&#250;ncios distribu&#237;dos por v&#225;rias plataformas. No total, coletamos 212 an&#250;ncios suspeitos com &#225;reas maiores que 2.500 hectares, mas 100 deles foram exclu&#237;dos da base de dados ap&#243;s se constatar que as terras ou eram privadas ou n&#227;o apresentavam ind&#237;cios suficientes que justificassem a sua inclus&#227;o na amostra de casos suspeitos (como apenas um sinal de queimada recente).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Por &#8220;terra p&#250;blica&#8221;, consideramos todos os tr&#234;s tipos de florestas p&#250;blicas listados pelo Servi&#231;o Florestal Brasileiro, conforme Resolu&#231;&#227;o SFB n&#176; 02/2007.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Informa&#231;&#245;es adicionais, como o status fundi&#225;rio de terras ind&#237;genas em processo de homologa&#231;&#227;o e assentamentos de reforma agr&#225;ria, foram obtidas via Lei de Acesso &#224; Informa&#231;&#227;o e por meio de consulta ao Cadastro Nacional de Florestas P&#250;blicas (CNFP) mantido pelo Sistema Florestal Brasileiro.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Notas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>1. Pacheco, A., Meyer, C. Land tenure drives Brazil&#8217;s deforestation rates across socio-environmental contexts. Nat Commun 13, 5759 (2022). </span><a href="https://doi.org/10.1038/s41467-022-33398-3"><span>https://doi.org/10.1038/s41467-022-33398-3</span></a><span> <br>Moutinho, P., Azevedo-Ramos, C. Untitled public forestlands threaten Amazon conservation. Nat Commun 14, 1152 (2023). </span><a href="https://doi.org/10.1038/s41467-023-36427-x"><span>https://doi.org/10.1038/s41467-023-36427-x</span></a></p><p style="text-align: justify;">2. Ano para o qual os dados de desmatamento mais recentes estavam dispon&#237;veis quando iniciamos o trabalho em dezembro de 2023.</p><p style="text-align: justify;"><span>3. BRASIL. Minist&#233;rio do Meio Ambiente. A grilagem de terras p&#250;blicas na Amaz&#244;nia brasileira. Bras&#237;lia, DF: Minist&#233;rio do Meio Ambiente, 2006.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Comentários]]></title><description><![CDATA[Coment&#225;rios enviados pelas partes citadas nas reportagens]]></description><link>https://subsolojornalismo.substack.com/p/direitos-de-resposta</link><guid isPermaLink="false">https://subsolojornalismo.substack.com/p/direitos-de-resposta</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Martins]]></dc:creator><pubDate>Sun, 09 Aug 2026 15:05:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5SfG!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F24f4d0e5-9164-42b7-91d4-13f69e58a4b7_1280x1280.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Abaixo, listamos as respostas completas enviadas pelas partes mencionadas nos cap&#237;tulos 4 e 5 da s&#233;rie. Para as outras reportagens, os pedidos de coment&#225;rios n&#227;o resultaram no envio de respostas longas que dificutassem sua inclus&#227;o integral no texto.</p><h3 style="text-align: center;"><strong>Cap&#237;tulo 4</strong>: </h3><p style="text-align: justify;"><strong>4.A-</strong> <strong>Guilherme Willi Aggens</strong></p><p style="text-align: justify;">&#8220;Agrade&#231;o o contato e a oportunidade de resposta. Antes das respostas numeradas, contextualizo minha atua&#231;&#227;o: trabalho com regulariza&#231;&#227;o ambiental e mineral de atividades de explora&#231;&#227;o mineral, requerimentos de Permiss&#227;o de Lavra Garimpeira, pesquisa mineral, registro de licen&#231;a e respectivo licenciamento ambiental, atuando, mediante procura&#231;&#227;o, como representante legal de titulares junto &#224; Ag&#234;ncia Nacional de Minera&#231;&#227;o (ANM) e aos &#243;rg&#227;os ambientais competentes, conforme exigido pelas normas do setor. Trata-se de atividade t&#233;cnica e regular, com atua&#231;&#227;o concentrada na regi&#227;o do Tapaj&#243;s e, pontualmente, em outras localidades.&#8221;</p><p style="text-align: justify;"><strong>Quest&#245;es</strong>:<br><strong><span>1.</span></strong><span> </span><strong><span>O senhor confirma ter conduzido, por meio de procura&#231;&#227;o, o processo de solicita&#231;&#227;o da Permiss&#227;o de Lavra Garimpeira (PLG) de Ivanildo Canuto Soares (SEI 48059.850196/2020-99, Processo 850196, Requerimento 1104062) junto &#224; Ag&#234;ncia Nacional de Minera&#231;&#227;o (ANM), protocolado em mar&#231;o de 2020 e concedido em agosto do mesmo ano?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Resposta</span></strong><span>: </span>Sim, confirmo. Atuei, mediante procura&#231;&#227;o, na organiza&#231;&#227;o da documenta&#231;&#227;o e no protocolo do requerimento de Permiss&#227;o de Lavra Garimpeira em nome do Sr. Ivanildo Canuto Soares junto &#224; ANM, em 2020.</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>2.</span></strong><span> </span><strong><span>O senhor foi remunerado por ter atuado como representante legal de Ivanildo nesse processo espec&#237;fico?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Resposta:</span></strong><span> </span>Fui remunerado pelo servi&#231;o t&#233;cnico de elabora&#231;&#227;o do requerimento junto &#224; ANM. A atua&#231;&#227;o como representante legal &#233; inerente a esse servi&#231;o: o requerimento deve ser apresentado pelo titular ou por representante legalmente constitu&#237;do e, por se tratar de procedimento t&#233;cnico, realizado por sistema eletr&#244;nico e fora do dom&#237;nio da maioria dos titulares, &#233; praxe que o requerimento seja feito integralmente pelo consultor, mediante procura&#231;&#227;o, em vez da simples entrega das pe&#231;as t&#233;cnicas ao titular para que ele mesmo fa&#231;a o protocolo junto a ANM.</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>3.</span></strong><span> </span><strong><span>Na &#233;poca em que atuou nesse processo, o senhor tinha conhecimento de que Ivanildo era considerado foragido pela Justi&#231;a?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Resposta:</span></strong><span> </span>N&#227;o tinha conhecimento. A legisla&#231;&#227;o miner&#225;ria n&#227;o exige certid&#227;o de antecedentes criminais do titular para requerimento de PLG, e essa informa&#231;&#227;o n&#227;o integra a documenta&#231;&#227;o apresentada &#224; ANM. Tomei conhecimento do fato por meio deste contato.</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>4.</span></strong><span> </span><strong><span>Como o senhor conheceu Ivanildo?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Resposta</span></strong><span>: </span>N&#227;o me recordo de como se deu o primeiro contato. Acredito que tenha sido por indica&#231;&#227;o de terceiros do setor, como &#233; praxe: n&#227;o fa&#231;o publicidade dos meus servi&#231;os, e novos clientes chegam, via de regra, por indica&#231;&#227;o de clientes j&#225; atendidos, em raz&#227;o da representatividade constru&#237;da no setor na regi&#227;o.</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>5.</span></strong><span> </span><strong><span>Que tipo de rela&#231;&#227;o profissional h&#225; entre o senhor e Ivanildo?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Resposta</span></strong><span>: </span>Atualmente, nenhuma. A presta&#231;&#227;o de servi&#231;os foi pontual, limitada &#224;s etapas contratadas em 2020, sem contrato de presta&#231;&#227;o continuada nem responsabilidade t&#233;cnica permanente. Conclu&#237;dos os servi&#231;os, n&#227;o houve mais contato.</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>6.</span></strong><span> </span><strong><span>De acordo com reportagens da </span></strong><em><strong><span>Folha de S. Paulo</span></strong></em><strong><span>, Ag&#234;ncia P&#250;blica e Rep&#243;rter Brasil, o senhor atuaria como lobista pr&#243;-garimpo em Bras&#237;lia. O senhor reconhece essa atua&#231;&#227;o?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Resposta</span></strong><span>: </span>N&#227;o reconhe&#231;o a caracteriza&#231;&#227;o de &#8220;lobista&#8221;, que considero equivocada e de conota&#231;&#227;o pejorativa. O que existe &#233; atua&#231;&#227;o t&#233;cnica e institucional, sempre p&#250;blica, transparente e por canais oficiais: j&#225; participei de audi&#234;ncia p&#250;blica na C&#226;mara dos Deputados sobre a atualiza&#231;&#227;o da legisla&#231;&#227;o miner&#225;ria e de reuni&#245;es na ANM, seja no interesse de clientes determinados, seja para contribuir, com base na experi&#234;ncia na regulariza&#231;&#227;o da atividade na regi&#227;o do Tapaj&#243;s, em discuss&#245;es sobre o aperfei&#231;oamento das normas do setor. Toda essa atua&#231;&#227;o diz respeito exclusivamente &#224; atividade miner&#225;ria legalizada, defender os interesses de clientes dentro da lei &#233; precisamente o papel de um consultor.</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>7.</span></strong><span> </span><strong><span>De acordo com reportagem da </span></strong><em><strong><span>Folha</span></strong></em><strong><span>, o senhor &#233; representante legal de um dos &#250;nicos garimpos autorizados pela ANM em Roraima, a cerca de 30km de dist&#226;ncia da Terra Ind&#237;gena Yanomami. O senhor pode detalhar o volume e a natureza dos servi&#231;os que presta a titulares de PLGs na Amaz&#244;nia, como:</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Resposta: </strong>Sim, atuo como representante legal em processos miner&#225;rios em diferentes estados. Desde que a ANM passou a operar por sistemas eletr&#244;nicos, os requerimentos podem ser protocolados de qualquer localidade, e presto esse servi&#231;o em qualquer lugar do Brasil a titulares que me procuram e apresentam a documenta&#231;&#227;o exigida, nos termos das normas da ANM.</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>a)</span></strong><span> </span><strong><span>em quantos processos o senhor figura ou j&#225; figurou como representante legal?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Resposta: </strong>N&#227;o disponho desse levantamento consolidado.</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>b)</span></strong><span> </span><strong><span>para quantos clientes diferentes o senhor j&#225; atuou como representante legal?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Resposta:</span></strong><span> Tamb&#233;m n&#227;o disponho desse n&#250;mero consolidado. Atuo na &#225;rea h&#225; quase dez anos e prestei servi&#231;os a diversos clientes nesse per&#237;odo.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>8.</span></strong><span> </span><strong><span>H&#225; alguma informa&#231;&#227;o que o senhor gostaria de acrescentar?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Resposta</strong>: Apenas reitero que os servi&#231;os que presto consistem em consultoria t&#233;cnica para regulariza&#231;&#227;o mineral e ambiental, desenvolvida em conformidade com a legisla&#231;&#227;o vigente.</p><p style="text-align: justify;">Por fim, a utiliza&#231;&#227;o de qualquer trecho desta resposta na reportagem fica condicionada &#224; reprodu&#231;&#227;o integral da resposta correspondente, sem cortes ou edi&#231;&#245;es. N&#227;o autorizo o uso parcial ou editado de minhas declara&#231;&#245;es.</p><h3 style="text-align: center;"><strong>Cap&#237;tulo 5: </strong></h3><p style="text-align: justify;"><strong>5.A - Marco Ant&#244;nio de Melo</strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>1.</span></strong><span> </span><strong><span>Durante a liga&#231;&#227;o, o senhor mencionou ter uma fazenda de 145 mil hectares, localizada no estado do Amazonas, que n&#227;o poderia ser vendida agora porque a sua matr&#237;cula havia sido bloqueada, em 2024, pela Corregedoria de Justi&#231;a do Estado. Segundo o Instituto Nacional de Coloniza&#231;&#227;o e Reforma Agr&#225;ria (INCRA), a matr&#237;cula desse im&#243;vel &#233; &#8220;indevida, irregular e viciada&#8221;. A &#225;rea onde o im&#243;vel est&#225; localizado teria sido incorporada ao patrim&#244;nio da Uni&#227;o em 1982 e, sobre ela, foi criado o Projeto Agroextrativista Aripuan&#227;-Guariba, em 2005. No momento da aquisi&#231;&#227;o do im&#243;vel, em 2009, o senhor tinha ci&#234;ncia dessa situa&#231;&#227;o? O senhor tem algum documento que comprove que essa &#225;rea &#233; uma propriedade particular, e n&#227;o um bem p&#250;blico?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Resposta: </span></strong><span>Sou adquirente de boa-f&#233;. Tudo consta na certid&#227;o de inteiro teor, tendo o cart&#243;rio confirmado a legitimidade do im&#243;vel. N&#227;o existe nenhuma informa&#231;&#227;o oficial de irregularidade, apenas dois erros de digita&#231;&#227;o em duas palavras, os quais n&#227;o alteram a sua ess&#234;ncia e cuja corre&#231;&#227;o j&#225; foi solicitada.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Servidores do INCRA parecem ter interpretado esses lapsos como irregularidade, divulgando informa&#231;&#245;es pautadas em meras suposi&#231;&#245;es.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; imperativo registrar que, at&#233; o presente momento, n&#227;o existe qualquer documento oficial de cancelamento, declara&#231;&#227;o de irregularidade definitiva ou nulidade contra o t&#237;tulo da Fazenda Floresta Amaz&#244;nica. O que vigora &#233; um procedimento administrativo de fiscaliza&#231;&#227;o de car&#225;ter generalizado, e n&#227;o uma san&#231;&#227;o espec&#237;fica direcionada a essa propriedade.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O &#250;nico ato oficial que incide sobre a &#225;rea &#233; o Provimento n&#186; 464/2024 da Corregedoria-Geral de Justi&#231;a do Amazonas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Bloqueio Cautelar: O documento determina o bloqueio cautelar das matr&#237;culas acima de 50.000 hectares em munic&#237;piosespec&#237;ficos (incluindo Apu&#237;). Trata-se de uma medida administrativa preventiva para que a Divis&#227;o de Fiscaliza&#231;&#227;o e Controle Extrajudicial valide as cadeias dominiais de forma ampla em toda a regi&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Presun&#231;&#227;o de Legitimidade: O provimento n&#227;o atesta irregularidade na Fazenda Floresta Amaz&#244;nica, n&#227;o cancelaseu t&#237;tulo e n&#227;o interrompe a validade de projeto de cr&#233;dito de carbono (REDD+) em vigor.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Distin&#231;&#227;o entre Fiscaliza&#231;&#227;o e Irregularidade:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A distin&#231;&#227;o t&#233;cnica &#233; fundamental: o &#8220;bloqueio para averigua&#231;&#227;o&#8221; &#233; um instrumento de cautela do Estado &#8212; umapausa para valida&#231;&#227;o documental. A &#8220;irregularidade&#8221;, por sua vez, s&#243; existiria ap&#243;s a conclus&#227;o de um processo administrativo com tr&#226;nsito em julgado e comprova&#231;&#227;o de falhas, o que n&#227;o ocorreu oficialmente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>IMPORTANTE:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Inclusive, foi apresentada ao INCRA, em 2021, toda a documenta&#231;&#227;o do im&#243;vel: t&#237;tulo de origem de 1841, certid&#227;ocenten&#225;ria de inteiro teor, CAR, ADA e ITR. Ap&#243;s an&#225;lise detalhada, a equipe do INCRA emitiu o CCIR e recomendou expressamente &#8212; em reuni&#227;o presencial com a diretoria &#8212; a realiza&#231;&#227;o do Georreferenciamento (GEO) para desvincular o Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) da Fazenda Floresta Amaz&#244;nica.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em 2024, assim que poss&#237;vel, efetuei o pagamento de R$ 300.000,00 &#224; empresa Amazon para a presta&#231;&#227;o dos servi&#231;os </span><em><span>in loco</span></em><span> e a elabora&#231;&#227;o do projeto de certifica&#231;&#227;o do GEO. O processo encontra-se, no momento, aguardando o desbloqueio cautelar para dar sequ&#234;ncia ao tr&#226;mite. Fica assegurado o direito &#224; propriedade por se tratar de im&#243;vel particular desde 1841, sem nenhuma ressalva em toda a cadeia dominial confirmada por certid&#227;o cartor&#225;ria.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#192; &#233;poca em que adquiri a propriedade por meio de uma negocia&#231;&#227;o, solicitei informa&#231;&#245;es ao INCRA e ao IPAAM referentes &#224; regi&#227;o da Faz. Floresta Amaz&#244;nica. Na ocasi&#227;o, foi fornecido um mapa que atestava a regularidade do im&#243;vel, tratando-se de uma propriedade particular cuja origem remonta a 1841, conforme a certid&#227;o apresentada. Diante disso, assegura-se o direito de posse/propriedade a todas as &#225;reas com origem anterior &#224; cria&#231;&#227;o do PAE. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>Com certeza. A legitimidade do im&#243;vel consta expressamente na certid&#227;o de inteiro teor e foi confirmada pelo cart&#243;rio no uso de sua f&#233; p&#250;blica, j&#225; que o tabeli&#227;o/registrador atua por delega&#231;&#227;o do Poder P&#250;blico.</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Nota: O titular do cart&#243;rio (tabeli&#227;o ou registrador) &#233; um agente delegado, aprovado em concurso p&#250;blico,que recebe do Estado a atribui&#231;&#227;o de exercer essa fun&#231;&#227;o p&#250;blica de forma aut&#244;noma. </span></em><span>[destaque feito pelo respondente]</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>2.</span></strong><span> </span><strong><span>A reportagem verificou que o im&#243;vel conhecido como S&#227;o Domingos, com 32 mil hectares, e que o senhor colocou &#224; venda no site Mercado de Terras, est&#225; totalmente sobreposto &#224; Floresta Nacional Mapi&#225; Inauini, uma unidade de conserva&#231;&#227;o. No Plano de Manejo da Flona consta a informa&#231;&#227;o de que a Corregedoria de Justi&#231;a do Estado do Amazonas cancelou todos os registros de im&#243;veis sobre a reserva em dezembro de 2001 atrav&#233;s do Provimento 16/2001, incluindo o do im&#243;vel S&#227;o Domingos. O senhor estava ciente dessa situa&#231;&#227;o quando colocou esse im&#243;vel &#224; venda?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Resposta:</strong> <span>Existem as propriedades S&#227;o Domingos, S&#227;o Domingos 1 e S&#227;o Domingos 2.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tenho conhecimento da minha propriedade, que &#233; a S&#227;o Domingos 2, e n&#227;o a S&#227;o Domingos. Com rela&#231;&#227;o &#224; minha,EST&#193; NORMAL sem nenhuma informa&#231;&#227;o do cart&#243;rio sobre qualquer cancelamento.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para que uma &#225;rea tenha o seu espa&#231;o garantido, a sua origem deve ser anterior &#224; cria&#231;&#227;o da Unidade de Conserva&#231;&#227;o.A S&#227;o Domingos 2, por exemplo, &#233; cerca de 70 anos mais antiga do que essa Unidade de Conserva&#231;&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>3.</span></strong><span> </span><strong><span>Durante a liga&#231;&#227;o, o senhor recomendou cautela na hora de comprar terras no estado Amazonas dado o risco de se adquirir uma terra indocumentada, mas afirmou que as suas pr&#243;prias terras n&#227;o teriam esse problema. Diante da situa&#231;&#227;o dos im&#243;veis Fazenda Floresta Amaz&#244;nica e S&#227;o Domingos, o senhor mant&#233;m a posi&#231;&#227;o de que as suas &#225;reas n&#227;o t&#234;m problema com documenta&#231;&#227;o?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Resposta</strong>: Na condi&#231;&#227;o de terceiro de boa-f&#233;, disponho de informa&#231;&#245;es oficiais prestadas pelos cart&#243;rios, dotadas de f&#233;p&#250;blica, que atestam a plena regularidade dos im&#243;veis.</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>4. Dado que o senhor recomendou cautela em rela&#231;&#227;o &#224;s muitas terras indocumentadas no estado do Amazonas, o senhor teve essa mesma cautela ao adquirir suas fazendas na regi&#227;o?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Resposta</strong>: Sim, sempre fiz as aquisi&#231;&#245;es corretamente, na condi&#231;&#227;o de terceiro de boa-f&#233; e seguindo rigorosamente as confirma&#231;&#245;es cartor&#225;rias dotadas de f&#233; p&#250;blica.</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>5.</span></strong><span> </span><strong><span>Dados p&#250;blicos da empresa Brasil Mata Viva mostram que a Fazenda Floresta Amaz&#244;nica gerou, entre junho de 2018 e abril de 2024, 8.075 Unidades de Cr&#233;dito de Sustentabilidade (UCS), com um rendimento de 1,17 milh&#227;o de reais. O senhor confirma ter recebido parte da receita dessas vendas?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Resposta</strong>: No projeto BMV, possuo 3 fazendas e recebi aproximadamente R$ 21.000,00, divididos em v&#225;rias fra&#231;&#245;es. A BMVn&#227;o efetuou o pagamento na propor&#231;&#227;o que me cabia por direito.</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>6.</span></strong><span> </span><strong><span>Quando a Fazenda Floresta Amaz&#244;nica come&#231;ou a gerar UCS da Brasil Mata Viva?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Resposta</strong>: SOMENTE GEROU A SAFRA 2010, e antes do in&#237;cio do projeto, toda a documenta&#231;&#227;o foi apresentada e devidamente APROVADA pela equipe jur&#237;dica da BMV.</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>7.</span></strong><span> </span><strong><span>Al&#233;m das 8.075 ucs vendidas atrav&#233;s da plataforma Tesouro Verde, o senhor reconhece outras vendas de ucs geradas pelo im&#243;vel Fazenda Floresta Amaz&#244;nica por meio de outras plataformas ou na forma de C&#233;dula de Produto Rural Verde (CPR verde) ou Fundo de Investimento em Direitos Credit&#243;rios (FIDC)?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Resposta</strong>: N&#195;O</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>8.</span></strong><span> </span><strong><span>&#192; revista Globo Rural, o senhor negou qualquer venda de Greener Preservation Tokens (GPT) vinculados &#224; Fazenda Floresta Amaz&#244;nica e disse nunca ter autorizado a comercializa&#231;&#227;o de ativos gerados a partir dela. A Greener, no entanto, afirmou &#224; revista que efetuou uma venda &#250;nica de gpt no valor de 6 mil d&#243;lares. Como o senhor explica essa diferen&#231;a entre as duas vers&#245;es dadas &#224; revista?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Resposta</strong>: <span>Reitero n&#227;o recebi nada.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>As informa&#231;&#245;es passadas pela Greener &#224; imprensa s&#227;o de que foi uma permuta, e n&#227;o uma venda, segundo o diretorda empresa.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>9.</span></strong><span> </span><strong><span>Na liga&#231;&#227;o, o senhor mencionou um s&#243;cio que teria investido R$ 20 milh&#245;es no projeto de cr&#233;ditos de carbono, com o adiantamento de R$ 15 milh&#245;es, e que seria s&#243;cio de um banco de propriedade do filho dele. O senhor confirma que esse s&#243;cio &#233; Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Resposta</strong>: <span>SEMPRE TRATEI SOMENTE como estruturador chamado Jos&#233; Ant&#244;nio Bitencourt, em 2022, que prop&#244;s criar um projetopara novas safras depois da safra 2010 BMV, e afirmou ter um investidor para isso; at&#233; aquele momento, eu n&#227;o sabia de quem se tratava.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Logo firmei o PRIMEIRO contrato com o Sr. Jos&#233; Ant&#244;nio Bitencourt, no qual constavam as condi&#231;&#245;es do projeto.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Um tempo depois, ele me informou que o investidor seria Henrique Vorcaro. Nessa fase, houve uma propostapara ter direito &#224; op&#231;&#227;o de compra futura, para isso um ARRAS de R$ 15 milh&#245;es. Aceitei a condi&#231;&#227;o, mas, no momento de assinar o contrato, que j&#225; veio pronto do Sr. Jos&#233; Ant&#244;nio, constava nesse aditivo ALIANCE PARTICIPA&#199;&#213;ES com assinatura de Nat&#225;lia Vorcaro.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;A partir dessa ocasi&#227;o, tomei conhecimento de que o Sr. Henrique figurava como s&#243;cio indireto do projeto. Sempresoube que o Sr. Henrique Vorcaro &#233; uma pessoa id&#244;nea e propriet&#225;rio de diversas empresas. Ressalto que meu contato sempre ocorreu por meio do Sr. Jos&#233; Antonio e via telefone.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>10.</span></strong><span> </span><strong><span>Na chamada, o senhor demonstrou entusiasmo com um projeto de cr&#233;ditos de carbono &#8220;bem sucedido&#8221; que lhe renderia R$ 2,6 bilh&#245;es. O senhor ainda est&#225; animado com esse projeto? O senhor recebeu mais alguma quantia al&#233;m dos R$ 15 milh&#245;es?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Resposta</strong>: Se as UECs fossem vendidas, sim; por&#233;m, tratava-se apenas de uma avalia&#231;&#227;o para futuras vendas.</p><p style="text-align: justify;">O projeto n&#227;o est&#225; totalmente estruturado, por&#233;m estamos aguardando a consolida&#231;&#227;o do georreferenciamento.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;O senhor recebeu mais alguma quantia al&#233;m dos R$ 15 milh&#245;es?&#8221; N&#227;o</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>11.</span></strong><span> </span><strong><span>Reportagem da </span></strong><em><strong><span>Folha de S. Paulo</span></strong></em><strong><span> informa que a Alliance Participa&#231;&#245;es, presidida por Henrique Vorcaro, estava solicitando os R$ 15 milh&#245;es de volta. O senhor devolveu esse dinheiro? Como est&#225; essa situa&#231;&#227;o com a Alliance e a fam&#237;lia Vorcaro?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Resposta</strong>: N&#227;o foi solicitado e nem poderia ser, por se tratar de um sinal (ou arras).</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Como est&#225; essa situa&#231;&#227;o com a Alliance e a fam&#237;lia Vorcaro?&#8221; <span>N&#227;o tenho essa informa&#231;&#227;o, mas acredito que n&#227;o estejam bem devido &#224; situa&#231;&#227;o das pris&#245;es.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Meu contato sempre foi com o Sr. Jos&#233; Ant&#244;nio Bitencourt.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>12.</span></strong><span> </span><strong><span>H&#225; alguma informa&#231;&#227;o que o senhor gostaria de acrescentar?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Resposta</strong>: <span>Sim,</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; importante ressaltar que sempre fiz as aquisi&#231;&#245;es corretamente, na condi&#231;&#227;o de terceiro de boa-f&#233; e seguindo rigorosamente as confirma&#231;&#245;es cartor&#225;rias dotadas de f&#233; p&#250;blica.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Quanto ao projeto realizado na Fazenda Floresta Amaz&#244;nica, tudo foi conduzido pelo estruturador Jos&#233; Ant&#244;nio Bitencourt; minha participa&#231;&#227;o restringiu-se &#224; disponibiliza&#231;&#227;o da fazenda.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Cabe informar tamb&#233;m que, antes do in&#237;cio de qualquer projeto, toda a documenta&#231;&#227;o foi apresentada e devidamente aprovada pelas equipes jur&#237;dicas dos contratantes.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong>5.B - DaX Green </strong></p><p style="text-align: justify;">Nota enviada pelo ex-CEO Claudio Olimpio:</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Prezado Ruan,</p><p>Agrade&#231;o o contato e a oportunidade de prestar os esclarecimentos antes da publica&#231;&#227;o.</p><p>Deixei de exercer qualquer fun&#231;&#227;o na DAX h&#225; mais de um ano e, desde ent&#227;o, sigo dedicado a outras atividades empresariais. Assim, minhas manifesta&#231;&#245;es se limitam aos fatos, documentos e informa&#231;&#245;es aos quais tive acesso durante o per&#237;odo em que atuei na empresa, n&#227;o representando posicionamento sobre eventuais atos ou opera&#231;&#245;es posteriores ao meu desligamento.</p><p>A DAX prestou servi&#231;os de desenvolvimento tecnol&#243;gico voltados &#224; estrutura&#231;&#227;o e tokeniza&#231;&#227;o de ativos ambientais. Essa atividade foi desenvolvida no &#226;mbito da iniciativa denominada Projeto Greener. A empresa n&#227;o desenvolvia projetos de carbono, n&#227;o emitia cr&#233;ditos de carbono e n&#227;o exercia atividades de certifica&#231;&#227;o ambiental.</p><p>No curso do Projeto Greener surgiram apontamentos relacionados &#224; regularidade fundi&#225;ria da &#225;rea mencionada em sua apura&#231;&#227;o. Diante desses questionamentos, todas as atividades relacionadas ao projeto envolvendo essa &#225;rea foram imediatamente suspensas. Posteriormente, o Projeto Greener foi descontinuado e, conforme as informa&#231;&#245;es de que disponho, a DAX tamb&#233;m encerrou sua atua&#231;&#227;o no segmento de tokeniza&#231;&#227;o de ativos ambientais, n&#227;o desenvolvendo atualmente qualquer atividade nessa &#225;rea.</p><p>No contexto desse encerramento, toda e qualquer vincula&#231;&#227;o remanescente entre as iniciativas relacionadas ao Projeto Greener e a &#225;rea objeto dos apontamentos foi eliminada mediante a utiliza&#231;&#227;o de ativos ambientais oriundos de projeto certificado pelo padr&#227;o Verra, sem qualquer rela&#231;&#227;o com a &#225;rea objeto da reportagem, conforme demonstram os documentos anexos.</p><p>At&#233; onde alcan&#231;a meu conhecimento, nenhum GPT vinculado &#224; &#225;rea objeto da reportagem foi comercializado.</p><p>O certificado de compensa&#231;&#227;o mencionado em sua apura&#231;&#227;o decorre desse procedimento e n&#227;o corresponde ao projeto questionado. Conforme demonstram os documentos anexos, a compensa&#231;&#227;o foi realizada mediante cr&#233;ditos de carbono provenientes de projeto certificado pelo padr&#227;o Verra, com origem, identifica&#231;&#227;o e n&#250;meros de s&#233;rie pr&#243;prios, sem qualquer vincula&#231;&#227;o com a &#225;rea objeto da reportagem.</p><p>Quanto ao repasse realizado &#224; associa&#231;&#227;o mencionada, o pagamento decorreu de compromisso formalmente assumido pela DAX, conforme documenta&#231;&#227;o comprobat&#243;ria igualmente anexada. O cumprimento dessa obriga&#231;&#227;o n&#227;o constitui comprova&#231;&#227;o de comercializa&#231;&#227;o de GPTs vinculados &#224; &#225;rea questionada.</p><p>Por fim, desconhe&#231;o qualquer v&#237;nculo, opera&#231;&#227;o ou rela&#231;&#227;o envolvendo os demais nomes, empresas e institui&#231;&#245;es mencionados na apura&#231;&#227;o, al&#233;m das rela&#231;&#245;es contratuais e documentais &#224;s quais tive acesso durante minha atua&#231;&#227;o na empresa. Tamb&#233;m n&#227;o disponho de informa&#231;&#245;es societ&#225;rias, financeiras ou operacionais relativas ao per&#237;odo posterior ao meu desligamento.</p><p>Permane&#231;o &#224; disposi&#231;&#227;o para esclarecer eventuais d&#250;vidas adicionais relacionadas aos fatos e documentos de que tenho conhecimento.</p><p>Atenciosamente,&#8221;</p><p><strong>5.C UNESP</strong></p><p><strong><span>1.</span></strong><span> </span><strong><span>A UNESP possui (ou possuiu) algum contrato formal, conv&#234;nio ou acordo de coopera&#231;&#227;o com a Brasil Mata Viva (BMV) ou com o IMEI Consultoria e Treinamentos Empresariais para valida&#231;&#227;o de metodologia de gera&#231;&#227;o de Unidades de Cr&#233;dito de Sustentabilidade (UCS) do im&#243;vel Fazenda Floresta Amaz&#244;nica, em Apu&#237;?</span></strong></p><p><strong>Resposta: </strong>A Unesp estabeleceu, em 2013, um contrato com a IMEI Consultoria e Treinamentos Empresariais LTDA., cujo objeto era o licenciamento n&#227;o exclusivo, unicamente para atua&#231;&#227;o no territ&#243;rio brasileiro, do uso da metodologia para aferi&#231;&#227;o e valida&#231;&#227;o dos resultados da aplica&#231;&#227;o do Padr&#227;o Brasil Mata Viva de Quantifica&#231;&#227;o de Carbono Estocado e Biomassa Vegetal. Em 2019, foi firmado outro contrato de transfer&#234;ncia de know-how e coopera&#231;&#227;o com a IMEI Consultoria e Treinamentos Empresariais LTDA. Nesta oportunidade, o objeto era a formaliza&#231;&#227;o da operacionaliza&#231;&#227;o das vendas dos ativos ambientais, por meio das plataformas eletr&#244;nicas de distribui&#231;&#227;o dos Ativos, designados pela IMEI.</p><p style="text-align: justify;"><strong><span>2.</span></strong><span> </span><strong><span>A universidade participou da valida&#231;&#227;o metodol&#243;gica de projeto de cr&#233;ditos de carbono (ou cr&#233;ditos de estoque de carbono) desenvolvidos pela Alliance Participa&#231;&#245;es em parceria com o empres&#225;rio Marco Ant&#244;nio de Melo, pretenso detentor do im&#243;vel Fazenda Floresta Amaz&#244;nica?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Resposta: </span></strong><span>A Unesp n&#227;o firmou e n&#227;o mant&#233;m contratos ou conv&#234;nios para valida&#231;&#227;o de metodologias de cr&#233;dito de carbono ou de gera&#231;&#227;o de unidades de cr&#233;dito de sustentabilidade para a Alliance Participa&#231;&#245;es ou o empres&#225;rio Marco Ant&#244;nio de Melo, no im&#243;vel Fazenda Floresta Amaz&#244;nica. A Universidade tampouco autorizou que outros servidores o fizessem, nem autorizou o uso do nome Unesp para chancelar qualquer forma de presta&#231;&#227;o de servi&#231;os.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>3.</span></strong><span> </span><strong><span>A universidade tem conhecimento ou concedeu autoriza&#231;&#227;o formal e institucional para que a BMV, a Alliance ou Marco Ant&#244;nio de Melo utilizem o nome da universidade como institui&#231;&#227;o validadora de seus respectivos projetos?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Resposta: </span></strong><span>A Unesp reconhece, entretanto, a exist&#234;ncia de pesquisas desenvolvidas na institui&#231;&#227;o sobre o tema, mas n&#227;o identificou os requisitos legais e t&#233;cnicos m&#237;nimos vigentes no pa&#237;s para o requerimento de propriedade intelectual decorrente dessas pesquisas. Dessa forma, a Unesp n&#227;o fez nenhum tipo de requerimento de prote&#231;&#227;o de propriedade intelectual; consequentemente, o conhecimento cient&#237;fico gerado &#233; de dom&#237;nio p&#250;blico. Refor&#231;amos ainda que a Unesp n&#227;o mant&#233;m nenhum ativo de propriedade intelectual relativo &#224;s metodologias de medi&#231;&#227;o do estoque de carbono ou de gera&#231;&#227;o de unidades de cr&#233;dito de sustentabilidade. Se algum servidor utilizou o nome da Unesp para a presta&#231;&#227;o de servi&#231;os de consultoria sem a anu&#234;ncia e sem o tr&#226;mite interno de aprova&#231;&#227;o dessas atividades, a Universidade possui mecanismos internos de averigua&#231;&#227;o desse tipo de conduta.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>4.</span></strong><span> </span><strong><span>A UNESP possui diretrizes internas que normatizam a participa&#231;&#227;o de seus pesquisadores em consultorias comerciais voltadas &#224; gera&#231;&#227;o de ativos ambientais em terras com pend&#234;ncias fundi&#225;rias?</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Resposta:</span></strong><span> Para que um docente da Unesp (em regime de dedica&#231;&#227;o integral &#224; doc&#234;ncia e &#224; pesquisa) possa participar de consultorias remuneradas por terceiros, &#233; necess&#225;rio que a pessoa interessada solicite a seu departamento, com aval do respectivo colegiado, uma autoriza&#231;&#227;o para exercer atividade remunerada concomitante. Tal atividade deve estar relacionada a seu campo de pesquisa e de saber acad&#234;mico-cient&#237;fico, sendo limitada a realiza&#231;&#227;o da atividade, caso aprovada, em no m&#225;ximo 8h de dedica&#231;&#227;o semanal.</span></p><p></p><p></p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><br> </p>]]></content:encoded></item></channel></rss>